Presidente do Paquistão é considerado um "ditador gentil"

Paul Wiseman

Islamabad, Paquistão - Pervez Musharraf é o mais recente de uma longa série de generais paquistaneses que conquistaram o poder à força. Mas ele é diferente que todos os ditadores militares do país que o antecederam.

Em um país que possui uma história de chacinas políticas, ele libertou ileso o líder democraticamente eleito, que foi deposto em um golpe militar desfechado por Musharraf em 1999. Em um país com um legado de políticos falsos e desonestos, ele é uma pessoa que tem um estilo de comunicação direto e que mostra disposição para tomar decisões difíceis e permanecer fiel a elas. E que outro ditador tem um apelido de família como "Mushi"?

"Ele não é um farsante", afirma Rifaat Hussain, analista político da Universidade Quaid-I-Azam, na capital paquistanesa. "O general não é dado a uma retórica vazia. Ele não costuma minimizar os problemas".

A decisão mais difícil tomada por Musharraf - concordar em apoiar os Estados Unidos na sua campanha militar contra o Afeganistão e a organização Al Qaeda, de Osama Bin Laden - vai garantir a ele uma recepção com tapete vermelho neste sábado, quando o ditador se encontrará com o presidente Bush em Nova York, em uma viagem para falar na Assembléia Geral das Nações Unidas.

Ao retirar o apoio do seu país ao Taleban, no Afeganistão, Musharraf apostou ser capaz de fazer frente à feroz oposição dos extremistas muçulmanos do país e de conquistar o apoio internacional de que precisa para recuperar a economia paupérrima e endividada do Paquistão.

No ano passado, o presidente Clinton não quis sequer ser visto dando um aperto de mão em Musharraf. Naquela época, os Estados Unidos tinham dois problemas com o general: o fato de ele ter derrubado o primeiro-ministro eleito, Nawaz Sharif, e o teste de armas nucleares realizados pelo Paquistão.

Agora os Estados Unidos o consideram como um aliado fundamental, devido aos dados do serviço de inteligência paquistanês sobre o Taleban e à utilização de bases militares paquistanesas. Os Estados Unidos concordaram em reduzir a dívida externa do país, que absorve quase que 60% do orçamento do país.

Musharraf nasceu na Índia há 58 anos e se mudou para o Paquistão depois que o subcontinente foi dividido, ao término da dominação colonial britânica, em 1947. Ele fala inglês fluentemente. Quando jovem, Musharraf entrou para o exército, onde teve uma ascensão rápida.

Como chefe do alto comando do Exército, ele foi o responsável pelo planejamento de um ataque à área da Caxemira administrada pela índia, em 1999. O Paquistão terminou sendo derrotado na operação. Após esse episódio, o seu relacionamento com Sharif, que foi democraticamente eleito, se deteriorou. Em outubro de 1999, ele derrubou Sharif. Musharraf chama o antigo sistema político de "falsa democracia" e prometeu reconstruir as instituições políticas paquistanesas e, depois, permitir a realização de eleições.

Pessoalmente, Musharraf projeta a imagem de um homem de família. Ele adora os seus dois cães (o que cria um mal estar em uma sociedade muçulmana, onde os cachorros são considerados animais impuros). Musharraf gosta de provocar os membros da família, inclusive a sua irrascível mãe de 75 anos. O ditador gosta de jogar tênis com os seus companheiros de caserna. Sabe-se também que ele já ligou para os telefones celulares de jornalistas, identificando-se como "Pervez".

Musharraf conta com o amplo apoio da classe média educada paquistanesa, pessoas que se preocupavam com as lideranças políticas corruptas e ineficazes. Mas muita gente aqui é cética quanto às suas promessas de restaurar a democracia e promover eleições no ano que vem.

"Estou certo que Musharraf vai tentar adiar as eleições", diz o general da reserva Mirza Aslam Beg, o ex-comandante do alto comando do Exército que restaurou a democracia no país, após um outro ditador, o general Mohammad Zia ul-Haq, ter morrido em um desastre aéreo em 1988.

Musharraf enfrenta uma oposição virulenta dos grupos extremistas muçulmanos, enfurecidos com o seu apoio aos Estados Unidos, que vigora desde o dia 11 de setembro. Eles realizaram passeatas furiosas, a maior parte delas pequenas, mas algumas tendo chegado a reunir milhares de manifestantes.

Os críticos afirmam que Musharraf merece ser responsabilizado em parte pela reação extremista, já que ele não conteve os grupos muçulmanos fanáticos antes de 11 de setembro.

Outros dizem que Musharraf realmente está comprometido em realizar reformas. "Ele não gostaria de desperdiçar essa oportunidade", afirma Hussain, da Universidade Quaid-I-Azam. "Se ele fracassar, não será por não estar bem intencionado, e sim porque os problemas são muito complexos".

Tradução: Danilo Fonseca

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