Especialistas temem que antraz fique resistente a antibióticos

Dan Vergano

Os especialistas em doenças infecciosas advertem que o uso exagerado do antibiótico Cipro, devido ao medo do antraz que se espalha entre a população norte-americana, pode fazer com que a droga perca o seu efeito terapêutico, deixando os pacientes mais vulneráveis às doenças comuns.

Na batalha biológica entre homem e micróbio, quando mais gente tomar antibióticos desnecessariamente, mais terreno ganha o inimigo microscópico, segundo Carol Baker, diretora da Sociedade de Doenças Infecciosas dos Estados Unidos.

Os antibióticos matam as bactérias - não só o antraz, mas também aquelas que causam infecções urinárias, gonorréia e infecções diversas em pacientes que sofreram traumatismos. Porém, com a utilização das drogas, especialmente naqueles casos em que os pacientes deixam de tomá-las por um período suficiente para eliminar completamente a infecção, a bactéria acaba por desenvolver resistência aos antibióticos.

"A área de Nova Jersey talvez já seja um foco de resistência aos antibióticos", diz Baker, referindo-se a uma corrida ao antibiótico Cipro que está ocorrendo na região. A resistência ocorre de duas maneiras:

- Mutações. Alterações aleatórias nos genes da bactéria podem fazer com que elas fiquem imunes aos efeitos das drogas. Os descendentes dessas bactérias ganham a competição com as variedades menos resistentes e se espalham de forma generalizada.

- Permutas. No nível microbiano, as bactérias permutam entre si informações genéticas, da mesma forma que crianças trocam figurinhas. Permutas entre bactérias não aparentadas entre si podem conferir às novas doenças uma maior resistência.

Em um "ambiente fechado", tal como o andar de um hospital, a resistência pode se instalar em uma bactéria em um período de apenas 24 horas, segundo Stuart Levy, pesquisador da Escola de Medicina da Universidade Tufts, em Boston.

De açordo com Levy, no ano passado, em todos os Estados Unidos, as bactérias resistentes foram detectadas em 77% das 90 mil mortes relacionadas a infecções nos hospitais norte-americanos. Os indivíduos que correm maiores riscos são as vítimas de acidentes automobilísticos, os idosos e pessoas com deficiências no sistema imunológico. Os portadores do HIV e os pacientes que sofreram transplantes correm um risco extremo de serem vítimas das bactérias resistentes.

As infecções que acompanham a pneumonia, cedo ou tarde vão adquirir resistência às fluoroquinolonas, a classe de antibióticos a que pertence o Cipro, de acordo com o microbiólogo Tony Hart, da Universidade de Liverpool, na Grã-Bretanha. Segundo ele, a bactéria Streptococcus pneumoniae é especialmente propensa a adquirir resistência aos antibióticos.

A cada ano o streptococcus é responsável pela hospitalização de mais de 100 mil pacientes de pneumonia, causando cerca de seis milhões de infecções de ouvido e matando 8,4 mil pessoas, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. Cerca de 40% dos casos já demonstram algum tipo de resistência aos remédios.

De acordo com Levy, nos últimos anos o desenvolvimento de novos antibióticos foi desacelerado devido à relutância da indústria farmacêutica em investir nessas drogas. Apesar da popularidade do Cipro, os antibióticos geralmente não são tidos como sucessos de venda ou geradores de grandes lucros.

"Estamos pedindo à população que não tome antibióticos, a menos que seja orientada nesse sentido por um médico", diz Baker. "Uma pessoa que toma antibióticos sem necessidade estará provavelmente disseminando a resistência ao remédio entre as pessoas com quem convive", adverte a médica.

Tradução: Danilo Fonseca

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