Revistas de viagem tentam sobreviver ao caos no setor

Jayne Clark

As edições de outubro das revistas de viagem trazem manchetes que subitamente parecem irrelevantes ou infelizes. Isso porque, devido aos prazos de fechamento das matérias, poucas foram as que levaram em conta os ataques terroristas de 11 de setembro. Já as edições de novembro, que serão lançadas na próxima semana, virão recheadas de conteúdo sobre os desastres.

Mas, considerando-se os grandes prejuízos que atingiram a indústria de turismo desde o dia 11 de setembro, os editores de algumas das maiores publicações de viagens do país estão lutando para buscar uma forma de abordar o assunto, tendo em vista a interminável safra de más notícias, sem veicular mensagens frívolas ou mesmo ofensivas.

"Trata-se de algo difícil de fazer", reconhece Keith Bellows, editora da "National Geographic Traveler". "Precisamos ser responsáveis e responder rapidamente aos fatos. Estamos examinando cada imagem, cada manchete e cada história, e nos perguntando, 'Será que isso vai ser mal interpretado'?".

Por exemplo, a equipe editorial da "Travel & Leisure" decidiu rapidamente eliminar da sua edição de novembro uma propaganda da faca Laguiole, um instrumento favorito dos gastrônomos, comercializado como "a faca sem a qual você não pode viajar". Também foram retiradas da revista matérias sobre medo de voar e uma cidade do Oriente Médio, cujo nome a editora, Nancy Novogrod, se recusa a revelar.

Quanto à próxima capa, Novogrod diz: "Examino tudo com olhos bem diferentes. Obviamente não podemos lançar uma edição inteira sobre medidas de segurança e mudanças nos itinerários de viagens. Mas eu tenho uma tolerância muito maior para materiais que sejam muito luxuosos ou divertidos".

Os leitores vão ter de mergulhar na última edição da "Travel & Leisure" para descobrir que o local idílico que aparece na capa da revista fica em um dos quatro hotéis ultra-luxouosos da Malásia. O nome do país, cuja população é em sua maioria islâmica, não aparece na capa. Segundo Novogrod, os prazos de fechamento da edição impediram que a capa fosse modificada.

Mas existem incertezas mais profundas com as quais as revistas têm se deparado. Essas incertezas dizem respeito aos lucros com publicidade advindos da indústria de viagens, que foi duramente atingida. A "Expeditia Travels", lançada há um ano, está anunciando a sua saída do mercado este mês, alegando que foi atingida pelo declínio dos negócios "ponto-com" e pelos eventos de 11 de setembro. A "Travelocity", outra emergente da Internet, publicou a sua última edição de circulação paga em setembro/outubro. A empresa vai fazer uma transição para edições gratuitas, voltadas para uma audiência selecionada no futuro, segundo a porta-voz da companhia. E a "Budget Travel", de Arthur Frommer, provavelmente vai adiar a sua planejada expansão de seis para 10 edições anuais.

Ao mesmo tempo, enquanto alguns dos maiores editores reconhecem que estão navegando por mares desconhecidos, eles insistem em afirmar que as viagens de lazer não se tornaram nem irrelevantes nem frívolas devido aos atuais eventos mundiais. Uma pesquisa feita depois de 11 de setembro pela "Conde Nast Traveler" avaliou a propensão dos entrevistados em viajar. Segundo a pesquisa, os leitores fiéis não estão dispostos a deixar de viajar, de acordo com o editor, Thomas Wallace.

No último minuto, a revista retirou uma matéria sobre a Síria da sua edição de novembro, substituindo-a por outros temas, como por exemplo uma grande seção sobre segurança em aeronaves e aeroportos.

Os temas incluem um artigo da colunista Wendy Perrin, sobre estratégias para sobreviver ao "admirável mundo novo das viagens". Outros colunistas acrescentaram nas suas matérias observações sobre o impacto dos ataques.

A "National Geographic Traveler" manteve a sua capa sobre Nápoles ("Provando a Verdadeira Itália"), embora tenha retirado duas imagens do World Trade Center que constavam de outras páginas da edição.

A última edição da "Travel Holiday" fala sobre programas de finais de semana, conforme planejado, embora uma coluna sobre os hotéis de Nova York tenha sido substituída por uma outra, sobre segurança aérea.

Devido à ênfase dada aos aspectos culturais, educacionais e espirituais das viagens, Arthur Frommer acredita que a sua "Budget Travel" vai, de forma geral, ter que fazer menos reajustes do que alguns dos seus concorrentes. No entanto, ele diz que "existe uma pressão subconsciente para que limitemos a nossa cobertura aos tópicos domésticos. Francamente, no fundo eu estou lutando contra essa tendência. Mas, se percebermos que a demanda por viagens está caindo tanto quanto se teme, responderemos dessa maneira".

Otimista, Frommer, que há décadas defende os benefícios das viagens, afirma que "o público se acostumou demais às alegrias das viagens para abrir mão delas tão facilmente".

Tradução: Danilo Fonseca

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