Americanos tornam-se mais tolerantes após 11 de setembro

Karen S. Peterson

Alex Robbins joga futebol. Desde os eventos terroristas de 11 de setembro, as equipes adversárias freqüentemente fazem um minuto de silêncio antes do início da partida. "Antes, isso teria parecido algo de idiota", diz Robbins, de 25 anos, morador de Washington, D.C. "Mas agora soa bem. Afinal, olhando as coisas sob uma perspectiva mais ampla, trata-se apenas de um pequeno jogo".

De fato, muita coisa parece agora menos significante do que antes de 11 de setembro. E menos importante do que antes do alarmante desastre na segunda-feira com outro avião da American Airlines.

"Agora, tão logo algo de horrível aconteça, a primeira coisa que vem a cabeça é o terrorismo", afirma Robbins. "E isso faz com que você olhe para as pessoas com as quais compete... Bem, ficou mais fácil vê-las como aliadas".

Vários americanos passaram por uma mudança de perspectiva enquanto tentavam se adaptar à ameaça terrorista. Algumas das diferenças são significantes, outras são menos. Mas todas elas parecem importar. E elas representam uma das coisas boas que emergiram da dolorosa tragédia nacional que está em andamento.

Eis alguns exemplos de como algumas pessoas de todo o país mudaram a sua forma de pensar, seja drasticamente ou de forma mais sutil:

A perspectiva de David Townsend com relação às coisas mudou profundamente após 11 de setembro, alterando o sentido da sua vida. "Daquele momento em diante, percebi que não vamos viver para sempre", diz Townsend, de 37 anos, de Indianapolis. "Fui tomado por um senso maior de urgência, senti a necessidade de deixar a minha marca. Isso mudou totalmente a minha visão de mundo e abalou a minha essência".

Townsend se demitiu do seu emprego em uma usina de lixo para trabalhar com serviços sociais, com os sem-teto e em igrejas urbanas que buscam doações. "O 11 de setembro reforçou em mim a necessidade de viver uma vida que faça diferença. Tem de haver algo de positivo como saldo disso tudo", explica.

Townsend fala do seu trabalho em dormitórios para desabrigados. "Vamos arregaçar as mangas e dar a essas pessoas alguma esperança. Temos que nos livrar do ranço do desespero".

A mudança de perspectiva experimentada por outros foi bem mais sutil.

Debra Levin viaja freqüentemente a trabalho. "Eu costumava ficar irritada nos aeroportos. Na melhor das hipóteses, viajar nunca é fácil ou divertido", afirma Levin, de 36 anos, de Martinez, na Califórnia. "Eu tinha o hábito de chegar em cima da hora, a fim de reduzir o tempo que passava no aeroporto. Agora, chego com horas de antecedência, e se eu fico esperando por algumas horas, para a minha própria segurança, para mim está tudo bem".

Joseph Lewis ignora as picuinhas que antigamente costumavam aborrece-lo. "Um dia desses a minha mulher foi ao supermercado e comprou um sorvete comum", diz Lewis, de 38 anos, de Suwanee, na Geórgia. "Nós comíamos sorvete dietético. Antigamente, um episódio como esse teria me aborrecido. Agora, não tem importância".

O medo do terrorismo trouxe uma outra mudança para a vida de Lewis. "Agora vamos à igreja com muito mais freqüência".

Mimi Gan diz que não se sente mais incomodada pelas pequenas coisas. "Tomar uma fechada de um carro, ser tratada com rudeza por alguém, eu simplesmente não deixo que essas coisas me afetem", afirma Gan, de 44 anos, de Seattle.

Assim como várias outras pessoas, ela tem agora um sentido renovado de família. "Eu aprecio ainda mais cada momento com os meus filhos. Reflito sobre os fatos, mais do que costumava fazê-lo. Não vejo mais a minha família como algo de banal. O meu trabalho se tornou um pouco menos importante para mim".

O equilíbrio entre a carreira e a família mudou para muita gente. Elana Cohen costumava colocar as suas ambições em primeiro plano. "Nunca havia um momento de descanso na minha vida. Eu corria para cima e para baixo trabalhando, mas agora estou desacelerando o meu ritmo e apreciando as pequenas coisas da vida", diz Cohen, de 25 anos, de Nova York.

"Agora, coloco a minha carreira abaixo da família e das amizades. Passo mais tempo jantando com amigos e ao telefone com a família. Me concentro naquilo que está ocorrendo agora, já que não sabemos o que nos reserva o futuro", diz Cohen.

Antes da tragédia nacional, o país estava concentrado no congressista Gary Condit e no seu alegado caso com a estagiária Chandra Levy, diz William Paprota. "O que isso depõe sobre nós, sobre o quanto estávamos em contato uns com os outros? Espero que tenhamos descartado todas essas tolices", diz Paprota, de 50 anos, de Overland Park, no Kansas. "Para todos os meus amigos, a família se tornou mais importante do que nunca".

Segundo Paprota, o país está sendo desafiado por uma outra perspectiva, na medida em que aprende sobre outras culturas.

"Agora, o termo 'melting pot' (mistura) certamente tem um significado mais profundo. Não é a nossa origem geográfica, ou a cor da nossa pele ou o Deus para o qual oramos, mas os nossos valores e princípios o que tem importância. Essa é uma dura lição de civismo para nós, mas trata-se de uma lição real e prática".

Segundo Lisa Olen, os seus valores se modificaram. Antes dos ataques terroristas, ela teria citado "aceitação social e estabilidade social" como os valores da vida. "Agora eu falaria sobre liberdade, segurança, paz e amor", diz Olen, de 24 anos, de Austin, no Texas. "Temos que incluir em nossos objetivos individuais a forma como podemos fazer do mundo um local melhor, mais seguro e mais cheio de amor".

Desde que ele e o seu sócio decidiram montar um negócio juntos há 18 meses, o psicólogo Steve May tem trabalhado sete dias por semana, preservando a sua jornada diária de trabalho enquanto faz planos para o futuro. Antes de 11 de setembro ele se sentia um pouco para baixo, afirma May, de 50 anos, de West Hollywood, na Califórnia. Mas, desde aquele dia, "Ainda estou fazendo o mesmo trabalho, mas ando sentindo mais prazer com ele. Agora digo que o trabalho é para mim, e não deixo mais as horas extras me aborrecerem".

Alguns sentem uma grande consternação com relação ao futuro. Keity Lyall teme as consequências econômicas dos eventos terroristas. "Estamos investindo todo esse dinheiro na luta contra o terrorismo e no bombardeio do Afeganistão", afirma Lyall, de 37 anos, de Wilkesboro, na Carolina do Norte. "Isso me deixa extremamente consciente da necessidade de planejar a minha aposentadoria, de estar preparado para cuidar do meu próprio bem-estar financeiro. As pessoas não vão poder depender do governo para sustenta-las. Elas próprias têm que colocar as suas finanças em ordem".

A vida de Frank Smist Jr. quase terminou em agosto, quando foi atropelado por um carro e sofreu uma lesão cerebral. A caminho da recuperação total, ele se preocupa mais com a segurança dos dois filhos, de oito e três anos, do que com a sua própria. Smist, de 50 anos, de Kansas City, em Montana, está se recuperando bem. Mas o mundo que os seus filhos vão herdar não anda bem.

"Nós, os baby boomers (geração nascida nas duas décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial) vivemos em uma época relativamente segura", diz ele. "Mas não podemos fornecer a mesma segurança para os nossos filhos. O mundo mudou. Eu me preocupo com os perigos e os riscos com que eles vão se deparar".

Para muitos, um patriotismo dormente emergiu. "Eu sempre tive orgulho de ser estadunidense, mas nunca me importei muito com isso", diz Diane Flores Fouts, de 48 anos, de Bowling Green, Ohio. "Vi alguns membros da Guarda Nacional uniformizados e senti vontade de correr para abraça-los. Eu nunca dei importância às pessoas que estão no serviço militar. Hoje, penso como eles são bons, como nos protegem, como são incríveis".

Talvez as perspectivas não tenham mudado para sempre, conforme se constata, à medida que o país luta para voltar ao ritmo normal. Carol Dawson é encarregada de cuidar de reclamações oficiais no seu escritório. "Durante várias semanas após o dia 11 de setembro tivemos no máximo uma reclamação", conta Dawson, de 45 anos, de Jeffersonville, Indiana. "Os indivíduos sentiram que os seus problemas eram insignificantes. Mas agora estamos voltando a ser o que éramos antes. As pessoas já recomeçaram a reclamar".

Alguns não perderam o senso de humor, ainda que a saúde psicológica da nação tenha sido abalada.

"A minha perspectiva não mudou", diz Charles Zebley Jr, de 49 anos, de Richeyville, na Pensilvânia. "Mas pela primeira vez na vida, eu torci pelos Yankees".

Tradução: Danilo Fonseca

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