Guerra no Afeganistão requer cobertura jornalística independente

DeWayne Wickham

Washington, EUA -- Eu fui repórter fotográfico do exército durante a Guerra do Vietnã. Por um período de um ano, realizei o meu trabalho me locomovendo entre uma base militar no setor nordeste da Tailândia e uma base de bombardeiros B-52, localizada no sul do país.

A minha tarefa consistia em documentar os esforços de guerra das forças militares norte-americanas operando fora da Tailândia. Fotografei eventos mundanos nas bases militares e ações de combate em outros locais. Como repórter fotográfico militar, o meu trabalho era veicular imagens maquiadas de uma guerra cujos podres já estavam sendo amplamente expostos pelos jornalistas civis.

Os correspondentes de guerra que cobriram o conflito no Vietnã mostraram uma face da guerra que eu não podia revelar. Eles cobriram não só as vitórias nos campos de batalha, mas também as derrotas. Esses repórteres enviaram para os Estados Unidos histórias que geraram questionamentos quanto à versão dos eventos divulgada pelos militares. Eles revelaram segredos que estavam sendo escondido do público norte-americano sem um bom motivo. Para conseguir fazer tal coisa, os repórteres da Guerra do Vietnã tinham que chegar bem perto dos conflitos. Algumas vezes eles conseguiram se aproximar com o auxílio dos militares. Outras vezes, tiveram que usar a própria criatividade para chegar próximos à verdade.

Nos anos que se seguiram, os correspondentes de guerra passaram a ter um papel cada vez mais irrelevante. A sua atuação foi castrada pela censura imposta sobre a mídia durante a invasão de Granada, uma iniciativa do governo Reagan, e pelo controle das notícias sobre a invasão do Panamá, realizado pela administração Bush. Durante a Guerra do Golfo, o Pentágono manteve os correspondentes de guerra sob regime de rédea curta. Somente uns poucos ousaram buscar histórias que fugiam ao enredo pré-estabelecido pelos censores militares. E recentemente, o corte nos orçamentos, realizado por várias empresas de mídia, significaram um duro golpe para os correspondentes de guerra.

Portanto, não é de se surpreender que, quando o presidente Bush declarou guerra contra o terrorismo e despachou tropas norte-americanas para lutarem contra Osama Bin Laden e contra o regime Taleban do Afeganistão, os jornalistas enviados para cobrir essa campanha tivessem o seu trabalho reduzido ao anúncio de noticias de segunda e terceira mão sobre a batalha. Para esses jornalistas e para o público norte-americano, trata-se de uma guerra invisível. Não vimos nenhuma foto de tropas norte-americanas em ação, a não ser aquelas tiradas pelos fotógrafos de combate das forças armadas. Não pudemos observar imagens de soldados dos Estados Unidos no solo, nem no Afeganistão nem nos países vizinhos, para onde essas forças foram enviadas.

Assim como os correspondentes de guerra que correram para cobrir um conflito, no livro satírico, "Scoop", de Evelyn Waugh, os jornalistas norte-americanos que cobrem a guerra no Afeganistão estão fazendo o seu trabalho de uma distância confortável. Durante a desastrosa invasão russa do Afeganistão, os jornalistas norte-americanos se infiltraram naquele país e viram as lutas bem de perto. Agora, quando as forças dos Estados Unidos atuam em solo afegão, a maior parte das notícias sobre a ação militar é dada por repórteres que falam do Pentágono, do Paquistão e do Uzbequistão, ou de pontos que ficam bem atrás das frentes de batalha, em uma zona do Afeganistão que é controlada pelos comandantes locais em oposição a Bin Laden e ao Taleban.

É exatamente isso que o governo Bush deseja, e é exatamente esse jogo que a mídia não deveria fazer. A guerra é, por natureza, um negócio sujo. Em momentos como este, muita gente só quer a divulgação das grandes manchetes, não lhe interessando que sejam revelados os detalhes daquilo que acontece no campo de batalha. Essas pessoas querem que o público saiba que nós norte-americanos estamos vencendo, sem ter, entretanto, consciência do preço da vitória. Elas desejam correspondentes de guerra semelhantes aqueles que escreviam suas matérias do conforto de um quarto de hotel, no livro de Waugh, de 1938.

O papel do correspondente de guerra não é reproduzir os que os comandantes militares lhes dizem, mas sim observar de forma independente e noticiar como se desenrola a luta no Afeganistão. Só que isso fica impossível se o governo norte-americano não permitir que os jornalistas se aproximem do palco da ação - ou se as organizações de mídia deixarem que o fervor patriótico as impeçam de realizar o seu trabalho da forma correta.

Tradução: Danilo Fonseca

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