Americanos gastam fortunas em segurança

Marco R. Della Cava

Nesses tempos enervantes, onda a única certeza existente é a incerteza, Janet Wise, uma avó de 58 anos, moradora de Houston e dona de um bom temperamento, decidiu que se sentiria melhor se passasse a andar armada e se tornasse uma pessoa perigosa.

Assim, nos últimos domingos, ela tem freqüentado o estande de tiro do American Shooting Centers, no George Bush Park, para treinar com a sua compacta pistola SigSauer de 9 milímetros. Os seus dois filhos estão acompanhando a mãe na tentativa de obter uma licença para o porte de arma. Mas o que choca Wise é o fato de o seu marido, Harold, um atirador de elite que foi ferido no Vietnã "e, desde então, nunca mais quis saber de armas", também estar pensando em freqüentar o estande de tiro.

"Sei muito bem que o fato de possuir uma arma não vai mudar o que aconteceu em 11 de setembro", diz ela. "Mas quero ter a sensação de que, se algo de catastrófico ocorrer aqui em Houston, eu serei capaz de proteger a mim e à minha família".

E a família Wise está longe de ser a única a adotar uma postura agressiva com relação aos seus temores. A ameaça, real ou imaginária, à segurança pessoal atingiu o seu ápice, neste momento em que o nosso país, historicamente isolado das guerras, se transformou em um campo de batalha para a nova guerra contra o terrorismo.

Como resultado, os norte-americanos de todas as partes da nação estão se armando de todos os recursos possíveis. Do antibiótico Cipro, para o combate ao antraz, a máscaras contra gás de fabricação israelense. De armas a guarda-costas. Enfim, vale tudo quando se trata de resgatar alguma sensação de segurança em um momento em que os ataques se tornaram pessoais.

Poucos indivíduos se dispõe a dar detalhes sobre a sua nova estratégia de defesa. A maioria manifesta a mesma preocupação: não querem aumentar as chances de se tornarem alvos. Mas um exame das várias empresas relacionadas à segurança demonstra como a nação está se movimentando para fortificar as suas regiões urbanas.

A venda de armas está em alta, especialmente para aqueles que adquirem a sua primeira arma de fogo. Companhias de alarmes para casas estão recebendo pedidos, tanto de novos clientes, como dos fregueses antigos, que desejam maior proteção. Academias de defesa pessoal orientadas para as técnicas antiterrorismo estão com as vagas lotadas.

As empresas de táxi aéreo estão tendo problemas em atender à demanda por aeronaves e pilotos. E as empresas de segurança, cujos funcionários protegem os ricos e famosos, estão percebendo que aqueles US$ 200 mil (R$ 546 mil) que costumavam ser destinados a uma Ferrari, podem agora ser empregados para o contrato anual dos serviços de um chefe de segurança de elite.

A impressão que se tem é que qualquer empresa que garanta segurança não consegue dar conta da avalanche de telefonemas. No entanto, vários especialistas detectam um traço de histeria no ar e apelam para que a nação mantenha a calma.

"Estamos presenciando muitos casos de reação exagerada", afirma Jerry Glazebrook, ex-guarda-costas de Henry Kissinger e de Salman Rushdie, que atualmente é o encarregado da filial norte-americana da empresa de segurança com sede em Hong Kong, Hill & Associates. "Não alimente a indústria de boatos. Use o intelecto que Deus te deu para avaliar o que é prático e o que é provável", aconselha Glazebrook.

Após o culto dominical e o jantar de família, atiradores de pistola e rifle vão até o estande de tiros do American Shooting Centers, em Houston. O número típico de freqüentadores em um domingo é de 600 atiradores. Recentemente, esse número subiu para mais de 800. "Nós estamos tendo muito lucro. Novas vendas, novas armas, novos clientes", diz o gerente do estande, James Burchfield.

Estamos na estação de caça e, geralmente, o estande é dominado pelos donos de rifles que vêm testar a precisão das suas miras telescópicas. Mas Burchfield teve de encomendar mais armas curtas (ao preço médio de US$ 500 a unidade), uma que a loja vendeu 30 unidades no mês passado - mais do que nos últimos seis meses combinados.

Vários cidadãos vão até a loja Schrank's Smoke 'N Gun, em Waukegan, Illinois, onde as vendas de revólveres e pistolas aumentaram em 50%. "Eles esperam nunca ter de usar essas armas, mas creio que essas pessoas as encaram como uma espécie de seguro", afirma o proprietário Dave Schrank.

Uma pesquisa recente realizada pela National Shooting Sports Foundation descobriu que houve um aumento de 25% na venda de armas no país, especialmente na Flórida, em Nova York e em Washington D.C.

Defesa Pessoal, segurança doméstica

Mas as armas de fogo não são para todos. Uma resposta mais comum aos eventos de 11 de setembro é o incremento da segurança doméstica e o aprendizado de técnicas de defesa pessoal.

No ramo desde 1951, a Pacific Alarm Systems, em Culver City, Califórnia, confia na propaganda informal para a publicidade da empresa. Mas desde o dia 11 de setembro, as instalações aumentaram em 18%. "Antigamente era comum que os consumidores perguntassem sobre os nossos serviços, mas que desistissem devido aos preços. Agora a situação mudou", afirma o gerente Bob Harris.

"Nós somos um negócio movido pela conjuntura", diz Laura Stepanek, editora de um jornal comercial voltado para a área de segurança, o "Security Distributing & Marketing". Segundo ela, uma pesquisa sobre o setor realizada na Internet revelou um aumento de 28% em novos projetos de alarmes desde os atentados. "Todos sabem que um alarme doméstico não oferece proteção contra atentados suicidas", diz ela. "Mas a população ainda assim tenta utilizar todos os recursos disponíveis para se proteger".

É esse fenômeno o responsável pelo encontro de mães, empresários e pilotos de avião nas quintas-feiras à noite na academia "The 911 Store", em Hollywood, na Flórida, para um curso de contra-terrorismo (US$ 60 por três horas de aula). Os alunos aprendem a se defender contra um ataque realizado com faca (bloqueie o braço elevado do assaltante logo acima do cotovelo), ficar fora da linha de fogo de um comandante de uma aeronave (não exponha a cabeça, até que o comandante anuncie que a situação está controlada) e se posicione para enfrentar um ataque com granada de mão (deite-se sobre as costas, com os calcanhares voltados para o explosivo e os braços sobre os órgãos vitais).

"Eu digo aos alunos que a guerra está no nosso quintal, e não no Afeganistão", afirma o dono da loja, Walter Philbrick. Christine Reinking, uma garçonete de Miami Beach, diz que está fazendo o curso para "aguçar os sentidos". Desconfiada e prática por natureza, ela agora pensa em exercer proteção para além do seu círculo individual. "Gostaria de conseguir emprego no Serviço de Imigração e Naturalização", afirma Reinking. "Quero localizar esses terroristas. Desejo fazer a minha parte".

De Nova York a Los Angeles por US$ 20 mil

O dinheiro pode não comprar amor, mas ele pode trazer paz de espírito. Pelo menos é o dizem aqueles que tentam lucrar com o nervosismo da elite.

"Estamos com problemas para conseguir pilotos e aeronaves em número suficiente para atender à demanda", afirma Drew Cheshire, da empresa de consultoria em aeronáutica, Aviation Research Group/U.S. Inc. "Isso se deve em parte ao medo de voar, mas também ao tempo que os vôos atualmente demoram".

Cheshire aponta uma falha na segurança: "Hoje em dia, basta apresentar um cartão de crédito para voar em um táxi aéreo". Ele diz que a Administração Federal de Aviação deve em breve restringir esse acesso fácil às viagens aéreas.

Mas, segundo Nigel England, diretor de operações da Presidential Aviation, de Fort Lauderdale, a conveniência pode ser o principal motivo pelo qual os ricos estão optando pelas aeronaves privadas. "Há um controle absoluto sobre quem entra nesse tipo de avião", explica. "Os passageiros não estão sujeitos às humilhantes revistas pessoais e de bagagens".

Embora o aluguel de aeronaves menos sofisticadas para distâncias curtas possa competir com o preço dos vôos comerciais, os custos da exclusividade aérea são geralmente altos: cerca de US$ 20 mil (R$ 54 mil) por um vôo costa a costa, a bordo de um jatinho Lear Jet 55 de oito assentos. O preço dobra se a aeronave for um Gulfstream III, de 14 lugares.

