Estoques de alimentos podem ser alvos de ataques terroristas

Anita Manning

Enquanto as autoridades federais reforçam a segurança nos aeroportos e investigam os casos de antraz na costa leste dos Estados Unidos, os cientistas e políticos estão ficando cada vez mais preocupados com relação a um outro possível alvo para os terroristas: as reservas de alimentos.

Um ataque que afetasse a agricultura poderia ser economicamente devastador e generalizado, segundo Craig Smith, especialista em doenças infecciosas do Hospital Memorial Phoebe Putney, em Albany, Geórgia. "Estamos falando sobre ramificações geopolíticas", diz Smith, que faz parte de uma equipe que trabalha com o problema do bioterrorismo para a Sociedade de Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (IDSA).

"Somos uma sociedade aberta, com livre acesso à informação científica", diz ele. O Departamento de Agricultura intensificou as suas operações de vigilância de doenças e as restrições às importações, após os surtos de febre aftosa e da doença da vaca louca no Reino Unido. "Mas sabemos que, sempre que um novo surto ocorre em alguma parte do mundo, os terroristas enviam os seus cientistas para obter amostras", diz ele. "Não podemos ficar paranóicos, mas temos que ser cautelosos".

Os líderes políticos estão manifestando preocupação, entre eles o senador Bill Frist, republicano do Tennessee, que na semana passada advertiu que o estoque de alimentos da nação pode ser o próximo alvo dos terroristas. "Está claro que precisamos fazer mais em termos de prevenção e prontidão", afirma o senador.

"A segurança dos alimentos não pode mais permanecer como uma questão segregada da nossa segurança nacional", acrescenta o senador Dick Durbin, democrata de Illinois.

Medidas de precaução

De acordo com os cientistas, entre as áreas que preocupam estão as criações de animais e as lavouras, que poderiam ser dizimadas por uma epidemia de febre aftosa ou por uma doença agrícola como a ferrugem do arroz e do trigo, que poderia se espalhar pelos campos como um incêndio.

Segundo Charles Sizer, diretor do Centro Nacional de Segurança e Tecnologia de Alimentos, do Instituto de Tecnologia de Illinois, os alimentos processados e embalados preocupam menos. O processamento - incluindo o cozimento e, mais recentemente, a irradiação de carne vermelha, frango e outros produtos - aliado ao empacotamento de alta tecnologia, reduzem a contaminação por micróbios a um nível mínimo.

"Nos últimos anos, a indústria alimentícia investiu pesadamente na segurança", afirma Sizer. "Desde os ataques de 11 de setembro, o nível de consciência subiu muito. Todas as principais indústrias alimentícias estão avaliando os seus procedimentos de segurança e buscando formas de aprimora-los. Há muito trabalho nesse sentido sendo realizado por detrás dos bastidores".

Embora tenha se falado muito sobre a falta de preparo do sistema de saúde pública para lidar com uma epidemia de grandes proporções, já existem algumas medidas de precaução em vigor, segundo Sizer. "Os recursos de rastreamento são inacreditáveis. Sabemos exatamente de que campo se originou uma safra de ervilhas e para onde ela foi".

"Apesar das precauções e do aumento da vigilância, é preciso um programa nacional de pesquisa e de desenvolvimento que apresente novas vacinas e terapias, a fim de fazer frente ao 'novo horizonte do bioterrorismo'", alerta Thomas Inglesby, do Centro para Estudos de Biodefesa Civil da Universidade Johns Hopkins.

Ao falar no último domingo em uma conferência da IDSA, em São Francisco, ele disse que novas pesquisas com certeza vão se voltar para algumas das outras vulnerabilidades críticas existentes no nosso planeta, em termos de saúde pública e de doenças infecciosas.

Para ilustrar o que disse, ele mostrou uma foto de uma montanha fumegante de gado britânico que havia sido sacrificado para impedir a disseminação da febre aftosa na epidemia do verão passado.

"Pode-se tomar providências melhores do que essa para se conter uma epidemia de febre aftosa", disse Inglesby. "Podemos desenvolver uma vacina que possa ser usada de maneira generalizada, e que não tenha conseqüências adversas sobre o estoque de carne".

Segundo o porta-voz do Departamento de Agricultura, Kevin Herglotz, os cientistas estão trabalhando com esse problema. "Temos um programa de pesquisas ativo, relacionado à vacina da febre aftosa, bem como a tecnologias que poderiam detectar melhor as doenças animais", diz ele. "Precisamos garantir que, especialmente devido ao que ocorreu em 11 de setembro, façamos investimentos apropriados nesse tipo de pesquisa e na ciência conduzida nos nossos laboratórios. Vários senadores já solicitaram que nos dediquemos mais ao problema".

Inspetores em alerta

O presidente Bush propôs o investimento de US$ 45 milhões (R$ 121 milhões) no Departamento de Agricultura, como parte de um fundo de emergência para a bio-segurança. "Isso auxiliará a aperfeiçoar a próxima fase das nossas atividades de preparação de emergência e ajudará a incrementar as nossas necessidades críticas no campo da infraestrutura", afirma a secretária de Agricultura, Ann Veneman. "Tomamos as medidas apropriadas. No entanto, temos que nos manter vigilantes no sentido de protegermos os alimentos e a agricultura da nação".

Segundo ela, entre essas medidas está o aperfeiçoamento das medidas de segurança nas instalações do Departamento de Agricultura, a elevação do estado de alerta nos portos de entrada e nas fábricas de processamento de alimentos, e uma melhor coordenação com outras agências, incluindo o novo Departamento para a Segurança da Pátria. De acordo com Veneman, o Departamento de Agricultura também forneceu cerca de US$ 2 milhões (R$ 5,38 milhões) aos Estados, para que esses aprimorem os seus sistemas de prontidão para fazer frente a emergências.

"Estamos em estado de alerta para emergências o ano todo, devido à ameaça da febre aftosa", afirma Herglotz. Segundo ele, mais de cinco mil inspetores, veterinários e outros funcionários do Departamento de Agricultura estão de prontidão em todo o país, trabalhando em portos, laboratórios de veterinária e nos campos, inspecionando as lavouras, a fim de detectar qualquer sinal de doenças. "Além disso, mais 7,6 mil inspetores de segurança de alimentos trabalham em frigoríficos e abatedouros de frangos, em alto estado de alerta", diz ele. "Contamos com todas essas linhas de defesa a nosso favor após os episódios de 11 de setembro".

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos