Investigadores tentam descobrir a rota do antraz

Steve Sternberg

West Palm Beach, Flórida -- Na manhã do dia 2 de outubro, o editor fotográfico de um jornal tablóide, Bob Stevens, de 63 anos, entrou em coma, em um hospital da cidade de Lantana, na Flórida. Os médicos suspeitavam de meningite, e o especialista em doenças infecto-contagiosas, Larry Bush, esperava confirmar o diagnóstico através do exame do liquido retirado da medula vertebral de Steven.

Mas o que Bush observou ao microscópio foi um campo circular crescente que faria com que alarmes soassem de Tallahassee a Washington, D.C., enviando ondas de choque por toda a nação.

O líquido da medula de Stevens estava repleto de "grandes bastonetes azuis", que logo seriam confirmados como sendo o Bacillus anthracis, uma antiga praga que ataca o gado bovino, caprino e ovino. O antraz praticamente nunca ataca seres humanos, a não ser que esses trabalhem em abatedouros ou tenham um contato próximo com os animais que se alimentam de pastagem. Stevens trabalhava em um escritório urbano.

"Por que é que eu encontraria antraz?", Bush se lembra de ter questionado. "Será que esse homem passou por alguma experiência que eu desconheço?".

Segundo a conclusão de especialistas federais, o que aconteceu foi o primeiro ataque biológico letal nos Estados Unidos. O ataque se constituiu no primeiro teste das defesas da nação contra as insidiosas armas dos bioterroristas; armas que, neste caso, parecem ter sido enviadas pelo correio, tendo sido detonadas apenas com a abertura de um envelope.

Desde a morte de Steven, que ocorreu três dias depois, sete dos seus companheiros de trabalho na American Media Inc., que publica vários tablóides populares de supermercados, também apresentaram resultados positivos para o antraz. Em Nova York, dois funcionários da NBC News, um policial e dois técnicos de laboratório, também desenvolveram sintomas. Em Reno, um número não divulgado de funcionários de uma agência local da Microsoft também podem ter sido exposto ao antraz, que impregnava fotografias pornográficas enviadas em uma carta da Malásia.

A abrangência das investigações se constitui em um desafio para os recursos à disposição dos especialistas em saúde pública, os funcionários de laboratórios, os médicos e os policiais encarregados de proteger o público. As lições aprendidas na Flórida já estão sendo aplicadas em Nova York, em Reno e em dezenas de comunidades de todo o país que estão enfrentando a ameaça do antraz.

"O que estamos presenciando é um grande teste para o sistema de saúde pública", afirma David Fleming, vice-diretor do Centro Federal de Controle e Prevenção de Doenças, que está desempenhando um papel central na investigação de saúde pública. "Até agora, o resultado que temos visto é muito bom".

Bush, do Hospital Memorial JFK, em Lantana, concorda. "A crítica que mais ouço é que não estamos preparados", afirma. "No entanto, creio que trata-se de exatamente o contrário. Os governos federal, estadual e municipal estão preparados para lidar com o problema. Temos que nos lembrar de que se trata de um trabalho em andamento. Nunca antes houve casos de bioterrorismo ou de antraz como esses".

Desvendando um mistério

Nos últimos dias de uma visita a Carolina do Norte, Bob Stevens achou que tivesse contraído uma gripe fortíssima. Ao dirigir de volta para casa, em Lantana, com a mulher, Maureen, Stevens estava tão febril e com o corpo tão dolorido que mal podia esperar para chegar em casa e cair na cama.

Chegando em casa, na segunda feira, primeiro de outubro, ele foi para a cama cedo, mas acordou poucas horas depois, vomitando, confuso e com uma febre de 39 graus. Segundo os médicos, entre 2h e 2h30, a sua mulher, preocupada, o levou de carro até a emergência do Hospital Memorial JFK, que fica a apenas alguns quarteirões de distância. Pela manhã, o seu estado tinha piorado tanto que os médicos foram obrigados a colocá-lo em um respirador artificial.

Suspeitando que Stevens estivesse com meningite espinal, os médicos coletaram amostras do líquido de sua medula para exames. A princípio, o temor dos médicos pareceu se confirmar. O fluido espinal é geralmente claro como água mineral. Mas o líquido de Steven estava turvo e cheio de leucócitos, um sinal indiscutível de infecção. Preocupados, os médicos chamaram Bush, especialista em doenças infecto-contagiosas, entre 6h30 e 7h, quando ele se dirigia ao hospital para uma reunião.

Bush levou o líquido espinal para o laboratório de microbiologia do hospital e o examinou ao microscópio. A imagem que viu o deixou confuso. Bush pôde observar bastonetes azuis em formato de pães, que geralmente não são a causa de meningite. "Eles poderiam ser bacilos, que eu não esperaria que causassem uma infecção tão severa em um indivíduo saudável", conta o médico. "São pouquíssimos os bacilos que podem levar a tal resultado".

Uma dessas raridades é o antraz. Mas o antraz, uma doença tipicamente ocupacional que atinge pessoas que lidam com animais susceptíveis à doença, não era uma possibilidade que fizesse sentido. Os médicos diagnosticaram menos de 20 casos da forma mais letal de antraz no século passado. "Por que eu estaria presenciando um caso de antraz, se a doença não era vista havia anos?", perguntou a si mesmo Bush.

Bush determinou que fosse realizados quatro testes preliminares, a fim de descartar a hipótese de a doença de Steven ter sido causada por antraz, mas nenhum deles eliminou de forma clara essa possibilidade. Bush notificou a diretora do Departamento de Saúde do Condado de Palm Beach, Jean Malecki, sobre o caso. "Eu não quis que houvesse boatos saindo do hospital, dizendo que tínhamos um caso de antraz, e que a diretora ficasse sabendo da notícia nas ruas. E, além disso, achei que talvez precisasse do seu auxílio".

Na terça-feira, dois de outubro, com a aprovação de Malecki, ele enviou amostras do sangue e do líquido espinal de Steven em um transporte noturno para o laboratório de microbiologia estadual, em Jacksonville. A essa altura, Bush estava "bastante certo" de que o seu paciente estava com antraz, mas os testes do laboratório estadual também levaram a conclusões inconcludentes. Na noite seguinte, os microbiólogos do Estado fizeram os seus próprios exames. Um dos exames apontou a presença do antraz, e um outro não. No entanto, nenhum dos exames identificava uma outra causa.

Naquela noite, os microbiólogos do laboratório estadual entraram em contato com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças. A agência, cuja sede fica em Atlanta, enviou um avião a Jacksonville para pegar algumas amostras e traze-las para os laboratórios do Centro para novos exames. Sem esperar pelos resultados, o Centro enviou dez epidemiologistas e dois especialistas em laboratório para a Flórida, além de dois epidemiologistas para a Carolina do Norte.

Bradley Perkins, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, chefiava a equipe da Flórida. Alguns epidemiologistas rastrearam os movimentos e os contatos de Stevens. Outros ligaram para hospitais para saber se havia novos casos de antraz. Os funcionários se instalaram em um laboratório estadual, em Miami, para ajudar a fazer os exames de uma esperada inundação de amostras. Na tarde de quinta-feira, quatro de outubro, após as investigações de campo estarem em andamento, o Centro e o laboratório estadual de Jacksonville confirmaram a terrível suspeita de Bush: Stevens era o primeiro norte-americano a ser diagnosticado como infectado pela forma mais letal de antraz desde 1978.

"Um caso isolado"

O secretário de Saúde da Flórida, John Agwunobi, fez a sua primeira declaração pública sobre o caso em uma entrevista coletiva à imprensa, na quinta-feira, 4 de outubro. Tommy Thompson, secretário de Saúde e Serviços Humanos, se manifestou logo a seguir, anunciando em uma entrevista de imprensa na Casa Branca, realizada no mesmo dia, que Stevens parecia representar "um caso isolado".

A saúde de Stevens continuou piorando. Na noite de quinta-feira os seus rins deixaram de funcionar. Na sexta-feira, os médicos realizaram uma hemodiálise no paciente, mas não tiveram sucesso. Na tarde da sexta-feira um outro órgão deixaria de funcionar: o coração de Steven. "Não fomos capazes de fazê-lo voltar a bater", afirma Bush.

No domingo, 7 de outubro, as investigações chegaram a um fator crucial. Exames médicos revelaram que um dos companheiros de trabalho de Steven, o funcionário da sala de correspondências, Ernesto Blanco, de 73 anos, também havia sido exposto à bactéria do antraz. No entanto, ele ainda não desenvolvera a doença, e pôde ser tratado com sucesso por meio de antibióticos. Exames realizados no local de trabalho de Steven detectaram esporos da bactéria do antraz no teclado do seu computador.

Essa descoberta fez com que o condado lacrasse imediatamente o prédio da AMI. Ela também fez com que a atenção dos investigadores se desviasse da visita de Stevens à Carolina do Norte para a sede da AMI em Lantana. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças enviou para o condado de Palm Beach uma quantidade de antibióticos suficiente para tratar mais de mil indivíduos.

O centro enviou ainda três especialistas em saúde pública para auxiliar os executivos da AMI e os assistentes sociais do Condado de Palm Beach a reunir mais de 770 pessoas que haviam estado na sede do jornal desde o dia 1º de agosto, a fim de que realizassem exames de antraz e recebessem aconselhamento profissional.

Na segunda-feira, funcionários de saúde estavam coletando material nas narinas das pessoas a fim de detectar esporos de antraz. Eles entrevistaram empregados do jornal, deram-lhes instruções sobre como proceder, e lhes forneceram um suprimento de antibióticos para 15 dias. Logo os especialistas do laboratório estadual, em Miami, e do Centro de Controle e Prevenção de Doenças estavam trabalhando freneticamente. Vários desses especialistas haviam acabado de fazer um curso sobre a identificação laboratorial de agentes de guerra bacteriológica.

No final da semana passada, os exames haviam identificado seis outros funcionários da AMI que tinham sido expostos à bactéria do antraz. Uma funcionária, Stephanie Daily, de 36 anos, também trabalhava na sala de correspondências. As identidades e as funções dos outros cinco funcionários da AMI não foram reveladas.

O chefe da equipe, Perkins, afirma que os exames ambientais descobriram a bactéria do antraz na caixa postal de um funcionário. Mas o FBI solicitou ao Centro que não divulgasse o nome do funcionário até que as investigações fossem concluídas.

Na noite de quarta-feira, dez de outubro, o juiz federal Guy Lewis, que atua na Flórida, anunciou que, embora não houvesse evidências ligando a crise no Estado com bioterroristas internacionais, "as autoridades estavam conduzindo uma investigação criminal a esse respeito". O secretário de Saúde da Flórida, Agwunobi, acrescentou: "Todas as evidências até o momento indicam que o problema com o antraz está restrito ao edifício da AMI".

Dois dias depois, os dirigentes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças anunciaram que estavam investigando incidentes similares em Nova York e em Reno. "Não creio que vamos enfrentar uma outra situação como essa tão cedo", afirma Perkins. "Mas esses incidentes fizeram com que ficássemos melhor preparados para lidar com eventos desse tipo no futuro. Algumas das pessoas que trabalharam nessa investigação já estão atuando em Nova York".

Tradução: Danilo Fonseca

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