Pesquisadores tentam identificar origem de antraz enviado pelo correio

Dan Vergano

A busca da variedade de antraz utilizada nos ataques bioterroristas parece estar convergindo para um tipo similar àquele geralmente utilizado para testar a eficiência de vacinas em laboratórios.

A identificação da variedade exata poderia levar a pistas sobre a sua origem e indicar se a bactéria foi geneticamente modificada para se tornar mais perigosa. Porém, segundo os especialistas, o grande número de linhagens do micróbio e a sua ativa distribuição por laboratórios de todo o mundo tornam o trabalho muito difícil.

O Laboratório Nacional de Los Alamos, por exemplo, possui a listagem de mais de 1,2 mil variedades de antraz nos seus registros, cada um deles diferindo em maior ou menor grau no nível genético. O Laboratório Keim Genetics, da Universidade do Norte do Arizona, em Flagstaff, identificou 89 características genéticas distintas, ressaltando as diferenças entre as linhagens.

No ambiente natural, as linhagens de antraz tendem a se agrupar em certas regiões, permitindo que os pesquisadores rastreiem a sua origem após uma epidemia, segundo a porta-voz de Los Alamos, Nancy Ambrosiano. Infelizmente, tão logo uma variedade começa a ser trocada entre os pesquisadores, a sua ampla dispersão geográfica acaba por diminuir a eficácia do rastreamento.

Na semana passada, o chefe da instituição Homeland Defense, Tom Ridge, identificou as amostras de antraz colhidas na Flórida, em Washington, D.C., e em Nova York, como sendo idênticas, podendo mesmo constituírem partes de uma mesma linhagem. Os especialistas em antraz, incluindo Martin Hugh-Jones, da Universidade Estadual da Lousiana, em Baton Rouge, afirmam que as suspeitas convergem para uma variedade "similar, mas não idêntica", à chamada "variedade Ames". Os pesquisadores da Universidade Estadual de Iowa afirmam que essa linhagem foi isolada há duas décadas no Laboratório Nacional de Serviços Veterinários, do Departamento de Agricultura, em Ames, no Estado de Iowa. No entanto, o Departamento de Agricultura nega que o seu laboratório seja a fonte dessa variedade de antraz.

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, a variedade utilizada nos ataques com antraz ocorre normalmente na natureza. Um estudo publicado no periódico especializado "Applied and Environmental Microbiology" anuncia que variedades geneticamente próximas da linhagem Ames ocorrem naturalmente no Líbano, no Paquistão e no Kansas (EUA).

No Instituto do Exército para Pesquisas Médicas de Doenças Infecciosas, em Fort Detrick, em Frederick, Maryland, cientistas que trabalham com vacinas descobriram que a variedade Ames chega a ser mais perigosa do que uma variedade utilizada para fazer armas com antraz na década de 60. O presidente Nixon encerrou o programa ofensivo de armas biológicas do Exército em 1969.

Segundo David Franz, um ex-chefe de uma unidade de pesquisas militares, que hoje trabalha para o Southern Research Institute, os pesquisadores do exército utilizaram essa variedade potente para testar vacinas experimentais, como forma de desenvolver proteção para os soldados. Eles também distribuíram essa linhagem para vários outros pesquisadores, que, por sua vez, passaram o material para outros cientistas. A sua virulência faz dessa linhagem uma escolha assustadora como arma, quando comparada às outras variedades de antraz.

Devido ao fato de essa variedade servir como padrão de referência para o teste de vacinas, ela é utilizada por "milhares" de pesquisadores em todo o mundo, segundo Craig Smith, membro da Sociedade de Doenças Infecciosas do Comitê de Bioterrorismo dos Estados Unidos.

Ainda assim, comparar a variedade utilizada nos ataques com aquelas presentes nos laboratórios pode ser útil para os pesquisadores, segundo Hugh-Jones. O fato de pelo menos saber onde começar a buscar a origem da variedade pode fornecer pistas aos investigadores. Segundo Smith, um complicador é o fato de que os microbiólogos são geralmente "ratos de grupo", que mantêm e permutam repetidamente as linhagens de bactérias.

Algumas outras linhagens bem conhecidas são:

- Vollum. Variedade "bélica" desenvolvida para ser utilizada em bombas na década de 60, e que, segundo informações, existe no Iraque. Essa variedade possui um invólucro duro que protege a bactéria contra os ataques do sistema imunológico da vítima.

- Sterne. As bactérias mortas desta linhagem são utilizadas em vacina para o gado, já que elas não possuem um invólucro protetor. Ela é geneticamente próxima da variedade Ames.

- Pasteur. Desenvolvida pelo famoso biólogo para a fabricação de vacinas, em uma experiência que teve, porém, resultados não confiáveis. Essa variedade não possui as toxinas presentes nas variedades letais, mas é dotada de um invólucro protetor.

Tradução: Danilo Fonseca

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