EUA gastam US$ 200 bi com avião militar inútil nas guerras do século 21

John Omicinski

Washington, EUA -- Há alguns dias, o Pentágono realizou a maior compra da história militar mundial, investindo US$ 200 bilhões na compra do Joint Strike Fighter - conhecido pela sigla JSF.

Porém, ironicamente, o avião provavelmente será inútil para as guerras do século 21.

Apesar de ser uma máquina de guerra de qualidade, o JSF é incapaz de deter terroristas, não é utilizável em guerras urbanas e poderia ser considerado como pouco mais do que um brinquedo caro em locais como o Afeganistão.

Simbolicamente, o JSF provavelmente constará nos livros como o símbolo da guerra moderna - entrando em ação no momento em que a atividade bélica está regredindo um milênio para a época dos "Assassinos Persas". Assim como o Taleban, os Assassinos utilizaram e venderam drogas como o haxixe para financiar uma onda de terror contra reis e príncipes.

Ter o Joint Strike Fighter é como possuir uma espada feita com aço da mais alta qualidade quando o inimigo está armado com mosquetes rudimentares, foices e enxadas enferrujadas.

Quando o inimigo dorme em cavernas, não usa uniformes e opera demolindo arranha-céus, para que serve um Joint Strike Fighter?

No seu profético livro de 1991, "The Transformation of War" (A Transformação da Guerra), Martin van Creveld predisse que as armas mais modernas e sofisticadas estariam se transformando em "dinossauros" ou em "antiguidades artesanais e falsificadas" de uma era de combate há muito terminada.

Apesar da sua condição de superpotência, aqueles Estados Unidos que eram capazes de produzir 100 mil aeronaves por ano durante a Segunda Guerra Mundial hoje têm dificuldades de colocar em operação 100 novas aeronaves anualmente.

Os eventos de 11 de setembro e o Afeganistão consolidaram o holandês van Creveld, que escreveu 15 livros sobre história militar e estratégia, além de ter feito palestras freqüentes no Colégio de Guerra Naval dos Estados Unidos, como sendo um futurólogo de primeira linha.

"Como se fosse um homem que tomasse um tiro na cabeça, mas ainda assim conseguisse cambalear, dando alguns passos à frente, a guerra convencional pode estar dando o seu último suspiro. À medida que os conflitos de baixa intensidade passam a dominar o cenário, muito do que tem sido considerado como a estratégia padrão no decorrer dos dois últimos séculos demonstrará ser inútil", escreveu ele há uma década, quando a Guerra do Golfo estava em progresso.

"Nas guerras futuras as batalhas serão substituídas por combates rápidos, bombardeios e massacres", previu ele com precisão. "O número de armas será reduzido, mas elas serão mais sofisticadas".

Era necessário ter muita confiança para escrever tal coisa em 1991, quando o futuro parecia dizer respeito apenas a armas de precisão e plataformas supersônicas de ataque.

A teoria de van Creveld prevê todo o cenário da guerra mudando conforme a nação-estado, um conceito que tem apenas 350 anos de idade, está ficando nitidamente enfraquecida.

"Se, como parece ser o caso, o Estado não for capaz de se defender de forma eficaz contra os conflitos internos ou externos de baixa intensidade, então com certeza ele não possui um futuro pela frente", previu van Creveld.

E, fazendo uma observação que tem implicações claras para a condução da guerra contra Osama Bin Laden e os seus protetores talebans, van Creveld conclui: "Caso o Estado se engajar em tal conflito de forma séria, então ele terá que ganhar de forma rápida e decisiva... Realmente, o temor de dar início a esse processo tem sido um fator preponderante por trás da relutância demonstrada por vários países ocidentais em particular para fazer frente ao terrorismo".

Nas guerras futuras, todas as apostas serão diferentes. As guerras vão ser travadas não tanto por território, mas pelas "almas dos homens", escreveu van Creveld, com o pressentimento de um Nostradamus.

E, nesse tipo de conflito, tudo pode acontecer, conforme a carnificina de 11 de setembro demonstrou.

Novas regras serão escritas. Esqueça a Convenção de Genebra - os civis são tanto combatentes quanto vítimas. Os líderes dos Estados, antes considerados intocáveis, passam a ser alvos qualificados.

Assim como o presidente Bush exigiu a captura de Bin Laden "vivo ou morto", pode-se apostar que, se os Estados Unidos se voltarem contra o Iraque no próximo estágio da sua batalha contra o terrorismo, nenhum tipo de armamento - talvez até mesmo pequenas armas nucleares - será excluído da luta para assassinar Saddam Hussein.

"Podemos presenciar uma revolução ocorrendo bem debaixo dos nossos narizes", escreve van Creveld em resumo. "Assim como nenhum cidadão romano deixou de ser afetado pelas invasões bárbaras, da mesma forma, em vastas extensões do mundo, nenhum homem, mulher ou criança vivos hoje serão poupados das conseqüências das novas formas de guerra que estão emergindo".

"As comunidades que se recusarem a encarar esses fatos ou que se deixarem levar por uma fantasia sobre uma paz duradoura que nunca presenciaremos, com toda a probabilidade deixarão de existir", afirma van Creveld.

Tradução: Danilo Fonseca

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