EUA não devem usar Hollywood como arma de guerra

Andy Seiler

Da última vez que os Estados Unidos foram atacados, Hollywood reagiu. Em uma questão de meses, os estúdios estavam lançando filmes que apoiavam o esforço de guerra, a fim de manter o moral da população em alta.

Mas, desta vez a história não está se repetindo. Hollywood retirou de cartaz filmes que poderiam ser ofensivos, apagou cenas que mostravam o World Trade Center e cancelou o lançamento de filmes com imagens de Nova York.

No que diz respeito a elaboração de filmes que possam nos trazer inspiração para apoiar as tropas, eles estão paralisados. A verdade é que é necessário muito tempo para se fazer um filme.

"No passado, os estúdios eram capazes de lançar algo em menos de seis meses. Agora, trabalha-se com um prazo mínimo de 18 meses ou dois anos, da fase de roteiro até o lançamento. Os investimentos são muito altos, os riscos são grandes e existe um maior controle de qualidade", afirma Chris McGurk, vice-diretor da MGM e chefe de operações.

"Um trabalho desse tipo não poderia ser feito nem mesmo se todos nos uníssemos em torno da bandeira e utilizássemos o que há de mais moderno na tecnologia", afirma o diretor Gregory Hoblit, que está terminando "HartŽs War", um drama que se passa na Segunda Guerra Mundial, estrelando Bruce Willis.

"Se todos tivessem o mesmo desejo, concentrassem os seus instintos e partissem para fazer filmagens tocados por um "alerta vermelho", como se estivessem envolvidos em uma guerrilha cinematográfica; se não houvessem essas intermináveis negociações com os atores sobre os trailers, o dinheiro, as gratificações e todos of fatores que atrasam o processo de produção cinematográfica; ainda assim levaríamos no mínimo um ano e meio para fazer um filme".

Durante a Segunda Guerra Mundial, os diretores de estúdios desejavam atender a pedidos de Washington para fazer filmes pró-guerra. Os roteiristas e diretores estavam de prontidão. Os atores tinham contratos de longo prazo, trabalhando todas as manhãs. As cenas de batalhas eram filmadas em cenários reutilizáveis nos próprios estúdios. A filmagem de cenas externas era rara. Por exemplo, "Casablanca", com Humphrey Bogart, foi feito em dois meses, no verão de 1942.

Alguns cineastas passaram a trabalhar diretamente para o governo, incluindo o famoso roteirista Robert Riskin ("Aconteceu Naquela Noite").

"O meu pai, que era muito velho para ser soldado, abriu mão do seu lucrativo trabalho de estúdio e foi para Washington, trabalhar para o Departamento de Informações de Guerra", afirma Victoria, a filha de Riskin. "O Departamento fez filmes que exaltavam a guerra, a fim de estimular o patriotismo e criar a solidariedade entre a população. Em Hollywood, os estúdios faziam filmes que enalteciam o soldado norte-americano e demonizavam os alemães e japoneses, para influir na opinião pública".

Nada disso deve se repetir.

"Atualmente existe um forte sentimento patriota no país, mas não há nenhuma indicação de que o presidente Bush vá exercer influência sobre Hollywood da mesma forma que Roosevelt", afirma Riskin.

Desta vez há alguns obstáculos formidáveis. Antigamente os cineastas pelo menos contavam com um inimigo definido.

"Esta é uma guerra diferente, e é com esse fato que estamos lutando", afirma o diretor Harold Becker, cujo filme "Domestic Disturbance", com John Travolta, deve ser lançado no dia dois de novembro. "Durante a Segunda Guerra Mundial, os filmes muitas vezes consistiam em propaganda simplista. Mas a coisa funcionava. No entanto, essa fórmula não funcionaria na situação atual. O alvo com que nos defrontamos é simplesmente muito indefinido".

Segundo Mark Fleischer, ex-chefe de finanças da MGM e atual presidente do Fleischer Studios and Main Frame Entertainment, Hollywood tem um papel a cumprir. O pai de Fleischer, Richard, foi diretor do filme de 1970 sobre Pearl Harbor, "Tora! Tora! Tora!".

"Na guerra contra o terrorismo, Hollywood, ao personalizar as grandes questões por meio do drama, pode nos auxiliar, como sociedade, a entender as complexidades com que nos deparamos", afirma Fleischer.

Para o diretor Oliver Stone, isso não será uma tarefa fácil. "A multidão de Wall Street fez grandes investimentos no cinema como negócio, forçando essas companhias a ficar cada vez maiores", diz Stone. "Os indivíduos não têm mais importância. O que importa é apenas a corporação. É isso que assusta. Não há ninguém nos controles. Ninguém com quem falar. Não existe nada de humano com relação a esse processo".

Todd Field, que escreveu e dirigiu o filme "In the Bedroom", que estréia em 23 de novembro, afirma que os estúdios não são tão eficientes na tarefa de captar o espírito de uma era. "Eles estão sempre tentando descobrir quais são as tendências em voga no país, e todos acabam sempre errando".

Field gostaria de fazer um filme sobre o Oriente Médio e a cultura islâmica, que, segundo ele, é inteiramente incompreendida. Mas, para esse projeto, não espera a ajuda dos estúdios.

Talvez ele devesse procurar atingir uma platéia menor. Algumas pessoas dizem que a televisão é o meio mais capaz de responder à guerra de forma criativa.

"Os programas de televisão vão desempenhar o maior papel no curto prazo", afirma Stephen Unger, produtor que já ganhou um prêmio Emmy. "O público está procurando cada vez mais esses programas como uma válvula de escape, durante os períodos difíceis".

Unger e outros citam como exemplo de como a TV pode atender à essa demanda o episódio especial de "West Wing", exibido na semana passada, que teve uma audiência de mais de 24 milhões de telespectadores. A série "Third Watch", da NBC, também deve tratar diretamente dos ataques de 11 de setembro, nos seus três primeiros episódios, que estréiam na próxima segunda-feira.

Mas talvez de forma surpreendente, ao se considerar o sucesso de "West Wing", os executivos das redes de televisão dizem não esperar uma onda de programas sobre os ataques ou suas conseqüências.

"Realmente não temos nenhuma encomenda com os roteiristas para esse tipo de programação, nem tampouco estamos engajados em uma campanha para encorajar a realização desses trabalhos", afirma Sandy Grushow, que supervisiona a rede de televisão Fox e o estúdio 20th Century Fox. "A nossa filosofia é que, obviamente, não se trata de algo a ser explorado, nem tampouco de algo do qual temos que fugir".

Alguns dos membros da indústria cinematográfica são da opinião de que os escritores deveriam ser encorajados a trabalhar com esse tópico.

"Penso que os roteiristas de cinema e de TV têm uma obrigação moral", afirma Terry George, autor do roteiro de "Collateral Damage", o filme sobre terrorismo, com Arnold Schwarzenegger, que foi retirado de cartaz após os ataques.

"Os roteiristas deveriam desempenhar um papel nesse processo que estamos vivendo. Quando eu e Tim Sheridan escrevemos "Em Nome do Pai", a estória moral que tentávamos contar era a de dois inocentes que acabaram emaranhados na campanha terrorista do IRA. O IRA acreditava que os fins justificavam os meios. Nós argumentamos que os meios corromperam os fins de tal maneira que a luta por esses fins deixou de valer a pena. Essa máxima poderia se aplicar àquilo que fizeram os terroristas islâmicos. E poderia também se aplicar à guerra".

Ainda que não se fizesse nenhum filme sobre guerra, gente como Seth Zvi Rosenfeld - morador de Manhattan que escreveu e dirigiu "King of the Jungle", uma crítica à brutalidade policial em Nova York - acha que existe uma chance de que os estúdios se abram para tópicos mais sérios. "Tem sido cada vez mais difícil fazer tal tipo de filme. O fim dos anos sessenta e a década de setenta se constituíram em um dos melhores períodos do cinema norte-americano. Sob certos aspectos, esse fenômeno foi uma reação à Guerra do Vietnã e um reflexo da luta pelos direitos civis".

Mas ele não está certo de que tais mudanças acontecerão. "Todos no setor cinematográfico estão se perguntando, 'O que o público quer ver? O que é palatável?'. Não creio que alguém tenha uma bola de cristal para responder a essas perguntas. O escapismo tem sido a resposta dessa gente. A sua reação a tudo o que tem ocorrido".

Para o presidente da New Line Cinema, Robert Shaye, não há problema nenhum com essa tendência, e, segundo ele, pode-se tratar até de um fator positivo. "Se mudarmos a nossa perspectiva sobre a criação de filmes, a cultura norte-americana sairá empobrecida. Os filmes devem continuar fazendo aquilo que sempre fizeram, ou seja, entreter, divertir e iluminar a nossa época".

O especialista de cinema da Netflix.com, James Rocchi, apelidado de "Mr. DVD", concorda: "Não gostaria que Hollywood se desviasse da sua trajetória de forma muito acentuada, pelo mesmo motivo que Rudy Giuliani disse aos nova-iorquinos para voltarem ao trabalho, às compras e aos shows. O maior ato de desafio é entendermos que esses eventos trágicos ocorreram, mas nos recusarmos a deixar que eles alterem aquilo que fazemos ou o que somos".

Tradução: Danilo Fonseca

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