"Não dá para se justificar os custos baseado apenas nos números", diz England. "Estamos falando de conveniência e de segurança"

Os custos também não são um problema para Ron Kimnball, presidente da Texas Armoring Corporation, em San Antonio. Mais conhecido por modificar automóveis Chevrolet Suburban, de modo que se tornem à prova de bombas e de tiros de AK-47, pela quantia de US$ 65 mil, Kinball recentemente tem recebido pedidos de clientes interessados em fazer a blindagem de suas casas.

"Temos recebido vários pedidos de pessoas que querem construir uma sala segura para a família, onde todos possam se refugiar em caso de emergência", diz ele. O preço por um aposento modesto e sem janelas gira em torno de US$ 15 mil (R$ 41 mil). O mesmo quarto, dotado de janelas, sai pelo triplo desse valor.

"Os pedidos de blindagem de carros não estão aumentando tanto no momento", diz ele. "Mas, quando se trata de blindagem de casas, estamos recebendo cerca de 12 chamadas por dia. Antes do atentado, não havia nenhuma encomenda desse tipo".

James Bonds pessoais

Muita gente vê um guarda-costas como sendo o equivalente humano de uma casa blindada. Treinados em vigilância, defesa pessoal e manuseio de armas, um guarda pessoa é cada vez mais um item obrigatório para a elite dos negócios e da indústria de entretenimento.

"Na nossa empresa, o que costumava ocorrer era o chefe de segurança de uma companhia nos ligar em nome do diretor. Atualmente, é o próprio diretor que nos liga, com pedidos e perguntas específicas", afirma Kenn Kurtz, diretor gerente de assuntos corporativos da Steele Foundation, uma agência global de segurança com sede em São Francisco.

Em Nova York, aumentou o número de chamadas de clientes tradicionais para a Pavillion Agency. Segundo o diretor da firma, Clifford Greenhouse, essas pessoas estão preocupadas com a possibilidade de se tornarem um alvo", afirma.

Segundo Greenhouse, a contratação de um dos seus melhores agentes, com experiência nas forças especiais norte-americanas ou israelenses, pode custar mais de US$ 150 mil (R$ 409,5 mil) por ano. Além da proteção pessoal, esses homens são treinados em coletar informações (Qual é o nível de segurança do trajeto de automóvel do patrão para o trabalho? Será que a casa nas montanhas, em Aspen, pode ser invadida?) que fazem com que os clientes fiquem sempre longe dos apuros.

Não é de se surpreender que as empresas de guarda-costas estejam prosperando. Steve Begelow, ex-diretor de prevenção de crime na Carolina do Norte, dobrou o tamanho do seu próximo seminário para treinamento de agentes de segurança. O número de participantes chega agora a 800.

"Essa é uma indústria em expansão", afirma Bigelow, cuja empresa, a Executive Security International, sediada em Aspen, no Colorado, oferece um curso de 600 horas por US$ 6,5 mil (R$ 17,7 mil). Os iniciantes na carreira ganham US$ 50 mil (R$ 136,5 mil por ano).

Ter um James Bond pessoal te protegendo parece ser uma solução perfeita. Mas há um problema preocupante com relação a esses serviços.

"Todos os nossos planos se baseiam na premissa de que o autor do atentado deseje sobreviver à sua missão", explica Jon McDowall, diretor de investigação da Per Mar Security Services, em Davenport, Iowa, que possui 15 escritórios espalhados pelo meio-oeste. "No entanto, caso o elemento esteja disposto a morrer, temos um grande problema para detê-lo".

Segundo os especialistas em segurança, tudo isso faz com que o eixo da discussão se desloque daquilo que os esquemas de segurança podem fazer pelo indivíduo. Bigelow afirma que a medida mais responsável que pode ser tomada pelos cidadãos é encarar a nação como sendo um gigantesco projeto comunitário de vigilância.

"Temo que esta se trate de uma guerra sem fim", diz ele. "Portanto, precisamos começar a assumir responsabilidades para com a segurança da nossa família, da nossa vizinhança e do nosso país. Temos que proteger uns aos outros. É isso que eu creio que possa ser chamado de patriotismo".

Tradução: Danilo Fonseca

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