Executivos dos EUA tentam tranquilizar seus funcionários

STEPHANIE ARMOUR

Após os trabalhadores postais de Nova Jersey terem contraído antraz, a diretora de serviços de correio, Karen McIntosh, teve que enfrentar um formidável desafio de gerenciamento: assegurar aos seus apavorados funcionários em Bozeman, Montana, que o seu ambiente de trabalho é seguro.

A tarefa de gerenciar tem sido um desafio para Richard Chaifetz desde o dia 11 de setembro. Os seus funcionários são conselheiros de assistência a empregados, e estão recebendo uma quantidade enorme de ligações telefônicas. A sua empresa está localizada no enorme edifício NBC Tower, em Chicago, de forma que Chaifetz tem lutado para reunir a sua equipe na ComPsych, apesar do temor de ataques terroristas e das evacuações que foram realizadas várias vezes no prédio.

Tim Tuttle tem enfrentado o mesmo problema. O dirigente do setor de tecnologia da sua empresa conseguiu escapar do World Trade Center um pouco antes das torres desabarem. Agora, ele retornou ao trabalho em São Francisco, tentando não deixar que a experiência pela qual passou afete o seu trabalho na empresa Bang Networks.

Em toda a nação, vários dos mais vigorosos executivos estão enfrentando a pior crise de gerenciamento de suas carreiras. Repentinamente, a coragem se tornou um traço de liderança. Os gerentes estão tentando conduzir as suas forças de trabalho abaladas através de tempos incertos e até mesmo perigosos, enquanto que as equipes de funcionários evacuam os seus edifícios, temem o antraz, evitam fazer viagens de negócios e exigem trabalhar em casa. A maneira como os líderes lidam com essa nova realidade dos locais de trabalho poderá ter duradouras conseqüências para as suas carreiras e seus futuros nas companhias, à medida que os funcionários insatisfeitos com a falta de ação dos gerentes pedem as contas ou processam os patrões.

"Nunca houve nada tão repleto de carga emocional quanto isso pelo qual estamos passando, e há muitas incertezas e riscos legais", diz Stephen Paskoff, advogado trabalhista de Atlanta e presidente da empresa provedora de treinamento legal e de liderança, a Employment Learning Innovations. "Alguns funcionários podem alegar que estão passando por uma reação de stress ou por uma enfermidade real que afeta a produtividade. O que um gerente deve fazer em um caso como esse?".

Os desafios se fazem presentes para além do eixo Washington-Nova York e o medo do antraz e a preocupação com o terrorismo levaram a um estado de alerta nos escritórios de todo o país. Esses desafios não diminuíram desde 11 de setembro. O bioterrorismo e as contínuas advertências do governo sobre a possibilidade de mais ataques terroristas continuam a deixar os nervos de todos à flor da pele, especialmente porque os ataques atingiram os locais de trabalho dos Estados Unidos.

A American Management Association tem oferecido seminários gratuitos com a duração de duas horas sobre o gerenciamento depois da crise. A Society for Human Resource Management tem fornecido conselhos sobre como lidar com a crise no seu web site. E a Employment Learning Innovations tem publicado na Internet textos sobre questões relativas a liderança empresarial após o dia 11 de setembro.

"Na verdade o problema é pior trinta a sessenta dias após os acontecimentos. É nesse período que o estresse pós-traumático se instala nos funcionários", explica Ron Rosbruch, co-proprietário da Strategies for Wealth Creation & Protection, um braço da The Guardian Life Insurance Corporation of America.

O seu escritório fica de frente para o local onde se erguia o World Trade Center.

"Algumas pessoas vão até a janela e dizem, 'Não posso ficar aqui'", diz ele. "Eu fui um pouco duro com relação às minhas expectativas de que as pessoas voltassem. Não temos sido ridículos ou agido como tiranos, mas como é que fazemos para que elas voltem ao trabalho? É uma situação difícil".

Eis alguns dos desafios que os gerentes estão tendo que enfrentar:

Funcionários amedrontados. Alguns funcionários estão temerosos de voltar ao trabalho ou de embarcar em viagens de negócios.
Mais de 20% dos norte-americanos dizem que, caso recebessem permissão para trabalhar em casa, usando o computador, o telefone e o fax, poderiam reduzir o estresse pelo qual estão passando, segundo um estudo realizado pela Integra Realty Resources após 11 de setembro. Nas semanas que se seguiram aos ataques a Nova York e Washington, mais de 30% dos norte-americanos estavam com menos disposição de entrar em arranha-céus. Cerca de um terço dos entrevistados estavam evitando as viagens aéreas ou considerando seriamente fazê-lo, segundo uma pesquisa do Instituto Gallup.

Na firma de pesquisa executiva Kenzer, em Nova York, a vice-presidente Elaine Erickson deixou que os seus funcionários decidissem se iriam ou não viajar. Para ajudar a reduzir a apreensão, ela encorajou o aumento do número de vídeo-conferências e de comunicações através de correio eletrônico.

"Vários funcionários afirmaram que não se sentem à vontade para viajar, e eu lhes disse, 'Tudo bem, vocês não são obrigados a faze-lo'. Por que colocá-los em uma situação física na qual eles vão se sentir doentes?", diz Erickson. "Nestes tempos, temos que encoraja-los a tocar os negócios à frente, de forma que não haja pânico".

