Novo esquema de segurança nos aeroportos inferniza a vida dos passageiros

Jayne Clark e Kitty Bean Yancey

Se existe uma constante para os passageiros de linhas aéreas nesses tempos de terrorismo, ela se chama inconsistência.

A rotina dos aeroportos, que antigamente era tão monótona que até mesmo aqueles passageiros que viajavam ocasionalmente podiam andar tranqüilamente pelos salões, se tornou um pantanal de imprevisibilidade após o dia 11 de setembro.

Com que antecedência se deve chegar ao aeroporto? Que tipo de bagagem de mão é permitido? Será que uma lima de unhas é considerada como sendo uma arma mortífera em potencial?

Desde o dia 11 de setembro, há poucas respostas para questões que eram consideradas simples, o que cria incerteza para os passageiros de toda a nação.

"A cada dia tudo muda", reclama Randy Kabrich, de Tampa, Flórida, que embarcou em 16 vôos no espaço de 16 dias desde que as linhas aéreas voltaram a operar, após os atentados suicidas contra Nova York e Washington. Kabrich, que é consultor, disse que foram 16 experiências diferentes. "É impossível saber o que nos espera nos aeroportos a cada viagem".

Parte da confusão se deve à mudança dos requisitos por parte da Administração Federal de Aviação. Esta semana, por exemplo, a agência impôs um sistema amplo de limite sobre a bagagem de mão, restringindo-a a um volume e a um item de uso pessoal, como por exemplo uma bolsa, uma mochila ou uma pasta executiva.

Parte da confusão se deve a procedimentos conflitantes entre os aeroportos e as linhas aéreas.

E outra parte ao fato de que, depois de 11 de setembro, em nenhum lugar a realidade se tornou mais visível para um maior número de indivíduos do que nos aeroportos da nação, onde as preocupações com a segurança estão atropelando o conforto dos passageiros.

"Estamos vivendo um período bastante existencialista", filosofa o porta-voz da Administração Federal de Aviação, Paul Takemoto.

Mas, o que os passageiros podem esperar? A resposta é: isso vai depender das circunstâncias.

A maior parte das companhias aéreas está aconselhando os passageiros a chegar com duas horas de antecedência para os vôos domésticos, embora muita gente esteja achando esse procedimento um exagero.

"Eu chego ao aeroporto com uma antecedência que varia entre quarenta minutos e uma hora e vinte minutos. Geralmente é necessário um período de cinco a dez minutos para passar pelos procedimentos de segurança", afirma Stacy Johnson, de Chicago.

Realmente, em muitos locais, a Continental Airlines voltou a fazer aos passageiros a mesma recomendação do período anterior aos atentados: Chegar com uma hora de antecedência para os vôos domésticos, e duas horas antes para os vôos internacionais. Por via das dúvidas, a companhia aconselha os seus usuários a acrescentar meia hora a essas estimativas.

No entanto, a maioria das companhias aéreas adotou uma atitude mais rígida. "Quando falamos em duas horas, estamos realmente querendo dizer duas horas", afirma Cindi Kurczewski, porta-voz da Delta Airlines. "E, em alguns aeroportos maiores, esse período pode ser ainda extenso".

David Govaker, de Arlington, Virginia, sentiu o gosto desse jogo de paciência na sexta-feira passada, na área de revista do Aeroporto Internacional de Baltimore/Washington. "A fila tinha o comprimento de quatro ou cinco quarteirões de uma cidade, e isso não é exagero", queixa-se Govaker.

Os passageiros relataram casos de espera nas filas por até quatro horas, na sexta-feira passada, no Aeroporto McCarran, em Las Vegas. Os pilotos que operaram no McCarran e em outros aeroportos chegaram a atrasar a partida dos vôos a fim de não prejudicar os passageiros que tiveram problemas para passar na segurança.

Ao mesmo tempo, alguns aeroportos adotaram suas próprias normas com relação à hora de chegada, que pode ser diferente daquela das companhias aéreas. Um porta-voz do Aeroporto Internacional Dulles, nas imediações de Washington, aconselha os passageiros a chegarem com três horas de antecedência, embora o web site do aeroporto fale em quatro horas. Os passageiros que embarcam no Aeroporto Hartsfield, em Atlanta, recebem a orientação para chegarem com três horas de antecedência nos dias de maior movimento - domingos, segundas e sábados. Mas há quem acredite que, à medida que os funcionários e os passageiros se acostumem com os procedimentos extras de segurança, os atrasos desapareçam.

"Os funcionários da segurança vão se tornar mais eficientes na sua tarefa. E o público vai preparar a bagagem de forma diferente, ajustando-se às novas regras", afirma Mike Donatt, porta-voz do Aeroporto Internacional Lambert-Saint Louis.

As filas podem parecer longas, mas a situação poderia ser pior: os vôos diários diminuíram em 22% desde 15 de setembro, de acordo com a Associação de Transporte Aéreo. E o número de passageiros sofreu uma queda de 37%.

Questão de identidade

Segundo os passageiros, as autoridades dos aeroportos estão exigindo que eles mostrem um documento de identificação emitido pelo governo por mais de três ocasiões em uma única viagem. Sempre se exige tal documento durante os procedimentos para o embarque, mas agora tal exigência é feita em pontos de revista e até mesmo na porta do avião.

