EUA se ressentem de um líder na luta contra o bioterrorismo

Steve Sternberg

Quase um mês após os médicos terem diagnosticado o antraz em um homem na Flórida, as autoridades da Casa Branca ainda buscam um líder capaz de inspirar confiança ao público e de fornecer respostas a complexas questões médicas sobre uma doença que não foi suficientemente estudada nos seres humanos.

Vários oficiais da administração estão se revezando no microfone para dar declarações à nação sobre a crise do antraz hora em andamento. Até o momento, o secretário de Saúde e Serviços Humanos tem exercido o principal papel como porta-voz do governo Bush nessa crise.

Na segunda-feira houve indicações de que a ele se juntaria o diretor de Segurança da Pátria, Tom Ridge, que anunciou que desempenharia um papel bem mais amplo na crise. Ele planeja dar entrevistas coletivas à imprensa sobre a questão do antraz três vezes por semana.

Mas especialistas em saúde pública e outros indivíduos questionam se Thompson, Ridge ou qualquer pessoa que não seja especialista em medicina seria capaz de fornecer as respostas que o público, a mídia e os médicos procuram.

Três cientistas proeminentes - Bruce Alberts, presidente da Academia Nacional de Ciências (NSA), William Wulf, presidente da Academia Nacional de Engenharia, e Kenneth Shine, presidente do Instituto de Medicina da NSA - divulgaram um comunicado na segunda-feira:

"Os norte-americanos não podem confiar em relatórios ou informações oriundas de setores estranhos às comunidades médica e científica, que podem até ter boas intenções, mas não possuem dados concretos para fundamentar as evidências".

James Curran, reitor da Escola Rollins de Saúde Pública da Universiade Emory, disse que os ataques de 11 de setembro e a guerra contra o terrorismo aumentaram a necessidade de se contar com uma liderança nessa área. "Os fatos estão ocorrendo rapidamente", afirma Curran, que já foi encarregado de um programa governamental de combate à Aids. "Esses fatos ocorrem em frentes múltiplas, envolvendo inúmeros indivíduos. Por isso, uma liderança coordenada e unificada é importante".

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), que desempenhou um papel importante ao explicar ao público epidemias como a de Aids e de hepatite C, foi dessa vez eclipsado pelo FBI e pelos funcionários do governo e da saúde.

A agência afirma que tem demonstrado relutância em falar sobre o assunto por dois motivos. Primeiro, o CDC hesita em passar por cima das autoridades estaduais e municipais, que, pela lei, são as responsáveis pela saúde pública em suas comunidades. O CDC não pode investigar nenhuma epidemia sem ter sido convidado a faze-lo pelo Estado em questão, e os seus diretores temem que não serão chamados a ajudar, caso alienem os seus colegas municipais.

Segundo, as autoridades afirmam que o CDC tem sido freqüentemente ultrapassado pelo FBI, que está lidando com as investigações criminais referentes à crise do antraz.

"O que estamos procurando fazer é trabalhar de forma complementar", disse o diretor do CDC, Jeffrey Koplan, quando as agências examinavam os primeiros casos, no sul da Flórida, há quase um mês. Mas as autoridades de saúde pública dizem que o público sofreu com a falta de informações confiáveis, um vácuo que acabou sendo preenchido pelos boatos e conjecturas que agora preocupam Shine e os seus colegas. Parte das informações foi deliberadamente sonegada, e outras declarações foram enganosas ou confusas.

Por exemplo, líderes do Congresso teriam sido informados no dia 20 de outubro sobre a potencial letalidade do antraz encontrado na carta enviada ao líder da maioria no Senado, Tom Daschle. Daschle disse que o antraz tinha as características de uma arma sofisticada. No entanto, Ridge afirmou naquele mesmo dia que o antraz presente na carta mandada a Daschle era "indiscernível" das amostras enviadas em outras cartas.

"A mim parece que o CDC precisa dar um passo à frente e assumir o papel de fonte de informações na qual o público confie", afirma Tara O'Toole, do Centro de Estudos de Biodefesa Civil da Universidade Johns Hopkins.

Reservadamente, autoridades do governo afirmam que uma parte da culpa pelo vácuo nessa liderança é da Casa Branca e da Secretaria de Saúde e Serviços Humanos, onde agentes da imprensa oficial insistiram em aprovar todos os pedidos de entrevista dos jornais de circulação nacional e dos programas televisivos de notícias. Até mesmo Thompson expressou frustração com a situação.

"Em determinados momentos fiquei frustrado por não conseguir informações tão rapidamente quanto desejava", diz ele. "Estamos sempre fazendo mudanças para obter as informações em menor tempo".

Duas semanas atrás, o diretor do CDC, Koplan, e Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, quebraram o silêncio relativo e passaram a aparecer em programas de televisão e em artigos de jornais.

O público não foi o único grupo deixado sem respostas. Especialistas em doenças infecciosas dizem que aqueles que estão na linha de frente do setor de saúde pública nos Estados Unidos estão lutando para responder a questões urgentes dos pacientes, no que diz respeito aos riscos do antraz ou de outros germes utilizados na guerra biológica.

Craig Smith, diretor de doenças infecciosas do Hospital Phoebe Putney, em Albany, Georgia, diz que as comunicações não fluem com rapidez da esfera federal aos médicos nos consultórios. "Todos os médicos nos Estados Unidos sabem que, tão logo algo seja discutido na CNN, os seus telefones começarão a tocar", diz ele. "Os médicos não deveriam ter que depender da mídia para receber informações que lhes teria que ser passada diretamente, em tempo real".

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos