Remédio para combate do antraz apresenta riscos à saúde

Rita Rubin

Chegou um momento em que John Ford não sabia o que seria pior: adoecer com a inalação de esporos do antraz ou continuar a tomar o antibiótico Cipro para evitar a doença.

Ford, funcionário do correio em Washington, D.C, começou a tomar o Cipro em 22 de outubro já que visitara com freqüência as instalações postais da agência Brentwood, responsável pela entrega da carta enviada este mês ao gabinete do senador Tom Daschler. Assim como vários funcionários que tomaram a medicação profilática, Ford passou a ter diarréias, náusea e câimbras.

Porém, mesmo assim, Ford decidiu continuar tomando o antibiótico: "Já que sou uma pessoa ponderada, achei melhor passar por esse sofrimento do que me arriscar a contrair o antraz", afirma Ford, de 66 anos, que trabalhava com os dois funcionários da agência Brentwood que morreram na semana passada devido ao antraz contraído por inalação.

Os três mil membros da área postal onde trabalha Ford estão entre os dezenas de milhares de norte-americanos que foram aconselhados a começar a tomar o Cipro devido a uma possível exposição ao antraz. A experiência de Ford serve para ilustrar alguns fatores importantes relacionados aos antibióticos e ao antraz.

Nenhuma medicação é benigna, portanto, somente aqueles que realmente podem ter sido expostos ao antraz devem tomar antibióticos, e só devem fazê-lo se forem orientados por um médico. Tais indivíduos precisam tomar o Cipro ou um outro antibiótico em questão por 60 dias, independentemente de experimentarem efeitos colaterais desagradáveis ou de se sentirem perfeitamente bem.

Segundo Bradley Perkins, um dos maiores especialistas em antraz do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) trata-se de uma questão de equilíbrio. "Por um lado, não queremos que ninguém contraia antraz se houver forma de impedir que isso ocorra", diz Perkins. "Por outro lado, não é do nosso interesse que as pessoas tenham graves reações adversas a uma medicação potencialmente tóxica, que precisa ser tomada por 60 dias".

De acordo com Perkins, o CDC se comprometeu a monitorar indivíduos que tomam Cipro e outros antibióticos para prevenir o antraz. A agência deseja acompanhar a ocorrência de efeitos colaterais e descobrir quantos dos indivíduos que começaram a tomar antibióticos continuaram fazendo uso do medicamento por 60 dias, conforme é aconselhado.

Se os médicos muitas vezes acham difícil persuadir os pacientes a tomar os medicamentos por dez dias, o que dizer de dois meses. Quando os pacientes não tomam os antibióticos até o fim, como foi prescrito, as bactérias remanescentes podem se tornar resistentes à droga e se proliferar, levando ao reaparecimento da doença.

Ford diz não saber quantos dos seus colegas pararam de tomar os antibióticos prescritos para prevenir o antraz. Mas ele diz que conhece dois casos de pessoas que foram hospitalizadas devido aos efeitos colaterais do Cipro.

Segundo Ford, somente na segunda-feira um outro funcionário lhe disse que havia ido ao pronto-socorro devido a vômitos constantes. Ford conta que esse funcionário trocou o Cipro pela doxiciclina, um membro da família das tetraciclinas. Ford vai fazer o mesmo na quinta-feira, quando a sua dose inicial de Cipro, de dez dias, terminar.

Em um estudo realizado com macacos expostos ao antraz, tanto a doxiciclina quanto a penicilina, assim como o Cipro, foram mais eficazes do que um placebo.

Na terça-feira, a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) divulgou um documento trazendo informação explícita sobre as doses de doxiciclina e penicilina a serem administradas aos indivíduos expostos ao antraz. A FDA está encorajando os fabricantes da doxiciclina e da penicilina, ambos remédios baratos e genéricos, a acrescentar essa informação às suas bulas.

A doxiciclina e a penicilina também têm os seus riscos como, por exemplo, problemas gastrointestinais. E os médicos geralmente não prescrevem a doxiciclina ou outras tetraciclinas para crianças menores de oito anos, já que essas drogas demonstraram causar problemas para o esmalte dos dentes.

Ainda assim, a doxiciclina e a penicilina têm uma história bem mais antiga do que a do Cipro, que foi aprovado em 1987. A doxiciclina vem sendo utilizada há mais de 30 anos, e a penicilina há mais de 50, segundo a FDA.

Até o momento, todas as variedades de antraz que foram identificadas mostraram ser sensíveis à doxiciclina e a outros antibióticos da família das tetraciclinas, além de à penicilina e ao Cipro.

Mas devido à preocupação com a possibilidade de que certas variedades de antraz tenham sido desenvolvidas para resistir aos outros antibióticos, os funcionários de saúde pública têm aconselhado todos aqueles que possam ter sido expostos ao antraz a começarem pelo Cipro. Tão logo os exames confirmem que a variedade em questão é sensível a outros antibióticos, pode-se trocar o Cipro por esses últimos.

Douglas Fish, professor da Escola de Farmácia da Universidade do Colorado, diz que o Cipro geralmente é bem tolerado. "Presenciar dois indivíduos serem hospitalizados devido a efeitos colaterais do remédio é algo muito incomum". Mesmo assim, Fish, que é autor de um relatório sobre efeitos adversos ligados ao Cipro e a outros antibióticos da família das fluoroquinolonas, diz que "existem alguns efeitos colaterais incomuns e raros que podem ser bastante graves".

O Cipro pode diminuir o metabolismo da cafeína, observa Fish. "Eu mesmo já presenciei casos de indivíduos que são grandes consumidores de café", conta o professor. "Quando começam a utilizar o Cipro, esses indivíduos passam a ter problemas sérios", tais como dor de cabeça e insônia. Ford diz que aconselha aqueles que tomam o antibiótico a não ingerir mais do que duas xícaras de café por dia.

O temor de que o Cipro e outras fluoroquinolonas pudesse causar uma gama mais ampla de efeitos adversos levou à criação do site Fórum de Reações Adversas aos Antibióticos à base de Quinolona.

Jay Cohen, um professor de medicina preventiva e familiar da Universidade da Califórnia em San Diego, conheceu no site 45 indivíduos que tiveram reações adversas, 11 deles ao Cipro.

Em um estudo que deve ser publicado na edição de dezembro do periódico especializado "The Annals of Pharmacotherapy", Cohen conclui que as fluoroquinolonas podem estar associadas a efeitos adversos graves e de longa duração, envolvendo o sistema nervoso e outros órgãos. Devido ao atual interesse no Cipro, o periódico publicou na semana passada o estudo de Cohen no site.

"Trata-se de uma droga bastante eficiente, mas quando causa efeitos colaterais, eles podem ser bem piores do que aqueles causados pela doxiciclina e outros antibióticos", adverte Cohen. "Os pacientes têm o direito de serem informados sobre os riscos".

Tradução: Danilo Fonseca

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