Tecnologia dá sensação de segurança aos americanos

Mike Snider

Enquanto os norte-americanos buscam novos sistemas de segurança, algumas das soluções que têm sido oferecidas envolvem tecnologias e dispositivos que parecem ter saído de uma obra de ficção científica -e, para muita gente, podem ser tão desconcertantes quanto uma revista corporal em um aeroporto.

Entre os dispositivos sendo testados ou já em operação estão os seguintes:

- O Body Search, uma máquina de raios-x, que virtualmente "arranca" as roupas do indivíduo, em busca de armas escondidas.

- Quando os passageiros passam por um detetor EntryScan, jatos de ar desalojam partículas microscópicas da pele e da roupa. O EntryScan a seguir "fareja" e analisa as amostras, buscando traços de explosivos, produtos químicos e drogas.

- Sistemas de reconhecimento facial, tais como o Visionic FaceIt, podem "mapear" centenas de faces em uma multidão a cada minuto, e compará-las com um banco de dados onde estão armazenadas as imagens de terroristas e criminosos conhecidos.

Combinadas a um aumento da vigilância em locais públicos e a um movimento rumo a uma carteira nacional de identidade "inteligente" que poderia incluir a impressão digital, uma foto digital ou até mesmo a assinatura de DNA do indivíduo, essas tecnologias poderiam em breve ser disseminadas nos aeroportos, nos monumentos nacionais e até mesmo nas esquinas das ruas e nas garagens de estacionamento.

"Algumas tecnologias são mais primitivas do que outras, mas há aquelas que podem ser utilizadas no momento", diz James Lewis, diretor do Programa de Tecnologia e Políticas Públicas do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, em Washington. "Tudo que dificultar a ação dos terroristas trabalha a nosso favor".

Para aqueles que se preocupam com os direitos individuais, tais medidas parecem quase orwellianas devido à forma como devassam a privacidade. "Estamos realmente à beira de nos transformarmos em uma sociedade vigiada", alerta Barry Steinhardt, diretor associado da União de Liberdades Civis Norte-Americanas. "Os eventos de 11 de setembro podem ser o fator que nos empurrarão para o abismo com relação aos direitos civis".

Com a nova preocupação com a segurança, os norte-americanos podem deixar de se preocupar com os custos em termos de privacidade e dinheiro. As pesquisas feitas desde os ataques demonstram que eles estariam dispostos a trocar uma parte da sua liberdade individual por segurança.

Cerca de 70% dos indivíduos entrevistados pelo Pew Research Center na semana que se seguiu aos ataques disseram que aprovariam a obrigatoriedade de se portar uma carteira nacional de identidade que pudesse ser mostrada aos policiais, caso eles a solicitassem. A tecnologia de reconhecimento facial a fim de identificar os passageiros foi aprovada por 86% dos entrevistados na pesquisa Harris, feita no mês passado. Sessenta e três por cento dos entrevistados concordaram com o aumento da vigilância feita com câmeras em locais públicos.

No seu escritório em Jersey City, do outro lado do Rio Hudson, de frente para Manhattan, onde a poeira do World Trade Center ainda se acumula, o presidente da Visionics, Joseph Atick, descreve como a tecnologia de reconhecimento facial da sua empresa poderia auxiliar a montar aquilo que ele chama de um "escudo nobre" contra os terroristas.

Ao instalar cerca de 300 câmeras em aeroportos e conectá-las via Internet aos servidores que trabalham com o programa FaceIt, da Visionics, ele afirma que os seguranças dos aeroportos e os policiais seriam capazes de identificar terroristas e outros criminosos.

Quando um passageiro é assinalado pela câmera, o software FaceIt cria uma "impressão facial" única do seu perfil. Esses dados são matematicamente processados e automaticamente checados, em uma questão de segundos, através do sistema de banco de dados Argus, da empresa. "É possível estabelecer determinada identidade durante o vôo", diz Atick. "O sistema examinaria cada face que embarca em uma aeronave ou toda face que entra no país".

O Aeroporto Internacional Logan, em Boston, de onde partiram os dois aviões que atingiram o WTC, está planejando testar os sistemas de identificação facial da Visionics e de uma concorrente, a Viisage, de Littleton, Massachusetts, no mês que vem. "Queremos saber se o sistema funciona, e com que eficiência", diz o porta-voz do aeroporto, Phil Orlandella. "Vamos fazer tudo o que for possível para aumentar a segurança".

O sistema Visionicis já está funcionando no Aeroporto Keflavik, na Islândia. No mês passado, o Aeroporto Internacional Yosemite, em Fresno, na Califórnia, instalou um sistema com o auxílio do Visage. Ambas as companhias possuem sistemas utilizados por agências de segurança pública e por cassinos.

O teste e instalação do sistema de reconhecimento facial e de outras tecnologias biométricas nos aeroportos está sendo debatido no Congresso. A biométrica envolve a identificação através de características físicas únicas. Recentemente, nove grandes aeroportos começaram a exigir que os pilotos, os comissários de bordo e os funcionários das instalações passassem a utilizar um leitor de impressões digitais para terem acesso às aeronaves e pistas de manobras.

A biométrica também está ligada às discussões a respeito de uma carteira nacional de identidade. Identificadores biométricos (talvez uma foto e a impressão digital) ficariam armazenados na memória de um chip embutido no cartão, garantindo a sua autenticidade. "Temos de ter certeza de que estamos dando o cartão para a pessoa certa", diz Thomas Arthur, da ActivCard, uma empresa de "cartões inteligentes" de Fremont, Califórnia, que está fornecendo mais de 4 milhões de cartões para funcionários do Departamento de Defesa. Os cartões incluem a foto, o nome, o posto e "chaves de autenticação" da pessoa, que permitem que elas tenham acesso a computadores, servidores e sites de natureza sensível.

Logo após os ataques, o presidente da Oracle Corporation, Larry Ellison, ofereceu-se para fornecer gratuitamente o software para um sistema de cartão de identidade nacional. Scott McNealy, presidente da empresa Sun Microsystems, também apóia a idéia, assim como o advogado de Harvard, Alan Dershowitz, conhecido por ser um liberal e defensor dos direitos civis.

Embora nenhum membro do Congresso tenha se manifestado a favor de uma carteira de identidade universal, as empresas de tecnologia mostraram os seus produtos aos parlamentares. E, na sexta feira, um comitê da Câmara fará uma audiência sobre a questão da carteira de identidade.

Ainda que as autoridades saibam quem é você, como elas vão saber o que você está levando consigo? Dispositivos de detecção bem mais sofisticados estão sendo examinados pelos aeroportos e outros órgãos.

No início deste mês, o Aeroporto McGee-Tyson, em Knoxville, no Tennessee, instalou um "farejador" de amostras do corpo inteiro, fabricado pela EntryScan, como parte de um teste. O aeroporto é o local de experiências com tecnologias de identificação conduzidas pelo Departamento Federal de Aviação (FAA).

Uma outra abordagem do problema, a máquina BodySearch, do tamanho de uma geladeira, utiliza raios-x refletidos para criar uma imagem que se assemelha à de um corpo nu em preto e branco. Os explosivos e outros materiais orgânicos, inclusive o corpo humano, refletem os raios e são vistos distintamente. "Buscamos anomalias que seriam criadas por qualquer objeto oculto sob as roupas", afirma Ralph Sheridan, presidente da American Science and Engineering, empresa que fabrica o equipamento.

Até recentemtente, o equipamento BodySearch não encontrava compradores, devido à sua "natureza reveladora". Mas os negócios estão em aceleração: A empresa de Billerica, Massachusetts, vendeu cinco sistemas para a FAA que realiza testes. "Antes do dia 11 de setembro, a FAA acreditava que as questões de privacidade não poderiam ser superadas", diz Sheridan. "Desde o dia da tragédia, o público está exigindo segurança".

O porta-voz da FAA, Paul Takemoto, concorda: 'Estamos estudando tudo, e estamos interessados em tudo que possa melhorar a segurança".

Os opositores argumentam que as novas tecnologias podem ser burladas. Nem os membros da Al Qaeda nem o terrorista de Oklahoma City, Timothy McVeigh, teriam sido capturados através do reconhecimento facial, segundo Steinhardt, da União de Liberdades Civis. "Não temos um banco de dados com as fotos dos terroristas. Eu não creio que tais medidas chegariam a intimidar os terroristas, portanto não acho que valeria a pena submeter o público a um processo de identificação em massa".

Bruce Schneier, da Counterpane Internet Security, em Cupertino, Califórnia, acredita que "existe uma tendência a se buscar soluções tecnológicas". Ao invés de buscar novas tecnologias, os tomadores de decisões deveriam se perguntar, "Qual é o problema que estamos tentando solucionar?", diz ele. "Tomemos como exemplo o leitor facial. Será que ele teria evitado os ataques de 11 de setembro? Teria prevenido os ataques com antraz? A resposta é não. Estamos buscando soluções aleatórias que nos deixariam com uma falsa sensação de estarmos mais seguros".

Ainda que um sistema de identificação fosse 99,9% eficiente, os falsos alarmes - ele estima que haja mil para cada terrorista - tornariam o sistema inútil, segundo Scheneier. E um sistema nacional de carteiras de identidade seria cheio de pontos fracos, afirma ele, incluindo fraude na identificação e mal-uso dos bancos de dados.

Atick alega que as faces de criminosos e de alguns terroristas estão em bancos de dados de todo o mundo. Alem disso, a tecnologia de reconhecimento está sendo aprimorada. Os cálculos feitos pelos equipamentos podem identificar faces independentemente da idade, pelos faciais e outras alterações. A utilização de câmeras extras aumenta a precisão. O programa FaceIt pode combinar múltiplas tomadas pra criar uma imagem em três dimensões.

Os analistas de mercado vêem futuro na área de segurança. O International Biometric Group espera que a indústria norte-americana no setor cresça dos US$ 523 milhões deste ano para US$ 1,9 bilhão em 2005. E as ações de empresas como a Visionics, AS&E e Visage recentemente atingiram recordes de preço.

Devido aos custos e as dificuldades logísticas para instalar rapidamente as novas tecnologias, as agências oficiais de segurança estão trabalhando no sentido de conseguir o máximo das câmeras de vídeo que já estão em operação nos locais públicos. Um cidadão médio é filmado por uma câmera de vigilância entre oito a doze vezes por dia, segundo os especialistas.

No mês passado, Grant Fredericks, ex-coordenador da unidade de vídeo aplicado à criminalística do Departamento de Polícia de Vancouver, que atualmente utiliza hardware e software da empresa Avid Technology, de Spokane, em Washington, realizou um seminário de análise de vídeo com a duração de quatro dias, na academia do FBI, em Quantico, Virginia.

Mais de 40 investigadores dos Estados Unidos e do Canadá trouxeram vídeos de casos reais em andamento, na esperança de que as novas técnicas computacionais, tais como filtragem e estabilização de vídeo, pudessem proporcionar mais evidências que levassem a soluções. Eles se reuniram em grupos de dois ou três em mesas dotadas de vídeo-cassetes, conectados a computadores. "Eles estão sendo expostos a ferramentas bastante poderosas", diz Fredericks. "A maior parte dos departamentos de polícia não entende o valor dos vídeos que têm em mãos".

Fredericks assume que todos os vídeos obtidos em conexão com os incidentes de 11 de setembro serão analisados e catalogados com descrições, de forma que um coordenador analítico possa buscar vários indicadores para, quem sabe, revelar atividades suspeitas. "Você pode procurar por um homem do Oriente Médio, de 35 anos, com uma cicatriz na face esquerda", diz ele.

Pesquisadores da Sarnoff Corporation, em Princeton, Nova Jersey, desenvolveram chips de processamento de vídeo para aprimorar os atuais sistemas de vigilância. As câmeras de um sistema poderiam trabalhar em conjunto para reconhecer e rastrear intrusos. "Podemos contar com uma rede de câmeras 'inteligentes', capazes de fazer inferências e de entender comportamentos complexos em uma área ampla", diz Michael Hanson, da Sarnoff.

Apesar disso, há os que sugerem que um investimento em pessoas, e não apenas em tecnologia, pode dar mais resultado e ser mais barato.

"Com a utilização de mais investigadores, veja só como desbaratamos a rede terrorista após 11 de setembro. Em uma semana, já sabíamos de tudo", diz Schneier.

"Investir verbas em investigação é algo crítico", diz ele. "Quero ver os agentes do FBI atuando. Isso faria com que os terroristas se sentissem pouco à vontade para operarem. É isso que faria uma grande diferença".

Steve Hunt, analista de segurança do Giga Information Group não descarta os sistemas de reconhecimento facial, mas ele também tem mais fé na coleta de inteligência no mundo real. "Os profissionais de segurança sabem como resolver tais problemas. Eles simplesmente não receberam autorização para fazê-lo. Por que? Porque nós não tínhamos atentado para o risco que corríamos. Agora estamos conscientes do perigo".

Tradução: Danilo Fonseca

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