Terrorismo e antraz deixam americanos à beira de um ataque de nervos

Nanci Hellmich e Robert Davis

Kori Desio, de 37 anos, assistente de uma grande empresa financeira na área de Washington, D.C., não abre mais nenhuma correspondência, a menos que conheça o remetente.

Ela vai pedir ao seu médico uma receita para comprar Cipro, um antibiótico utilizado no tratamento imediato do antraz, e quer falar com o médico do filho sobre a possibilidade de vacinar o garoto contra varíola. Mas, ao contrário de certas mulheres em Nova York e outras grandes cidades, ela não deixou de usar sapatos de salto alto para a eventualidade de ter que descer correndo as escadas de um edifício devido a um ataque terrorista.

Ela descreve a sua experiência como sendo "o medo do desconhecido". "Eu simplesmente não sei o que vai acontecer a seguir. Estou insatisfeita porque a nossa sensação de segurança nos foi retirada. Mas talvez a verdade é que o que sentíamos se tratasse o tempo todo de uma falsa sensação de segurança", queixa-se Desio.

Os norte-americanos como Kori Desio têm estado em uma verdadeira "montanha russa de emoções" desde os ataques de 11 de setembro, passando pelo terror explícito, pela raiva, pelo medo e pela incerteza. A lista de paranóias e preocupações só aumenta, à medida que se descobrem mais casos potenciais de antraz, e os especialistas descrevem outras formas de ataque terrorista, que incluem a contaminação da água e o envenenamento da comida. Tudo isso enquanto o governo alerta o país para outras ameaças desconhecidas.

Não é de se admirar que certas pessoas estejam tomando precauções extras, chegando a fazer reservas de água potável e a procurar vacinas. De fato, 31% dos norte-americanos já consideraram ou estão considerando a possibilidade de comprar um estoque de água mineral a fim de se preparar para um possível ataque terrorista; 25% já pensaram ou estão pensando em se vacinar contra o antraz e a varíola, e 17% querem comprar máscaras de gás, segundo uma recente pesquisa de opinião feita pela Time Magazine/CNN.

Apesar disso, a maior parte dos norte-americanos está mantendo a calma e cuidando de suas vidas - assistindo a jogos de futebol nos finais de semana, fazendo compras nos shopping centers, praticando jardinagem e colhendo abóboras para o Halloween. Nada disso surpreende os especialistas em saúde mental, que afirmam que o medo é normal em momentos como esse. Mas eles advertem que na época atual existe uma linha sutil separando os atos de prudência da paranóia total.

"A emoção que predomina atualmente no país é o medo. Pela primeira vez na vida, a maior parte das pessoas está realmente experimentando o medo existencial", afirma Norman Sussman, professor de psiquiatria clínica da Escola de Medicina da Universidade de Nova York. "E é normal que se fique amedrontado em tal situação". Sussman percebe os efeitos por toda a nação. Em uma reportagem de um órgão de imprensa do interior dos Estados Unidos, uma mulher de Iowa falou que, sempre que vai a igreja, fica pensando que aquela pode ser a última vez que faz o trajeto.

"A população parece encarar isso como um clichê, mas, por definição, o objetivo do terrorismo é infligir o terror", afirma Sussman. "Há um grupo de pessoas totalmente apavorado".

"Uma das mais poderosas forças que alimenta o medo no ser humano é a incerteza, e os terroristas operam sabendo disso", afirma Frank Farley, psicólogo da Universidade Temple, na Filadélfia, e ex-presidente da Associação Norte-Americana de Psicologia.

"O medo costuma paralisar as pessoas, de forma que elas podem deixar de fazer coisas que normalmente fariam, ou então tomar atitudes insanas", diz ele. "Se a população ficar paralisada de medo, os terroristas terão atingido um grande objetivo".

Porém, ele não acha que isso esteja ocorrendo ou vá ocorrer com a maior parte da população do país. "Algumas pessoas estão tomando medidas de precaução, mas a maioria não entrou em parafuso a ponto de se precaver exageradamente", diz o psicólogo. "Creio que os norte-americanos são ousados, voltados para a ação e criativos. Somos inventivos e assumimos riscos. Não creio que os Estados Unidos vão permitir que uma mentalidade de fortaleza cresça desmesuradamente".

Mary Hunter, professora de uma escola primária em Fort Collins, Colorado, é uma das pessoas que decidiu não deixar que o medo do terrorismo a incomode. "Eu não compraria uma máscara de gás. Creio que isso não seria lógico. Há tanta gente nesta nação que as chances de se tornar um alvo são mínimas", diz Hunter.

Ela acha que uma das razões pelas quais as pessoas estão tão preocupadas com o antraz é o fato de não terem ouvido falar na doença anteriormente. Hunter acredita que as chances de contrair antraz são mínimas, bem menores do que aquelas de contrair outra enfermidade que não tenha nenhuma conexão com o terrorismo, tal como uma intoxicação alimentar.

Segundo Farley, as populações de Nova York e de Washington podem se sentir mais vulneráveis e tomar mais precauções do que os moradores de outras cidades. E aquilo que para uma pessoa é considerada como sendo uma reação apropriada ao medo e à incerteza, pode não o ser para outra. Por exemplo, Farley afirma que as pessoas podem reagir diferentemente com relação às seguintes situações:

- Evitar multidões. Aqueles que se deparam com uma grande dose de incerteza podem decidir não ir a um concerto e, ao invés disso, comprar um CD. Já outros vão optar por ir ao concerto, dizendo, "Não vou deixar que terroristas interfiram na minha vida".

