Atentados revelaram diferentes tipos de heróis nos EUA

Marilyn Elias

O Dia de Ação de Graças pode ser algo difícil de ser digerido este ano. O saldo amargo do terrorismo é claro: 4.600 pessoas mortas; 2.800 crianças que perderam um dos pais; um potencial para atentados bioterroristas que preocupa; e uma guerra que, segundo nos diz o governo, pode se estender por anos.

"Tenho saudade do dia 10 de setembro", disse melancolicamente um personagem da popular tira de quadrinhos "Doonesbury", refletindo o sentimento de muitos de nós. Mas em 10 de setembro não tínhamos idéia de como o cidadão norte-americano comum poderia ser heróico, de como ele estaria disposto a correr grandes riscos, deixando todo o egoísmo de lado, para ajudar os outros. "Esse foi o fato positivo que podemos presenciar em toda essa tragédia", afirma Frank Farley, psicólogo da Temple University, que pesquisa há muito tempo o comportamento heróico.

Antes, não estávamos conscientes de suas existências, mas agora somos muito agradecidos por ter esses heróis entre nós. "Os nossos filhos se perderam em um mar de anti-heroísmo e de cinismo. E eis que de repente o heroísmo está de volta", afirma Farley.

E os atos de bravura de 11 de setembro podem nos ensinar muita coisa sobre nós mesmos. Segundo Farley, há três tipos principais de heróis:

- Os "heróis 911" (911 é o telefone de emergência nos Estados Unidos), cuja profissão é salvar a vida das pessoas. Nessa categoria estão os bombeiros, policiais, paramédicos e guardas de segurança.

- Os heróis "situacionais", que comentem um ato isolado de heroísmo, entrando em ação quando a situação se apresenta.

- Os altruístas constantes, aqueles que praticam ininterruptamente atos de altruísmo, e freqüentemente de heroísmo, por um longo período.

Os pesquisadores analisaram as características e os traços de personalidade de cada um desses tipos de herói, e encontraram muitos traços em comum entre eles. No dia 11 de setembro, esses três tipos de heroísmo emergiram.

Os "heróis 911"

Exemplos de bravura 911 são muitos desde o dia dos ataques. Eis alguns exemplos:

- Dominick Pezzulo, policial da Autoridade Portuária, morreu ao ser atingido por destroços do prédio que desabava, quando ajudava um colega a escapar dos escombros.

- Matthew Garvey era um instrutor de salvamento do Corpo de Bombeiros de Nova York. Tendo sido fuzileiro naval por dez anos, ele era o líder de uma equipe de elite que fazia o reconhecimento do território inimigo antes que as tropas terrestres avançassem. Ele serviu nas operações Escudo do Deserto, Tempestade do Deserto e em Beirute. Garvey morreu sob os escombros do World Trade Center.

- John Gerard Chipura era membro da polícia de Nova York antes de entrar para o Corpo de Bombeiros, há três anos. Na última vez que foi visto ele estava ajudando a retirar pessoas da Torre Sul.

- David Martin Weiss, bombeiro, era conhecido pela sua força e bravura. Ele morreu no World Trade Center. Alguns anos atrás, Weiss viu um carro perder o controle na estrada e cair nas águas do East River, em Nova York. Ele mergulhou para resgatar o motorista, cujo coração havia parado de bater. Quando esse episódio aconteceu ele não estava de serviço.

Segundo Farley, a maior parte dos "heróis 911" adora a adrenalina e os desafios físicos. "Mas eles não têm nenhuma espécie de atração pela morte. São pessoas que querem viver para contar com outro dia interessante e cheio de desafios". É por esse motivo que eles tantas vezes saltam de um papel heróico para outro.

Trata-se de indivíduos que assumem riscos de maneira destemida, que nasceram com um instinto para as ações perigosas, mas que necessitam do tipo certo de criação para desenvolverem essa característica. "A probabilidade de se tornar um Ever Knievel sendo criado por uma família da religião amish é muita baixa", diz Farley. "Mas se você tiver os genes necessários e for criado em uma família de gente intrépida, sem dúvida se tornará um tipo heróico".

De acordo com Farley, vários dos bombeiros e policiais que estavam nas torres que desabaram possuíam pais ou irmãos que fazem o mesmo tipo de trabalho. E os parentes daqueles que morreram muitas vezes afirmam que os falecidos nunca haviam encarado o seu comportamento como sendo heróico. "Os '911' têm um forte senso de responsabilidade social que está impregnado até à medula dos ossos", diz o psicólogo Robert Cialdini, da Universidade do Estado do Arizona. Comportamento heróico? "Trata-se de algo que está tão inculcado nesses indivíduos que passa a ser a sua essência".

Heróis circunstanciais

O vôo 93 da United Airlines caiu quando rumava para Washington D.C., após um grupo de norte-americanos desarmados ter lutado contra terroristas armados com facas e, segundo eles, uma bomba. Pelo menos quatro passageiros fizeram ligações telefônicas e, portanto, sabemos as suas identidades: Mark Bingham, Todd Beamer, Tom Burnett e Jeremy Glick. A comissária de bordo Sandra Bradshaw ligou para o marido para dizer que estava fervendo água para utilizá-la como arma. Acredita-se que outros passageiros e comissários lutaram. Todas as 44 pessoas a bordo morreram, mas o avião não atingiu o seu alvo.

Várias pesquisas sobre heróis e indivíduos que resistiram aos oponentes durante a era nazista confirmam que eles tendem a ser pessoas confiantes, dotadas de alto-estima, que vêem o que há de melhor nos outros e tendem a tomar conta dessas pessoas. Segundo os psicólogos, eles têm uma estrutura moralque parece ter sido moldada em ferro.

Alice Hoglan, mãe de Bingham, se lembra de como certa vez ele tomou uma arma de fogo de um assaltante. "Se algo estivesse errado, ele consertava a situação", diz ela.

Todd Beamer possuía um forte sentimento de justiça, segundo a viúva que deixou, Lisa Beamer. "Todd não deixaria que outras pessoas tirassem vantagem dele ou de mais ninguém".

Embora a sua ação seja decisiva, os heróis situacionais muitas vezes não têm os impulsos explosivos e destemidos dos guerreiros 911. "Eles respondem a uma necessidade específica, e não saem agindo automaticamente", afirma Ervin Staub, psicólogo da Universidade de Massachusetts, que há 30 anos estuda os fenômenos do heroísmo e da violência.

Glick falou com a sua mulher, Lyzbeth, por 20 minutos, do avião, e lhe disse sobre os planos para lutar contra os terroristas, chegando a pedir a opinião da esposa. Burnett ligou para Deena, a sua mulher, por quatro vezes. "Eu sei que ele morreu lutando", disse ela após a queda do Boeing.

Segundo Staub, o vôo 93 tinha vários fatores propícios a uma rebelião. Ao contrário dos outros três aviões seqüestrados, há evidências de que os passageiros do vôo 93 sabiam que os Estados Unidos estavam sofrendo um ataque, e de que a situação pela qual passavam não se tratava de apenas o seqüestro de um avião isolado. Ataques desfechados contra pessoas que compartilham uma certa identidade aumentam as chances de resistência, diz o psicólogo. Além disso, neste cenário, é necessário apenas um indivíduo intrépido para fazer com que os outros se unam para a ação, segundo demonstram os estudos feitos por Staub e outros pesquisadores. "Uma pessoa determinada tem um poder enorme nesses casos", diz ele.

Altruístas constantes

Tim Byrne, um corretor de ações de 36 anos, morador de Nova York, não tinha filhos. Mas ele se tornou uma espécie de pai quando o seu próprio pai morreu subitamente aos 47 anos, deixando uma viúva e dez filhos. Tim tinha 21 anos. "Ele disse: 'Não se preocupe. Vou providenciar para que nunca nos falte nada'. E foi exatamente isso que ele fez", conta Kathleen Byrne, professora de artes e a única mulher entre os dez irmãos.

Tim se tornou o lastro emocional e financeiro da família. Ele freqüentava as reuniões entre pais e professores, estimulava os irmãos mais novos a praticar esportes , ajudava Kathleen a fazer as lições de casa, "e garantiu que todos nós seguíssemos o rumo da faculdade ou do trabalho, fazendo tudo isso sempre com bom humor", diz ela. Após um avião ter atingido a Torre Norte, Byrne ligou para a mãe, Charlene, do seu escritório na Torre Sul, para lhe dizer que estava bem. "Essa atitude era típica de Tim", diz Kathleen. Ele não conseguiu escapar do segundo impacto.

Outro que não sobreviveu foi Tom Glaser, de 40 anos, sócio da firma Sandler O'Neill. "Ele não tinha o jeito do pessoal de Wall Street", afirma a viúva, Meg Glasser. Tom estudou filosofia no Haverford College e fazia performances em clubes de comédia para se divertir. Segundo ela, o marido estava pensando em se aposentar cedo. "Ele simplesmente não tinha tanto interesse por dinheiro. Meu marido era um gênio com números, mas doava grande parte do seu dinheiro".

Glasser, pai de dois garotos, de dois e três anos, contribuiu com fundos para filhos carentes de policiais e outros jovens interessados em seguir carreira na área de justiça criminal. Mas, segundo a viúva, ele preferia fazer as doações anonimamente.

"Ele foi um dos poucos caras ricos que conheci que trazia dentro de si um grande sentimento de gratidão. Por isso era tão generoso", diz o amigo Mark Sichel, um psicoterapeuta de Nova York. "Não havia por parte dele aquelas bravatas machistas que mantém as pessoas à distância".

Os altruístas constantes tipicamente extraem o seu maior prazer da convivência com a família e os amigos, e não das suas façanhas financeiras", dizem os psicólogos.

E eles não fazem doações até que se sintam mal, de acordo com Cialdini. A sua pesquisa revela que essas pessoas têm um prazer intenso em ajudar os outros. Elas sentem uma espécie de euforia toda vez que fazem doações, e isso as encoraja a continuar ajudando os outros.

Tais heróis comuns muitas vezes, mas nem sempre, possuem fortes exemplos que funcionam como modelo para suas vidas.

Há uma grande quantidade de tais modelos nos Estados Unidos, e a amplitude do comportamento altruísta que emergiu em 11 de setembro não surpreende aqueles que estão no "ramo do heroísmo".

A Carnegie Hero Fund Comission concede medalhas e prêmios em dinheiro todos os anos para cerca de 100 americanos e canadenses que não estão nas "profissões 911", mas que arriscaram as suas vidas tentando salvar a vida de outros. O grupo ouve falar de milhares de tais casos todos os anos, segundo o diretor da organização, Walter Rutkowski.

A comissão vê os heróis de 11 de setembro como um grupo. "A amplitude de sua resposta parece assombrosa, mas, para nós, é algo que presenciamos constantemente", afirma Rutkowski.

E o forte impulso altruísta revelado nas vidas de tantas pessoas não choca Alice Rossi, socióloga e autora do livro "Caring and Doing for Others" (Se Preocupando e Fazendo Algo Pelos Outros).

O voluntarismo comunitário nos Estados Unidos aumentou bastante nas últimas décadas e está agora no seu apogeu, segundo Rossi. Além disso, cerca de 20 milhões de pessoas, cuidam de membros doentes da família, muitas vezes fazendo sacrifícios heróicos. "A alegação de que somos uma sociedade narcisista é bastante exagerada", diz Rossi, citando os cerca de US$ 1,3 bilhão (R$ 3,3 bilhões) que os norte-americanos doaram às vítimas dos ataques.

Os heróis de 11 de setembro são um exemplo para estimular aquilo que temos de melhor dentro de nós, é o que dizem algumas pessoas.

"Eles vão fazer com que os indivíduos se sintam menos embaraçados em serem eles próprios heróis", prevê o psiquiatra Fred Goodwin, ex-diretor do Instituto Nacional de Saúde, e que atualmente é o apresentador do programa "The Infinite Mind" (A Mente Infinita), na estação radiofônica National Public Radio. "Nos círculos da elite norte-americana somos aconselhados a adotar um comportamento cínico. Isso seria uma indicação de esperteza", diz Goodwin. Mas agora essa onda pode sair de moda.

Como um povo contencioso e caracterizado pela diversidade, conhecemos os nossos direitos. Sem dúvida entendemos aquela parte do nosso hino que fala sobre "a terra da liberdade".

Os heróis dos ataques terroristas forneceram evidências de que, mesmo em meio a uma barbárie indescritível, ainda somos a terra dos corajosos.

E isso é algo a que devemos ser gratos.

Tradução: Danilo Fonseca

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