Checagens repetidas de identidades se tornaram uma prática especialmente comum nos vôos internacionais e naqueles que passam pelo Aeroporto Nacional Ronald Regan, em Washington.

A maior parte dos funcionários dos aeroportos se recusa a fazer comentários sobre os pontos de identificação. "A checagem pode acontecer em qualquer lugar e a qualquer momento. Se os passageiros passarem por experiências diferentes quanto à segurança em diferentes aeroportos e em horários diferentes, isso não significa que os procedimentos de segurança sejam maiores ou menores em determinado momento", explica o porta-voz da Continental Airlines, Jeff Awalt.

Embora a maior parte das companhias aéreas afirme que tudo do que passageiro necessita para o embarque seja o tíquete emitido por e-mail, alguns passageiros que não possuem as passagens tradicionais estão tendo que se dirigir até o balcão para as obter.

"Pode acontecer de um funcionário da segurança solicitar que o passageiro vá até o balcão, mas a nossa política é de que o recibo fornecido por e-mail é o que basta para o embarque", afirma Davi Castelveter, porta-voz da US Airways.

Escrutínio rigoroso

A Administração Federal de Aviação estabelece os requisitos de segurança, mas as companhias aéreas podem impor regras de escrutínio mais rigorosas. Em geral, a principal companhia operando em um determinado aeroporto ou terminal é responsável pela checagem de segurança. E as decisões individuais tomadas pelos funcionários da segurança também fazem parte do processo.

Como resultado, as experiências nos pontos de revista diferem bastante.

"Não há consistência", critica Kabich, que voa 400 mil quilômetros anualmente, levando apenas a bagagem de mão. Ele está preocupado, pois não sabe se a grande maleta onde leva o seu computador e documentos vai atender à definição de "pasta executiva" ou se terá que ser examinada.

Na semana passada, Diana Maglott, de Dallas, esqueceu um saca-rolhas junto ao seu computador. Quando a bagagem passou pelo aparelho de raios-x, os funcionários da segurança do aeroporto de Detroit confiscaram o objeto.

Já Dan Elam, de Richmond, inadvertidamente deixou um canivete na embalagem do seu computador portátil. Apesar do escrutínio rigoroso em sete aeroportos, o canivete de lâmina longa não foi detectado.

A Administração Federal de Aviação, que proibiu "todos os instrumentos cortantes de qualquer material", segundo uma porta-voz, explicou melhor, esta semana, quais são os objetos proibidos nas bagagens de mão. As novas regras permitem que se levem cortadores de unha, aparelhos de barbear, tesourinhas de unha e guarda-chuvas. Porém, os saca-rolhas, tacos de golfe, tesouras de metal e limas de unha continuam proibidos.

Os detectores de metal, que foram calibrados na sua sensibilidade máxima, apitam constantemente. "As partes metálicas do meu sutiã dispararam duas máquinas detectoras de metal", conta Maglott. Anciãs que nunca tiveram nenhum problema com a lei, a não ser alguma multa por estacionamento indevido, estão sendo revistadas por guardas que, muitas vezes, se sentem tão desconfortáveis com as apalpadelas quanto as velhas senhoras.

Colleen Cowan, de Nyack, Nova York, teve que remover toda a roupa, peça por peça, no Aeroporto Kennedy, após algo ter disparado o detector de metais. Ela se recusou a tirar um suéter que teria exposto o seu ventre para centenas de pessoas. No final, descobriu-se que o problema estava no zíper de suas botas.

Os passageiros devem pensar em usar meias limpas para não passarem vergonha. Os detectores têm estado tão sensíveis que aqueles que fazem com que os alarmes disparem muitas vezes tem que tirar os sapatos.

Outras pessoas que têm passado por maus pedaços nos aeroportos são aqueles que compram passagens em um período de 48 horas antes da viagem. Eles são alvos de interrogatórios adicionais e revista de bagagens. Pelo mesmo transtorno passam os passageiros que são selecionados aleatoriamente por computador durante o embarque.

Novas perguntas relativas à segurança também têm sido feitas. Bill Hendrix, de Indianápolis, disse que lhe perguntaram se estava levando algum instrumento afiado na sua bagagem de mão. Já para outros, os funcionários perguntam se estão levando armas ou explosivos.

Kurt Pearson, de Matthews, Carolina do Norte, se pergunta sobre a utilidade de tais interrogatórios. "Será que as companhias aéreas realmente acreditam que um terrorista realmente responderia afirmativamente a essas perguntas idiotas?".

Já outros acham que as novas medidas de segurança deixam muito a desejar.

Douglas Manuel, de Herndon, Virginia, acredita que trata-se de apenas "uma reação reflexa" e que mudanças mais profunda precisam ser implementadas.

"São os mesmos velhos idiotas que trabalham na segurança", fulmina Kabrich. "Para ser bem franco, acho que tudo isso não passa de uma piada".

Mas a comissária de vôo da Northwest Airlines, Lisa Caldecott Gilbertson, que tem procurado tranqüilizar os passageiros mais nervosos, discorda. "Atualmente, voar é mais seguro do que antes".

Tradução: Danilo Fonseca

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