Velocidade é fundamental na guerra de inteligência

Dave Moniz e Andrea Stone

Washington -- As forças armadas dos Estados Unidos estão enchendo os céus do Afeganistão com aviões de caça, aeronaves de grande porte dotadas de canhões automáticos e aviões não tripulados, em uma tentativa de fazer algo nunca tentado anteriormente. Identificar alvos aparentemente ambíguos no solo e, em uma questão de minutos, dar aos pilotos a permissão para atacá-los.

"Esta guerra se baseiam em atingir alvos móveis", afirma Al Campen, ex-oficial da Força Aérea, que escreveu o livro "The First Information War" ("A Primeira Guerra de Informação"), que trata da conjunção da inteligência com táticas militares durante a Guerra do Golfo.

Segundo fontes militares e analistas, um fator crítico na guerra do Afeganistão é a redução para dez minutos ou menos do tempo decorrido entre a localização, identificação e a ordem de ataque contra os "alvos de oportunidade". De acordo com os analistas, a tarefa de processar essa informação da inteligência e enviá-la àquelas pessoas que os militares chamam de "apertadores de gatilho" dificilmente foi tão importante para o sucesso em um campo de batalhas.

A capacidade de enviar dados digitais e de vídeo "reduz significativamente o tempo levado para localizar o alvo e permitir que os pilotos obtenham uma grande quantidade de informações que não podem ser obtidas por meio da comunicação vocal", afirma John Garstka, um perito civil em tecnologia.

A guerra do Afeganistão pode até não introduzir nenhuma tecnologia radicalmente nova, mas ela vai testar a capacidade do Pentágono em adaptar armas familiares, como as bombas guiadas a laser e as aeronaves de reconhecimento não tripuladas, a uma batalha na qual é difícil de se localizar o inimigo.

Há várias inovações:

- A Força Aérea armou os aviões não tripulados de reconhecimento, "Predator", com mísseis que podem ser disparados por controle remoto contra alvos que a aeronave encontra durante o seu vôo de busca.

- O Pentágono enviou pilotos veteranos para comandar aeronaves em locais próximos ao Afeganistão. Eles são capazes de aprovar ataques instantâneos contra alvos identificados pela inteligência de tempo real.

- Todos os F-14 e F-18 da Marinha estão equipados com instrumentos de dados no cockpit, conectados com navios de superfície, satélites, aviões de reconhecimento não tripulados e outras aeronaves. Isso fornece imagens de vídeo de tempo real, assim como coordenadas de posicionamento global (GPS) dos alvos.

- Embora isso deva levar alguns anos, a Força Aérea planeja instalar equipamentos de reconhecimento e comunicação em aeronaves de reabastecimento aéreo, aquelas que ficam mais tempo sobre o território inimigo ou próximas a ele.

Um grande defensor de um plano para se conseguir o mais rapidamente possível as imagens de tempo real é o general John Jumper, o novo Chefe do Estado Maior da Aeronáutica. Há muitos anos Jumper procura incrementar a rapidez de ataque aos alvos emergentes.

Tais decisões não são difíceis quando envolvem objetos fáceis de serem identificados, tais como tanques inimigos ou comboios militares. Em certos casos, os pilotos não necessitam de aprovação para atacar alvos militares identificáveis. Mas quando os dados da inteligência mostram imagens que não caracterizam nitidamente algo como sendo um alvo, como por exemplo uma coluna de veículos civis, a inteligência tem um problema antigo em identifica-lo e os comandantes em dar a ordem para atacá-lo.

Durante um café da manhã esta semana no Congresso, Jumper reconheceu que o maior desafio ao ataque rápido aos alvos é a mudança de uma cultura que incentivou a separação entre os oficiais de inteligência, os comandantes de aviões bombardeiros e os pilotos de caça.

"É fundamental que se desenvolva uma geração de guerreiros da inteligência", afirma Jumper.

No Afeganistão, o Pentágono tenta dar um salto à frente e integrar tecnologias de reconhecimento com armas guiadas com precisão. Segundo um oficial que está familiarizado com as decisões de ataque contra as forças talebans, o desafio não é conseguir imagens claras e em tempo real do inimigo. Segundo ele, as forças armadas atualmente interpretam imagens de reconhecimento ao vivo em menos de dez minutos. Segundo ele, o problema consiste em conseguir dos comandantes uma ordem instantânea para um ataque.

Desde a Guerra do Golfo, o Pentágono provou que é capaz de utilizar uma grande quantidade de mísseis que atingem o alvo com precisão e bombas, a fim de atingir alvos estacionários ou grandes formações de veículos militares. Mas na Operação Força Aliada, em Kosovo, em 1999, a incapacidade de identificar rapidamente e de procurar atingir alvos móveis - incluindo pequenos grupos de soldados - demonstrou as limitações da guerra aérea de alta tecnologia.

"O histórico desse tipo de operação não é bom", afima Christopher Bolkcom, um analista de aviação do Serviço de Pesquisa do Congresso. "E trata-se de algo difícil. Como saber se o cara que dirige uma caminhonete Toyota é um alvo legítimo ou algum pobre civil cuidando da sua vida?".

Segundo fontes militares, o Pentágono planeja colocar generais em grandes aeronaves de comando e controle, com a autoridade para dar a ordem instantânea de atirar, caso os aviões de combate ou aeronaves de reconhecimento dos Estados Unidos localizem terroristas ou lideranças do Taleban.

A nova estrutura de comando, que foi anunciada pela primeira vez na revista "Aviation Week", forneceria reconhecimento constante de certos alvos móveis, por meio da utilização de uma gama de tecnologias, incluindo satélites e aeronaves capazes de acompanhar a movimentação de pessoas e veículos.

Mas há quem manifeste ceticismo quando a capacidade de os militares conseguirem preencher a lacuna da inteligência em tempo real.

De acordo com Nick Cook, consultor de aeronáutica e espaço para a "Jane's Defense Weekly", durante a Guerra do Golfo o tempo decorrido entre a identificação de um alvo e o ataque era de "muitas horas, ou até de dias. E isso era algo de inaceitável em se tratando, por exemplo, da caça a plataformas móveis de lançamento de mísseis Scud".

Cook diz duvidar de que o Pentágono seja capaz de reduzir essa lacuna para um período menor do que várias horas, mesmo utilizando novas tecnologias.

Durante a guerra de Kosovo, a Força Aérea teriam sido capaz de enviar fotos tiradas por aviões de espionagem U-2, da Europa, para a Califórnia, e receber de volta os dados processados em menos de 12 minutos. Certas fontes dizem que o Pentágono teriam sido capaz de reduzir ainda mais o tempo necessário para o exame das imagens, determinando se elas se constituem em alvos.

"As Forças Armadas têm que, simultaneamente, inventar novidades e agir", afirma Davi Alberts, um especialista em inteligência do Pentágono.

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos