Presidente do Egito acusa Sharon de promover "derramamentos de sangue"

Javier Valenzuela

Cairo, Egito -- Hosni Mubarak acredita que a União Européia deve fazer "um esforço máximo", incluindo advertências e pressões, para obrigar Ariel Sharon a negociar o nascimento de um Estado palestino, que inclua os locais sagrados muçulmanos de Jerusalém. Para o presidente egípcio, a política agressiva de Sharon está criando "uma nova geração de terroristas" como os de 11 de setembro. "Os europeus e os americanos devem saber que deixar as coisas continuarem assim é muito perigoso", diz ele.

Mubarak recebeu El País no palácio presidencial no bairro de Heliópolis, no Cairo. Tem 73 anos, está há 20 no poder e é um homem de cabelos escuros, rosto faraônico, baixa estatura e constituição corpulenta. Fala fluentemente inglês, com uma voz grave, rouca e bela. Transformou-se em "rais" (presidente) depois do assassinato de seu antecessor, Anuar Sadat, pelo grupo Jihad, hoje dirigido pelo egípcio Ayman Al Zawahri. Desde então efetuou um combate implacável contra os grupos armados fundamentalistas e pede a convocação de uma conferência internacional que negue aos terroristas o direito de asilo político.

El País: Desde 11 de setembro o senhor adverte Washington de que ninguém terá paz sem a existência de um Estado palestino. O senhor tem algum plano, alguma sugestão concreta para ressuscitar o processo de paz no Oriente Médio?

Hosni Mubarak: O processo de paz não avançará enquanto não houver esforços reais dos Estados Unidos e da União Européia. Tanto americanos como europeus têm um interesse real em não deixar a situação como está, porque se deteriorará cada vez mais, e até Israel estará em perigo. Só a paz dará estabilidade ao Oriente Médio, e nunca haverá paz enquanto não houver uma solução justa para o problema palestino. Somos a favor de um Estado independente palestino, porque é a melhor garantia para a segurança de Israel. E também somos a favor do direito de Israel existir nessa parte do mundo, dentro de suas fronteiras. Não podemos deixar que o problema persista porque então será um desastre para todos. Os europeus e os americanos devem saber que deixar as coisas continuarem assim é muito perigoso.

El País: O senhor tem alguma esperança de que o processo de paz possa desenrolar-se com um personagem como Ariel Sharon como primeiro-ministro de Israel?

Mubarak: Se Ariel Sharon deseja a paz, pode fazer a paz. Mas não vejo uma estratégia dele nessa direção. Desde que chegou ao poder só promove destruição, derramamento de sangue, matanças e violência por toda parte. Está morrendo gente inocente, tanto israelense como palestina. Sharon deveria perceber que sua política nunca conduzirá a uma situação segura para Israel.

El País: A imprensa egípcia chama o senhor de "pioneiro" na luta contra o tipo de terrorismo islâmico que protagonizou o 11 de setembro. O Egito combate esses grupos há 20 anos, desde que mataram seu antecessor, Anuar Sadat. O que aprenderam?

Mubarak: Esse tipo de gente cometeu crimes no Egito e alguns fugiram para a Europa, onde lhes foi dado asilo político e atenção nos meios de comunicação. Segundo nossa experiência, imaginamos que essa gente se estenderia por toda parte. Deduzimos isso de nossas investigações policiais e judiciais. E por isso desde 1984 pedi uma conferência internacional sobre terrorismo. Na ocasião, disse que nenhum país está fora do alcance desses terroristas. Mas muitos países não acreditaram a princípio. Disseram: "Ah, não, isso não vai nos afetar, é um problema do Egito, isso acontece porque no Egito há desemprego e pobreza". Mas não, a pobreza existe em toda parte, incluindo os Estados Unidos, o país mais rico do mundo. Eu vi pessoalmente crianças comendo lixo nos países ocidentais. Quero dizer uma coisa: neste país, no Egito, nenhuma pessoa vai para a cama com fome. Talvez o povo não seja muito rico, mas todo mundo tem o que comer. Esse tipo de terrorismo não é um problema da pobreza. Muitos dos que estão cometendo esses crimes são ricos.

El País: Antes de 11 de setembro, países como o Reino Unido negavam ao Egito a extradição dos islâmicos ali refugiados por causa dos métodos sumários, incluindo julgamentos militares e pena de morte, que se aplicam aqui.

Mubarak: Sim, defendiam os direitos humanos dos criminosos! E se esqueciam completamente dos direitos humanos dos inocentes mortos. Este país é regido pela primazia da lei e aqui temos democracia e imprensa livre. Fora falam da "imprensa oficial egípcia", mas aqui não temos imprensa oficial. Chamam de oficiais jornais como "Al Ahram", "Al Akbar" ou "Al Gumuría", sobre os quais não temos controle, que criticam o governo diariamente. Neles escreve todo mundo: os comunistas escrevem, os fanáticos escrevem, os extremistas escrevem.

El País: Voltemos à conferência internacional sobre terrorismo que o senhor propõe. Quais seriam seus objetivos concretos?

Mubarak: Teríamos que aprovar uma convenção internacional muito estrita para lidar com os grupos terroristas. Não se deve dar-lhes asilo político, e deve-se apresentá-los imediatamente aos tribunais, é preciso impedir suas movimentações de dinheiro. Todos os países do mundo, grandes ou pequenos, deveriam aplicar a convenção que surgisse da conferência internacional. Senão o perigo é muito grande.

El País: E se não é pobreza ou falta de liberdade, quais são as raízes do terrorismo islâmico que vocês sofreram no Egito e que os Estados Unidos sofreram em 11 de setembro? Por que vocês também negam que tenha a ver com a religião muçulmana.

Mubarak: Esses extremistas querem controlar os países com seus conceitos, suas idéias. Aproveitam-se da democracia. Não se encontra um só terrorista nas ditaduras, desaparecem imediatamente. Eles prosperam na atmosfera da democracia, da liberdade de imprensa, da primazia da lei. Porque vão aos tribunais adiar seus casos por um ano, dois anos, três anos e enquanto isso continuam matando. Existe gente desse tipo na Espanha, na França, nos Estados Unidos. Querem controlar tudo. Seu terrorismo é ideológico, está relacionado a idéias errôneas e totalitárias. Não tem nada a ver com a pobreza ou a falta de liberdade de expressão.

El País: Grupos como o de Bin Laden também tentam obter legitimidade e apoio popular com o problema palestino, embora em seu caso tenha sido a posteriori.

Mubarak: Sim, o caso palestino é uma fonte de terror. As pessoas estão ficando muito revoltadas ao ver diariamente na televisão a matança de crianças palestinas. Isso cria um problema muito complexo. E há outro assunto muito importante para os muçulmanos: os lugares sagrados de Jerusalém. Os muçulmanos podem lutar por eles durante centenas de anos. No mundo árabe e muçulmano ninguém jamais aceitará deixar os lugares santos de Jerusalém sob a soberania de Israel. Esse é o sentimento de nossas opiniões públicas e é um bom sentimento.

El País: Os americanos estão há três semanas e meia bombardeando o Afeganistão, e na Europa e nos próprios Estados Unidos começa a crescer certa inquietação, para não falar no mundo islâmico. Os bombardeios matam por engano civis e destroem os hospitais sem que se perceba para breve um final da campanha, com a captura de Bin Laden. O senhor crê que a aviação é o melhor instrumento para lutar contra o terrorismo?

Mubarak: Isso deveria perguntar aos Estados Unidos, porque eu não conheço seus planos. Os americanos estão muito furiosos, e com razão, pelo que aconteceu em 11 de setembro, e quando há bombardeiros há erros. Somos contra a morte de civis inocentes e discuti isso com o presidente Bush, que me disse que estão fazendo o possível para não matar inocentes.

El País: Mas a partir da experiência deste país, muitos egípcios dizem que a melhor maneira de lutar contra o terrorismo é usar a polícia, os serviços de inteligência e, conforme o caso, forças militares mas terrestres.

Mubarak: Isso depende do tipo de terrorismo e do terreno em que atua. Eu nunca estive no Afeganistão e não sei dizer o que se pode fazer. Os americanos têm os dados e as fotos, e os britânicos, que estiveram lá, conhecem a psicologia do país e podem lhes dar melhores conselhos.

El País: O senhor vai passar dois dias na Espanha e sem dúvida refletiu sobre o papel da União Européia na atual crise mundial. Não acredita que os europeus deveriam ser mais ativos na questão palestina?

Mubarak: A Europa está muito próxima do Oriente Médio e se vê muito afetada por tudo o que acontece aqui. A União Européia, com a cooperação dos Estados Unidos, deveria fazer o máximo esforço para persuadir o governo israelense de que deve negociar para alcançar um acordo definitivo. O que está fazendo o governo israelense com os palestinos está ajudando a criar uma nova geração de terroristas que será muito difícil de conter.

El País: Que tipo de mensagem forte a União Européia poderia enviar a Sharon para que aceite sentar-se para negociar um Estado palestino?

Mubarak: A União Européia deve empregar seus próprios meios para conduzir esse assunto. Com advertências, com pressões, com todos os meios a seu alcance, e os europeus os conhecem melhor que nós. Mas também creio que devem fazê-lo em estreita cooperação com os Estados Unidos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos