Tradição de venda de noivas no México pode estar ameaçada

Tessie Borden

Tenexcalcingo, México -- Celia Espinobarros aguarda em um quarto lateral da casa da família, com assoalho de terra batida, ao sul da Sierra Madre, onde os seus parentes e os do futuro marido discutem o preço da moça.

Os seus olhos bem abertos e o sorriso tímido são os de uma garota que poderia estar ainda brincando com bonecas. As roupas são muito pequenas para a sua estrutura franzina. Ela não tem sequer 14 anos de idade.

Mas esta noite a sua mãe a está vendendo como noiva.

A família de Martin Galindo Flores, o candidato a marido de Célia, chegou ao final da tarde, usando uma linguagem respeitosa e trazendo presentes como cerveja, bebidas caseiras, cigarros e alimentos. Martin espera em silêncio, com a expressão humilde, enquanto o seu pai e os seus tios conversam. Após 90 minutos de uma discussão tensa na língua mixte, que é falada entre os índios dessa região paupérrima, surge enfim um acordo entre a mãe da noiva e o pai do noivo.

O preço final de Célia: cerca de US$ 480 (R$ 1.209) em dinheiro vivo, duas cabras, dois perus, cinco grades de cerveja, cinco grades de refrigerante, dois pães caseiros, dois pacotes de açúcar mascavo, o almoço e o jantar de casamento e um pacote de cigarros.

Silvina, a mãe de Célia, chora baixinho. Ela é viúva e não acredita que tenha feito um bom negócio, já que não há um homem para falar em seu nome. Só há uma coisa que lhe parece trazer algum conforto: pelo menos Martin também é jovem. Com 15 anos, a sua idade é bem próxima à de Célia.

Após uma rodada de apertos de mão e tapinhas no ombro, eles marcam o dia do casamento.

Vender garotas para casamento é uma tradição de gerações nesta área isolada do Estado de Guerrero. Aqui, a etnia mixtec é dominante e a virgindade é tão valorizada quanto obedecer aos mais velhos e preservar os costumes indígenas.

Para os mixtecs, casar dessa maneira há muito tempo tem sido a melhor FORMA de garantir a tradição da comunidade, segundo Abel Barrera, antropólogo do grupo de direitos humanos Tlachinollan. O pagamento da quantia, geralmente algo entre US$ 1.000 (R$ 2.520) e US$ 1.600 (R$ 4.032), é mais do que uma mera transação financeira. Trata-se de um tributo que a família do noivo presta aos pais da noiva, um gesto de agradecimento por entregá-la em bom estado de saúde.

Mas, até aqui, já há alguns sinais de que os costumes estão sendo questionados, exatamente pelas mulheres que costumavam se submeter caladas a eles.

A prática difere pouco dos mercados de casamento do Zimbábue, onde as noivas são trocadas por algumas vacas ou um carro usado. Ou do Iraque, onde o preço das noivas chega a dezenas de milhares de dólares, ou da Índia, onde o preço das garotas em idade de casar chegou a US$ 1.200.

Mas na região Mixteca do México, as noivas são freqüentemente apenas crianças, meninas de 10 ou 11 anos, diz Crispin de la Cruz, um assistente comunitário mixtec, que ajuda Barrera. Já os noivos muitas vezes são homens entre 20 e 30 anos, que procuram uma esposa cuja virgindade seja garantida.

Segundo De la Cruz, a tradição de se negociar a compra de uma noiva, em meio a comemoração e solenidades, é algo que tem raízes em um passado remoto. Em longos sermões, os velhos da vila advertem os homens para que honrem as suas esposas e não as espanquem. E eles dizem as moças para manter a casa arrumada e cuidar das crianças.

Mas, à medida que um número cada vez maior de mixtecs migra para o oeste do México ou para os Estados Unidos, a compra de noivas vai ficando destorcida pelas novas idéias que eles trazem para a região, de acordo com Barrera. Os homens muitas vezes retornam para as suas vilas achando que podem comprar uma moça sem utilizar as cerimônias tradicionais, da mesma forma que comprariam os serviços de uma prostituta. Alguns compram mais de uma moça.

"Os costumes foram pervertidos", afirma Barrera. "A prática foi retirada do seu contexto".

Em um lugar como este, onde a negligência do governo e atitudes isolacionistas fizeram com que o povo há séculos criasse as suas próprias regras, as jovens mulheres não contam com praticamente nenhuma proteção.

Quase 500 mil pessoas vivem nos assentamentos espalhados por essas montanhas, tentando cultivar pequenos pedaços de terra, da mesma forma que o fizeram os seus pais e avós. Mas poucos têm sucesso. Eles se tornaram dependentes do fertilizante químico áspero e que queima o solo, que os políticos locais lhes fornecem há décadas em troca de votos, diz Barrera, referindo-se à única presença governamental que ele já viu na região.

"O adubo químico é a chave para ganhar as eleições", afirma Barrera.

Com o passar dos anos, à medida que o solo passou a produzir cada vez menos e as famílias ficaram cada vez mais famintas, os homens foram obrigados a viajar até a costa, para trabalhar em Sinaloa ou nos Estados Unidos. Cerca de três quartos deles partiram, diz Barrera. Os poucos que ficaram, tentaram continuar plantando milho, mas as colheitas passaram a ser cada vez menores. No entanto, uma outra cultura mais lucrativa, a da papoula, matéria prima do ópio, está crescendo na região.

"Os camponeses plantam papoulas porque não têm nada mais a fazer", diz Barrera. "Eles dão as suas vidas pelas papoulas".

Mas a papoula traz os seus próprios problemas. Segundo Barrera, a luta contra o ópio deu ao governo uma desculpa para enviar as forças armadas à área. Os camponeses, por sua vez, formam alianças com os traficantes de drogas, e a atmosfera perigosa é exacerbada pela longa presença dos guerrilheiros que fazem oposição ao governo.

A ausência da lei e a presença militar levaram ao aumento da prostituição. Segundo Barrera, em Tlapa de Comonfort, o centro urbano mais próximo, existem 35 bordéis. Várias das prostitutas são garotas das montanhas que foram ludibriadas para entrar no negócio. Barrera diz que os recrutadores vão até as vilas prometendo às jovens trabalho como empregadas domésticas, mas, em vez disso, as colocam para servir cerveja em bares. Cedo ou tarde, um cliente pede para manter relações sexuais com elas, e seus patrões deixam bem claro que as garotas têm que obedecer.

Para essas garotas, ser vendida como noiva muitas vezes é a mais palatável dentre duas opções terríveis.

Há apenas dois anos, Joel Comonfort Aries, um respeitável professor de uma comunidade vizinha, quis que Silvia, de 13 anos, se casasse com o seu filho Feliciano, de 24.

Comonfort Aries visitou os pais da garota várias vezes e as famílias fecharam o negócio. Ele diz que não pagou dinheiro pela garota, mas que, em vez disso, deu um grande banquete.

Quando chegou a hora da garota partir, ela chorou e gritou, agarrando-se ao batente da porta, enquanto a família do noivo a arrastava.

Atualmente Silvia vive com a família do marido e tem um bebê. Quando os dois se casaram, todos sabiam que o noivo era um alcoólatra. Joel Comonfort Áries diz que esperava que o casamento consertasse o filho. Quando lhe perguntam se é feliz, Silvia responde com monossílabos inaudíveis e dá de ombros. As lágrimas enchem os seus olhos, mas ela sorri para esconde-las.

Mais tarde, um outro professor que conhece bem a família disse que Comonfort Arias pagou dez mil pesos, o equivalente a mil dólares, por Silvia. O pai da moça usou o dinheiro para ir aos Estados Unidos trabalhar, segundo Fausta Silva Campos. Mas ele ficou muito deprimido pelo que fez.

"Ele ficou envergonhado por saber que não agiu da forma certa", diz a esposa.

Agora, algumas mulheres mixtec estão reclamando contra a venda de noivas, utilizando as suas próprias vidas como um exemplo do mal que a prática causa às garotas e à comunidade. Elas dizem que os maridos dessas garotas muitas vezes as consideram como propriedade material, abusando das mulheres e tratando-as como escravas.

"Não gosto dessa tradição do meu povo", diz Matilde Santiago, de 38 anos, mãe de cinco filhos, e que foi vendida como noiva aos 11 anos. Ela teve o primeiro filho aos 14 anos. "Eu já sofri, e não quero que as minhas filhas também sofram".

O seu ponto de vista não é popular entre os velhos da comunidade. Enquanto ela fala, o primo do seu sogro entra na conversa e começa a gritar furiosamente, dizendo que os filhos devem obedecer aos pais.

Os professores são altamente respeitados e ficam na comunidade por anos. Silva Campos lecionou por 12 anos em Tenexcalcingo, e agora mora nas proximidades de Atlamajalcingo Del Monte. As mães geralmente vêm até ela para resolver problemas com o acesso à previdência social e para tratar da substituição de documentos perdidos.

Inevitavelmente, noivas que fugiram às vezes a procuram, buscando auxílio. Há alguns meses, Silva Campos escondeu uma garota debaixo da sua cama enquanto a família vasculhava a casa. Naquela noite, as duas andaram por horas na escuridão até a casa de uma amiga, que colocou a garota em um ônibus rumo à capital do Estado, Chilpancingo.

De la Cruz, o associado de Barrera, vê a venda de noivas através de um prisma multifacetado. Ele sabe que trata-se de uma parcela da tradição do seu povo, mas também que pode ser uma prática selvagem. Ele espera que a mudança nos costumes traga uma vida mais digna para as mulheres mixtec.

"Mudanças estão ocorrendo", diz ele. "Os pais estão considerando a possibilidade de que as suas filhas possam ter um futuro diferente. Eles estão rompendo com o roteiro fatalista, segundo o qual as mulheres estariam predestinadas a sofrer".

Tradução: Danilo Fonseca

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