China começa a reconhecer surto de Aids no país

Steve Friess

Pequim, China -­ Um rapaz contrai o HIV por meio de uma transfusão de sangue, sofre uma discriminação obscena mas legal por parte de seus vizinhos e do governo, reage e se torna um ícone para pessoas com Aids de todo o país.

Nos Estados Unidos, foi Ryan White. Na China, seu nome é Song Pengfei.

O adolescente chinês nunca ouviu falar de seu equivalente americano, que morreu há uma década. Mas ao empregar uma mistura semelhante de ultraje e dignidade , Song deu rosto à Aids para um regime chinês que há anos insiste em desdenhá-la como um problema distante e inconseqüente, que atinge apenas alguns pequenos grupos à margem da sociedade.

Enquanto White se tornou para os americanos sinônimo de leis não discriminatórias e financiamento federal para a pesquisa do HIV, Song poderá ter de se contentar em apenas mobilizar seu governo a tomar alguma medida em relação à Aids.

Isto pode parecer um legado menos ambicioso, mas sua disposição de ir a público dois anos atrás e criticar abertamente os líderes de uma ditadura repressiva implicava em conseqüências potenciais que White nunca imaginaria nos Estados Unidos.

"Eu não tinha a escolha de falar ou não falar, porque se não falasse, eu já estaria morto", disse Song, que certa vez desafiou publicamente o ministro da Saúde chinês, Zhang Wenkang, a provar sua preocupação pelas pessoas com Aids apertando sua mão ao vivo na televisão. "Eu ouvi que no Ministério da Saúde, eles dizem a meu respeito: 'Song Pengfei é só uma formiga, e uma formiga não pode picar um elefante'. É por isso que me deixam falar".

Zhang desprezou o desafio de Song, mas ele não está desdenhando o problema cada vez mais pesado da Aids na China ­e os observadores acreditam que Song é um dos motivos.

Nesta semana, o Ministério da Saúde chinês promove o que chama de a primeira conferência nacional do país sobre HIV, completa com convites abertos à mídia estrangeira e a expectativa da participação de importantes figuras do cenário mundial. Peter Piot, diretor executivo do consórcio das Nações Unidas de agências que combatem a Aids em todo mundo, deve ser o orador principal.

A conferência ocorre três meses depois que o vice-ministro da Saúde, Yin Dakui, surpreendeu a imprensa Ocidental em 23 de agosto ao realizar uma coletiva de imprensa para reconhecer que o país está enfrentando o risco de uma epidemia de Aids. Tal revelação ocorreu após um discurso de Zhang às Nações Unidas em Nova York em junho, no qual disse que 600 mil chineses têm Aids e que 1,5 milhão poderia estar infectados em 2010.

A organização Unaids de Piot coloca tal número em mais de 1 milhão de infectados e prevê 20 milhões de casos em 2010, mas mesmo assim os chineses foram elogiados por reconhecer a existência do problema. Há apenas dois anos, uma autoridade da província central de Henan, cheia de casos de HIV contraídos por transfusão de sangue, foi à televisão para insistir que não havia nenhum registro de contaminação na província.

Em meio a estes avanços, Song simboliza tanto a história de passos em falso de seu país quanto seu futuro mais esperançoso.

"Há ícones em todo o mundo que alteram a percepção pública desta doença em seus países", disse William Stewart, coordenador de programa do Projeto de Prevenção do HIV da China-Grã-Bretanha, um esforço de US$ 21,7 milhões custeado pelo Reino Unido. "Eu acredito que Song Pengfei é uma destas pessoas para a China. É importante que tais histórias sejam contadas, particularmente aqui, porque as pessoas na China acham que Aids é um problema do Ocidente".

Uma jornada dolorosa

A jornada de Song é bizarra e ainda assim típica para a China em muitas formas. Há cerca de três anos, quando ele tinha 16, ele se sentou em uma tesoura. Como seu corte demorava a cicatrizar, seus pais o levaram ao hospital de Shanxi, a cerca de 240 quilômetros a oeste de Pequim. .

Os médicos de lá notaram que os Songs, donos de uma mina de carvão, eram uma das famílias mais ricas da região pobre, e insistiram em tratamentos caros que médicos de Pequim reconheceram posteriormente que eram desnecessários. Entre eles estava uma "cirurgia exploratória" na qual o médico abriu a perna de Song ­e cortou uma artéria por acidente.

O hospital providenciou uma transfusão de sangue com um vendedor ilegal de sangue local. Centenas destes compraram sangue de fazendeiros pobres nos anos 90 e o armazenaram ­sem serem selecionados ou esterilizados­ em tanques marcados por tipo sangüíneo até serem vendidos aos hospitais. Acredita-se que milhares de doadores e receptores tenham contraído o HIV desta forma.

A transfusão de Song o infectou. Quando ele foi transferido para um hospital de Pequim para um atendimento mais competente, os médicos ultrajados exigiram que as autoridades de saúde investigassem, resultando em uma sindicância que revelou a negligência e a corrupção do hospital de Shanxi.

Mas a sindicância também expôs a condição de Song de portador do HIV para a aldeia, e a escola local imediatamente expulsou Song por temer que ele pudesse infectar outras crianças. Os vizinhos passaram a desprezar a família e a exigir que partissem.

Os líderes locais resolveram o problema forçando os Songs a abandonar seu negócio de carvão, mas prometendo pagar por um apartamento em Pequim e pelos medicamentos de Song. Mas não muito depois, eles deixaram de pagar os Songs alegando que o acordo era muito oneroso.

Tais injustiças transformaram um pacato e comum rapaz de 17 anos em um ativista furioso com pouco a perder. A imprensa estatal do país ignorou o estoque contaminado de sangue e as ações corruptas do governo. Então ele procurou jornalistas dos Estados Unidos e da Austrália para discutir essas questões. Ele também falou em uma conferência regional sobre Aids na Malásia no final de 1999.

Fazendo isto para "outras pessoas"

Os esforços de Song o tornaram não apenas a pessoa soropositiva mais famosa da China, mas provavelmente uma das que apresentam melhor estado de saúde. Em março de 2000, Song começou a receber gratuitamente um coquetel de medicamentos da ONG "Aid for Aids", com sede em Nova York.

Menos de uma dúzia de pessoas na China recebem tal tratamento, devido ao seu custo e indisponibilidade. Song diz que o tratamento reduziu o HIV em seu sangue para um nível quase indetectável.

"Todas as pessoas que me escrevem me compreendem e simpatizam comigo", disse Song. "Elas sabem que não estou fazendo isto apenas para ficar famoso, mas sim por todas as outras pessoas que têm HIV".

Song viajou ao exterior novamente no mês passado para participar de outra conferência sobre Aids, desta vez em Melbourne, Austrália, e espera fazer um documentário sobre sua história para poder levantar dinheiro. Ele até mesmo tem um site na Internet em língua chinesa, o www.songpfhiv.com, que fornece links para artigos sobre Aids.

Mas nem todos estão convencidos de que Song seja o porta-voz ideal.

"Eu acho que falar publicamente ajuda (pessoas com Aids), mas não que (Song) esteja bem preparado", disse Wan Yan Hai, diretor da Aizhi Aids Action Network, uma instituição de caridade com sede em Pequim que levantou US$ 4 mil (R$ 10.200) para os Songs desde 1999. Song "ainda é uma criança".

Mas Stewart, o ativista britânico na China que se tornou o mentor e melhor amigo de Song, prevê grandes coisas.

"Ele tem muito a oferecer", disse Stewart. "Ele pode escrever um informativo para pessoas com HIV na China. Ele pode trabalhar com outras agências para formar uma rede de auto-ajuda para pessoas com Aids. Há muitas possibilidade".

Song oscila entre sugerir que em breve poderá abandonar o ativismo e sugerir novos meios de educar o povo chinês sobre as pessoas infectadas com HIV e Aids.

Na verdade, ele tem uma novo desafio a fazer. "Se (o presidente) Jiang Zemin apertar minha mão em público, o problema da Aids na China será resolvido", ele diz com um sorriso afetado, reconhecendo a improbabilidade disto, mas achando divertida a imagem gerada pela idéia.

"É mais provável o presidente Bush apertar minha mão antes de Jiang Zemin. Mas a China ficaria muito irritada se ele fizesse isto!".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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