Guerra do Afeganistão é uma das mais perigosas para jornalistas

Kirk Spitzer

Dushanbe, Tadjiquistão -- Os quatro homens mascarados, vestidos com túnicas e usando turbantes, chegaram ao complexo às 2 h da madrugada, armados com fuzis Kalashnikov. Eles levaram dinheiro, computadores e equipamentos dos quatro jornalistas suecos, mataram um dos repórteres com um tiro no coração e, depois, desapareceram na escuridão da noite. Ulf Stroemberg, de 42 anos, operador de câmera da rede de televisão sueca TV4, sangrou até morrer nos braços dos amigos.

Stroemberg, morto na última terça-feira na cidade de Taloqan, no norte do Afeganistão, foi o mais recente membro da mídia a morrer naquele que, para os jornalistas, já é tido como um dos conflitos mais mortíferos para esses profissionais.

Nas nove semanas desde o início dos bombardeios liderados pelos Estados Unidos, nenhum militar norte-americano morreu em combate. Um agente do Departamento de Operações de Inteligência da CIA foi morto esta semana, durante uma rebelião de prisioneiros talebans.

Mas, no mesmo período, oito jornalistas já perderam a vida em emboscadas nos campos de batalha, execuções à beira de estradas ou episódios de latrocínio.

Pelo menos um jornalista, de nacionalidade canadense, foi aparentemente raptado para a obtenção de resgate em dinheiro. Vários outros foram feridos por estilhaços de bombas e projéteis, mutilados em acidentes de tráfego, tratados com brutalidade, além de terem sido alvo de atentados à bala e de sofrerem diversos tipos de ameaças. Para as centenas de jornalistas que tentam cobrir o conflito no Afeganistão, o simples fato de permanecerem vivos já se constitui em um grande desafio. De certa forma, os perigos enfrentados agora pelos jornalistas são maiores do que aqueles com que os profissionais da mídia se depararam nos conflitos na Somália, em Kosovo, no Iraque e no Vietnã.

No Afeganistão os jornalistas são quase sempre obrigados a confiar nas imprevisíveis tropas da Aliança do Norte ou nos guarda-costas contratados no país. Eles não têm podido acompanhar as tropas dos Estados Unidos, já que há poucos soldados norte-americanos no solo e maior parte desse contingente militar está engajada em missões clandestinas. "Para os jornalistas a situação é infinitamente mais caótica do que em outras guerras", afirma Joe Urschel, diretor-executivo do da organização Freedom ForumŽs Newseum. "O Afeganistão está concorrendo ao lugar de pior situação já enfrentada pelos jornalistas no exterior".

Muita gente concorda com essa afirmação. "Trata-se de um local tremendamente perigoso. É muito diferente de qualquer outro conflito porque não se sabe de onde vem o perigo. A situação se modifica com rapidez", diz Paul Harrison, ex-paraquedista do exército britânico, que trabalha para a BBC na região como consultor de segurança.

Caindo fora

Harrison liderou um comboio de 30 jornalistas que saiu de Taloqan e se deslocou para o vizinho Tadjiquistão após o assassinato de Stroemberg. Dezenas de outros jornalistas também cruzaram a fronteira. Embora Taloqan nunca tenha sido um local inteiramente seguro, Harrison afirma que a segurança na cidade se deteriorou rapidamente desde que os combatentes talebans encurralados nas proximidades de Cunduz começaram a mudar de lado, unindo-se à Aliança do Norte. Vários soldados talebans receberam permissão de ficar com suas armas, o que fez com que aumentasse a sensação de insegurança na região.

A princípio os comandantes da Aliança do Norte não permitiram que o comboio deixasse Taloqan, alegando que a estrada não era segura. Ao invés disso, eles ofereceram abrigo para os jornalistas em um complexo militar guardado. No final das negociações, eles acabaram cedendo cinco soldados para fazerem a escolta do comboio, e os jornalistas conseguiram atingir a segurança do Tadjiquistão após uma penosa viagem de 12 horas por estradas em péssimas condições. Em determinado momento, os veículos do comboio se separaram. Eles só conseguiram se reagrupar após terem ligado para a BBC, em Londres, que foi capaz de transmitir mensagens para os repórteres nos vários veículos através de ligações para os seus telefones via satélite.

"Conseguimos tirar todos de lá em segurança, e isso é o que importa", diz Harrison, que trabalha para a empresa de segurança Chiron Resources, de Londres.

Atualmente há poucos (se é que há algum) jornalistas ocidentais que permanecem no norte do Afeganistão - com exceção da cidade de Mazar-e-Sharif. E os jornalistas que estão nesta cidade provavelmente vão partir em breve, já que parece que o governo uzbeque está prestes a fechar a sua passagem de fronteira em Termiz, e os jornalistas querem sair antes que isso aconteça. Rumar para o sul em direção a Cabul seria uma aventura bastante perigosa, devido ao banditismo generalizado e a presença de minas nas estradas.

"Antes de melhorar, a situação vai ficar pior", afirma Harrison. "Na maior parte das guerras você tem linhas de combate definidas e sabe quem são os combatentes. Dá para se ter uma noção de onde vem o perigo. Mas aqui é muito difícil para os jornalistas dizer quem é quem. Não se sabe de que lado os combatentes estão, nem tampouco a quem são leais com o passar dos dias. Não sabemos em quem confiar... É um cenário realmente muito assustador".

Fatalidades e estresse

Mesmo antes da rendição do Taleban, o norte do Afeganistão era uma região muito distante de ser segura. Três jornalistas foram assassinados em Dasht-e Kala, quando o veículo blindado no qual viajavam foi vítima de uma emboscada de soldados talebans. Nas proximidades de Jalalabad, quatro jornalistas foram arrancados do seu carro e executados por soldados talebans que, provavelmente, estavam interessados em roubar os repórteres. Para cada uma das mortes, houve vários episódios que por pouco não terminaram em tragédia.

Um jornalista norte-americano em Taloqan teve de correr para salvar a sua pele, depois que foi alvo de tiros enquanto utilizava um telefone de satélite, à noite, fora do complexo onde estava instalado. Um jornalista britânico da rede ITN foi ferido na perna quando um soldado taleban detonou uma granada em um ataque suicida contra um comandante da Aliança do Norte. E um produtor de programas televisivos da National Geographic foi atingido por estilhaços quando uma peça de artilharia taleban caiu próximo a ele e a um repórter do USA Today.

Mas não é só o perigo que faz com que a vida seja difícil para os jornalistas que atuam no Afeganistão. Vários deles estão exaustos devido ao enorme estresse resultante de operar em um ambiente onde não há estradas transitáveis, sistemas de comunicação confiáveis ou qualquer tipo de infraestrutura real.

Devido ao fato de os hotéis serem raros, com a exceção de uma cidade ou duas, a maior parte dos jornalistas se instala em casas localizadas em complexos murados. É comum que durmam em grupos de seis a oito pessoas no chão ou sobre tapetes. Muitas vezes não há aquecimento, eletricidade ou água corrente. Não existem linhas telefônicas. As refeições são difíceis, e muitas vezes os profissionais têm de se submeter a um jejum forçado.

Caro e exaustivo

Até mesmo para os profissionais da mídia impressa, que viajam de forma relativamente menos complicada, trabalhar no Afeganistão pode exigir bagagens de 40 a 50 quilos, incluindo equipamentos e suprimentos, laptop, telefones via satélite, capacete e colete à prova de balas, saco de dormir, receptor GPS (Sistema de Posicionamento Global), purificador de água, gerador portátil, adaptadores elétricos, lanterna, comida desidratada, remédios, kit de primeiros socorros e outros itens. "Sob o ponto de vista logístico, é um trabalho muito mais duro, já que estamos falando de um país onde não existe eletricidade, água, banheiros ou locais para fazermos refeições", afirma Lene Froeslev, correspondente do jornal dinamarquês Berlingske Tidende, que já cobriu conflitos nos Bálcãs, no Oriente Médio e na Irlanda do Norte.

"Você próprio é que tem de organizar tudo, e isso faz com que tenhamos que desviar tempo e energia que seriam empregados para fazer as reportagens. Portanto, acabamos trabalhando das 5h30 até à noite, todos os dias. É exaustivo", diz ela.

Trabalhar como jornalista no Afeganistão é também caro e, portanto, ainda mais perigoso.

Por exemplo, para se locomover de um local a outro é necessário que se contrate motoristas locais dotados de veículos com tração nas quatro rodas, bem como tradutores e pessoas capazes de fazer concertos no local. Considerando-se que não há sistema bancário em funcionamento no Afeganistão, os jornalistas são obrigados a levar milhares de dólares em dinheiro vivo, fazendo com que sejam presas fáceis para ladrões.

Quando o corpo do escritor alemão Volker Handloik, que trabalhava para a revista Der Stern, foi encontrado, os seus colegas descobriram que as suas roupas haviam sido rasgadas, e o seu cinturão com dinheiro tinha sido levado.

"Os afegãos estão começando a perceber que nós somos, na realidade, bancos ambulantes, com milhares de dólares em dinheiro vivo no corpo", diz Froeslev. Em geral, os dólares americanos são a única moeda aceita pela população local.

A BBC contratou consultores de segurança - ex-soldados, como Harrison, que negociam com chefes de milícias locais ou com policiais, organizam comboios e avaliam constantemente os perigos para os correspondentes e as equipes de reportagem. A BBC também alugou um avião de transporte para levar um Land Rover blindado até Dushanbe, e a sua equipe dirigiu o veículo até o Afeganistão.

Em conflitos anteriores, os jornalistas algumas vezes contrataram combatentes locais para obter proteção, embora essa prática traga os seus próprios riscos. Durante o conflito na Somália, um grupo de jornalistas ficou retido na remota cidade de Baidoa, após ter sido assaltado pelos próprios guarda-costas. Um outro grupo teve de ser resgatado pelos fuzileiros navais quando os seus guarda-costas os abandonaram, ao perceber que uma multidão cercara o complexo onde estavam instalados. Embora nenhum jornalista esteja portando ostensivamente armas no Afeganistão, tal prática já ocorreu em conflitos anteriores.

Durante a Guerra do Vietnã, o jornalista Joe Galloway, da United Press International (UPI) portava uma submetralhadora, enquanto que Charlie Eggleston, também da UPI, matou três vietcongues em um tiroteio no qual ele também morreu. Na Guerra do Golfo, eu mesmo recebi armas dos fuzileiros navais durante operações de combate.

Segundo a Convenção de Genebra, jornalistas credenciados têm o direito de usar armas para defesa pessoal.

Precauções

Até o momento, os jornalistas no Afeganistão têm viajado em grupos para aumentar a sua segurança. Eles têm confiado em palpites para driblar o perigo. "É uma questão de usar o bom senso", afirma Andy Driver, um operador de câmera de vídeo que trabalha como freelancer para a empresa de mídia japonesa Fuji News Network.

Ex-soldado britânico, Driver diz que pensou em portar uma arma, mas está tomando outras precauções. Em Mazar-e-Sharif, onde 600 prisioneiros talebans se rebelaram e foram massacrados, após três dias de lutas e execuções, esta semana, Driver optou por ficar em um quarto em uma hospedaria que não tinha aposentos no térreo. Só havia uma entrada, tornando mais fácil para ele se prevenir contra a ação de invasores.

Solteiro e sem filhos, Driver também leva o retrato de crianças, filhas de um amigo, na sua carteira. "Pode parecer algo de estúpido, mas se eles revirarem os meus pertences, vão achar que são meus filhos. Vários desses combatentes não vão te matar se acharem que você tem família", explica Driver.

Tradução: Danilo Fonseca

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