EUA vivem dilema entre liberdade de imprensa e segurança nacional

Peter Johnson

Um mês após os Estados Unidos terem declarado guerra contra o terrorismo, o correspondente da ABC News no Pentágono, John McWethy, externa seu pessimismo.

O Pentágono "nos ofereceu pequenas porções de informações relativamente vagas a respeito dos bombardeios", ele afirma. "Eles informaram quando teriam início as operações especiais, e vão nos dizer pouquíssima coisa". E isto o preocupa.

"Eu não sou besta. Sei que operações secretas funcionam somente se você as mantiver distante da vista do público. E quando soldados americanos partirem para combate e começarem a morrer, será preciso descrever tudo isso de alguma forma para o público americano".

No momento em que a guerra contra o terrorismo toma impulso, o governo e a imprensa enfrentam o desafio de encontrar uma forma para cobri-la. Até o momento, houve cooperação de ambos os lados: a mídia, movida pelo senso comum, pelo patriotismo, pelo temor frente ao público (ou então pelos três fatores), endossou o clamor do governo por maior discrição.

Isto ficou muito claro na semana passada quando as redes de televisão, em uma manifestação de cooperação sem precedentes com a Casa Branca, concordou em examinar previamente vídeos de terroristas antes de levá-los ao ar.

Mas há também sinais de que a paciência da mídia está se esgotando, o que significa que ocorrerão novos conflitos.

O presidente Bush advertiu que esta guerra deveria ser lutada, em grande parte, nas sombras. Mas no sábado, líderes de 21 grupos jornalísticos afirmaram que medidas severas de segurança limitam a capacidade da mídia para oferecer à população informações necessárias à segurança de todos. Enquanto o governo deve tomar "medidas incomuns" em tempos de guerra, as restrições "colocam perigos à democracia americana", afirmou o grupo.

No programa "Reliable Sources" ("Fontes Confiáveis") desta semana, o correspondente da CNN Walter Rogers afirmou ter visto mísseis de cruzeiro serem lançados a partir do Navio USS Carol Vinson, mas que "a Marinha nos censurou. Só 20 horas depois nós conseguimos levar a matéria ao ar".

O correspondente da NBC no Pentágono, Jim Miklaszewski, prevê que no momento em que tiverem início as operações terrestres, "as relações entre a mídia e os militares serão ainda mais difíceis". Mas informações extra-oficiais o deixaram confiante de que o Pentágono manteria "alguma espécie de compromisso que nos permitiria cobrir algumas ações (secretas)".

Na Guerra do Golfo, ele disse, alguns repórteres "não publicaram suas matérias antes que a guerra terminasse por razões de segurança". Agora, "algumas organizações da imprensa talvez queiram aceitar estas regras".

"Obviamente, repórteres querem saber de tudo a toda hora, mas até agora acho que eles firmaram um compromisso que os colocaram numa posição limite. Há poucos dias, equipes de televisão e repórteres de jornais embarcaram para cobrir os primeiros ataques. Eles viram aviões. Viram mísseis de cruzeiro".

O presidente da Fox News, Roger Ailes, afirma: "Eu não sei se eles (o governo) sabem muito mais do que estão nos contando. Você não vê os democratas dizendo: 'eles não nos dizem nada'. Você não vê a mídia, que se opunha abertamente a George Bush antes do dia 11 de setembro, dizer: 'eles não dizem aquilo que nós precisamos saber'".

Diz o âncora do CBS News, Dan Rather: "Esta é uma situação singular vivida em um tempo singular. Isto posto, quero dizer que sempre fico temeroso quando autoridades governamentais tentam interferir na cobertura da imprensa, seja de forma ampla ou restrita".

O chefe da MSNBC Erik Sorenson concorda: "Não estamos vendo democratas contra republicanos. São assassinos maníacos contra os defensores da democracia".

Diz o presidente da CNN Walter Isaacson: "Devemos ser objetivos até mesmo em tempos adversos, mas não acredito que devemos manter a neutralidade moral para definir se os terroristas que deliberadamente assassinam pessoas inocentes são ou não são maus".

Até agora, muitos jornalistas afirmam que o governo encontrou o ponto de equilíbrio entre a segurança nacional e o direito do público à informação.

"Nosso sistema é forte porque o governo e a mídia são capazes de dialogar", afirmou o secretário de imprensa da Casa Branca Ari Fleischer.

Porém outros jornalistas demonstram desconfiança. Eles afirmam que há sempre algum problema quando a mídia demonstra sinais de solidariedade em relação àqueles que ela supostamente deveria fiscalizar.

"Conceder ao governo o benefício da dúvida é sempre questionável", afirma Walter Cronkite, ex-âncora da CBS News e correspondente na Segunda Guerra Mundial. "Nós devemos manter os olhos e os ouvidos abertos para novos atos de auto-censura que venham a ser adotados pela imprensa".

Os americanos, diz Cronkite, devem ter acesso às opiniões de Osama bin Laden, assim como tiveram às de Adolf Hitler, para em seguida "refletir a seu respeito". Sua opinião é corroborada pelo repórter do Washington Post, Bob Woodward, que conhece bem operações de governos em amordaçar a imprensa.

"Na minha opinião, você não deve tirar 'Mein Kampf' das livrarias", diz Woodward. "Deixe que cada um tenha a sua opinião no mercado de idéias. É importante que as pessoas ouçam o que bin Laden tem a dizer".

Woodward prevê que a mídia e o governo Bush ainda irão se acertar. "A Casa Branca está descobrindo que muitos profissionais da imprensa são mais cuidadosos do que eles pensavam. Nós já passamos por isto antes".

O apresentador do programa "Meet the Press" na NBC, Tim Russert, e que também dirige a sucursal da NBC em Washington, afirma: "Creio que temos que tomar muito cuidado para não deixar que preocupações legítimas em relação à segurança nacional não se transformem em censura".

Ele afirma que a mídia já deu provas de que não irá comprometer as forças militares norte-americanas antes que as bombas começassem a cair sobre o Afeganistão. "Vinte organizações de imprensa convocaram correspondentes, antecipando os ataques (de 7 de outubro), e não houve um único vazamento da mídia".

Obter informações junto ao governo nunca foi uma tarefa fácil, mesmo em tempos mais tranqüilos, afirma Matt Cooper, vice-chefe da sucrusal da Time em Washington.

No entanto, desde a Segunda Guerra Mundial a segurança dos Estados Unidos não havia sido tão ameaçada.

"Quando você enfrenta um inimigo que só tem um objetivo óbvio, que é matar pessoas, isto afeta um pouco as regras", afirma o correspondente do programa "60 Minutes", Morley Safer. "Pela primeira vez desde 1945, a imprensa se sente, com certa legitimidade, responsável pela segurança nacional".

Um dia após ter obtido a concessão das redes de televisão, a Casa Branca estendeu seu pedido à imprensa escrita e solicitou aos jornalistas que não publicassem transcrições integrais das falas de terroristas. A resposta foi fria.

"Precisamos conhecer nosso inimigo, saber o que ele pensa, em que ele acredita", afirma Clark Hoyt, chefe da Knight-Ridder em Washington.

O público americano pode tomar o partido do governo desta vez. Após a Guerra do Golfo, uma pesquisa da Gannett Foundation revelou que 60% dos entrevistados queriam que "os militares exercessem maior controle" sobre a mídia, e uma pesquisa recente feita pela Initiative Media North America indicou que 84% acreditam que "algumas notícias deveriam ser selecionadas".

"O público americano apóia este tipo de segredo", afirmou McWethy. "Eles não se sensibilizam com os lamentos dos jornalistas".

Com a palavra Fleischer: "Nossa nação já passou antes pela guerra, e o governo e a imprensa livre sobreviveram. Assim também será nesta guerra. De alguma forma, ao longo dos 225 de nossa história, sempre com imprensa e governo livres, nós encontramos nossos caminhos, e nossa nação sempre saiu ganhando com isto".

Tradução: André Medina Carone

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