Questões relativas à liberdade de expressão e à discriminação. Os ataques terroristas inflamaram as paixões patrióticas, incentivando mais gerentes a enfrentar difíceis questões referentes ao quanto devem ser flexíveis para com as discussões políticas no local de trabalho.

Eles também têm enfrentado preocupações no que diz respeito à questão da discriminação. A Comissão de Igualdade de Oportunidades no Emprego recebeu cerca de 70 documentos, incluindo 42 queixas sobre demissões e 28 reclamações de discriminação, feitas por trabalhadores árabes, muçulmanos, dos originários do Oriente Médio, sikhs ou afegãos. Além disso, o Conselho de Relações Americanas-Muçulmanas reuniu mais de 100 queixas de maus-tratos ou discriminação no local de trabalho.

Mas as tentativas dos gerentes de promover a igualdade de todos pode ser um tiro pela culatra. A diretora de serviços bibliotecários da Universidade da Costa da Flórida da Costa do Golfo, em Fort Myers, estava preocupada com a possibilidade de que os estudantes estrangeiros pudessem ficar ofendidos porque a sua equipe passou a usar adesivos com os dizeres "Orgulhoso de ser norte-americano". Por isso ela pediu que os adesivos fossem removidos. O furor resultante gerou centenas de ligações, e a diretora foi suspensa por 30 dias sem remuneração.

Preocupações quanto à segurança. Os gerentes têm de orientar funcionários obrigados a trabalhar entre ameaças de bomba, medo do antraz, avisos oficiais sobre ameaças terroristas e evacuações de edifícios. Essas evacuações ocorreram em locais de trabalho tão diversos quanto a Sears Towers, em Chicago; a Wal-Mart, na Califórnia; o The Washington Post, uma escola de segundo grau, em Atlanta; um shopping-center em Portland, no Oregon; e um tribunal em Boulder, no Colorado, entre outros.

A maneira como os gerentes reagem a uma onda de medo pode ter um impacto significativo sobre a relação entre supervisores e empregados. Alguns gerentes dizem que preferem pecar por excesso de cautela. Em um escritório próximo ao chamado "ponto zero", onde desabou o World Trade Center, a gerente Milta Garrastazu tem lidado com funcionários ansiosos com os odores emanados pelos destroços do World Trade Center e com a possibilidade de um segundo ataque terrorista.

Ela tem procurado dar apoio emocional: um funcionário compartilhou os seus sentimentos e brincou, "Você vai passar a ser a minha analista". Garrastazu tentou acalmar os ânimos fazendo com que a sua equipe praticasse a evacuação do escritório e os instruindo a manter sapatos de solado de borracha e garrafas de água mineral próximas a suas mesas.

Ela tentou ainda exercitar a liderança através do exemplo. "Ainda fico ansiosa quando ouço advertências sobre um novo ataque terrorista, mas, de maneira geral, estou me sentindo melhor, e tenho dito isso aos meus funcionários", afirma Garrastazu. "Eu deixo que eles saibam que não sou uma super-mulher. Eu também estou passando pelas mesmas dificuldades".

Mas não é fácil, e alguns especialistas em gerenciamento têm dito que aqueles que estão no papel de líderes passam por um profundo teste. Os supervisores neófitos nunca haviam passado pela experiência de gerenciar uma empresa durante uma crise nacional. Já os gerentes experientes com contas para pagar e família para sustentar podem estar preocupados com uma eventual onda de demissões.

E a possibilidade de uma recessão significa que os supervisores de todas as idades estão sendo puxados em duas direções simultaneamente. Eles têm que ser sensíveis às emoções dos seus funcionários e, ao mesmo tempo, encoraja-los a aumentar a produtividade conforme cresce a pressão para que haja lucros.

"Com tudo isso ocorrendo, o trabalho de um gerente não é fácil", diz Bob Fraulo, vice-presidente da American Management Association. "Eles estão estressados com a sua própria situação pessoal, mas são líderes de grupos, e têm que reconhecer que cada membro desses grupos está em um estágio diferente".

Esse é um desafio que tem sido encarado por Chaifetz, da ComPsych, em Chicago. Para ajudar a equipe, os seus conselheiros estão formando grupos de apoio onde os funcionários podem expressar os seus sentimentos com líderes de equipes.

O desafio também tem sido enfrentado por McIntosh, a supervisora da agência de correio, em Montana. Ela tem discutido medidas de segurança com a sua equipe, fornecido luvas de segurança e respondido perguntas.

Quem também enfrenta o desafio é Tuttle, que testemunhou o colapso do World Trade Center. Para superar o choque, ele está viajando a negócios e se concentrando novamente na expansão da sua empresa de tecnologia. O trabalho é o mesmo, mas o emprego é um pouco diferente.

"Aquilo que ocorreu abala as nossas convicções", diz Tuttel, que perdeu o seu computador e outras informações de trabalho quando o edifício caiu. "Você descobre que há questões sociais e políticas que afetam os negócios e, antes disso, você poderia ignorá-las. Vamos olhar para trás daqui a alguns anos e observar um conjunto de princípios muito diferentes daqueles que as pessoas costumavam utilizar para fazer os seus negócios".

Tradução: Danilo Fonseca

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