- Abrir correspondências. Os norte-americanos sempre jogaram fora o "junk mail", as correspondências com propagandas que abarrotam suas caixas postais, e, daqui por diante, essa tendência pode vir a ser reforçada. Porém, os terroristas provavelmente não enviariam nada que se parecesse com junk mail. "Mesmo assim, a possibilidade de um norte-americano comum receber uma correspondência contendo uma substância letal é desprezível", afirma Farley.

- Substituir os sapatos de salto alto por outros mais funcionais e confortáveis, a fim de correr em fuga de prédios em chamas. "Tal medida pode refletir um excesso de cautela, mas, afinal, qual é a importância de saltos altos?", questiona.

Ao ser perguntado sobre o seu próprio plano de prevenção, Farley diz que pensa em rever a ficha de vacinação de todos os membros da família e, a seguir, caso ocorra outro evento, poderá considerar outras medidas. Mas, por enquanto, ele está tocando a sua vida normalmente.

Um país inteiro vivendo no limite

O fenômeno do medo não é novo para os profissionais de saúde mental da nação. Depois que um prédio federal foi alvo de um atentado em Oklahoma City, as autoridades puderam observar todos os tipos de reação.

Alguns moradores foram tomados pela suspeita, relativa até mesmo aos parentes e amigos. Outros se tornaram mais sensíveis à luz e aos ruídos. Já outros passaram a manifestar explosões de raiva. Agora, a nação inteira se tornou um alvo - e foi atingida.

"A comunidade atingida pelo desastre se expandiu", afirma Phebe Tucker, professora de psiquiatria da Universidade de Oklahoma, que estuda os efeitos do ataque em Oklahoma City. "Os eventos atuais afetam todos aqueles que viajam de avião e, agora, há o medo quanto ao bioterrorismo. Tudo isso que está ocorrendo fez com que o país inteiro passasse a viver no limite".

Em períodos como esse, emoções negativas, tais como a raiva, são absolutamente normais. "Se formos pessoas sensíveis, é normal que tenhamos essas reações", diz ela, acrescentando que os indivíduos que já estejam lutando com sensações fortes podem despencar de vez. "Para as pessoas que já estão vivendo no limite da sua resistência psicológica, esses acontecimentos podem fazer com que percam o controle", afirma a psiquiatra.

Em um pronto socorro de Nova Jersey, uma mulher se recusava raivosamente a sair do local até que os médicos fizessem um exame no seu filho, que tinha um resfriado, para determinar se o garoto não estava contaminado com antraz.

"Fico pensando no que vai ocorrer na estação da gripe", afirma preocupado Stuart Weiss, diretor do departamento de prontidão para desastres do Sistema de Saúde Saint Barnabas, em Nova Jersey. "Como vamos lidar com tal coisa?".

As pessoas devem agir

Segundo os pesquisadores, uma das terapias mais eficientes após o atentando de Oklahoma City foi passar mais tempo com os amigos e a família. De acordo com Tucker, as pessoas também se beneficiam de exercícios, esportes e outras atividades que fazem com que esqueçam um pouco os fatos estressantes.

"Os indivíduos estão se sentindo mais inseguros", diz ela. "Mas, por outro lado, creio que as pessoas são flexíveis". Em determinado momento, os indivíduos terão que controlar os seus medos e seguir as suas vidas, diz Susan Newman, psicóloga social em Metuchen, Nova Jersey, e autora do livro "Little Things Long Remembered", que não foi lançado em português.

"Na nossa posição de cidadãos comuns, não temos idéia do que o inimigo possa estar planejando. E parar de viver as nossas vidas é algo que não faz sentido, e que pode levar à depressão", diz ela.

Além do mais, algumas das reações podem não ser efetivas. "Se a pessoa não usar uma máscara de gás 24 horas por dia, sete dias por semana, e se a máscara não se encaixar bem no rosto, o artefato será inútil", adverte.

Há pouca coisa que a maior parte das pessoas pode fazer, já que elas estão muito ocupadas cuidando das suas famílias, diz Newman. "Temos que relaxar e sermos confiantes, na esperança de que as pessoas que sabem como nos proteger estejam cumprindo sua missão".

Segundo Farley, as pessoas devem agir, ao invés de se sentarem em um canto e ficarem se preocupando com o terrorismo. Ele sugere que os cidadãos façam coisas pelas suas comunidades, como por exemplo se tornarem bombeiros voluntários. Farley está estimulando os seus dois filhos a coletarem doações para a Cruz Vermelha Norte-Americana no Halloween.

Ele está convencido de que os Estados Unidos vão vencer a guerra contra o terrorismo. "Aprenderemos com os nossos erros. Vamos melhorar e vence-los em todos os fronts, até lhes aplicarmos um cheque-mate. Pode ser que nunca erradiquemos inteiramente o terrorismo, mas ele nunca vai derrubar esta nação. Um país que fica aterrorizado devido à incerteza está em apuros. Não podemos ficar aterrorizados".

Tradução: Danilo Fonseca

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