Astros da música lamentam morte de George Harrison

Edna Gundersen

Los Angeles, EUA -- George Harrison deixou o mundo material, mas o seu espírito e a dimensão espiritual que ele trouxe para a música pop continuam vivos nas suas gravações e nas memórias agradáveis que deixou. Os fãs ouviram algo ressoando ao saberem da sua morte na última quinta-feira: o som de mais uma porta de uma era gloriosa de idealismo e de uma criatividade estonteante se fechando. Para os baby boomers (população norte-americana nascida na década que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial), tratava-se de uma morte na família.

Com a mulher, Olivia, e o filho, Dhani, ao seu lado, Harrison morreu na quinta feira em Los Angeles, após uma luta de quatro anos contra o câncer. Ele tinha 58 anos de idade. Nos últimos anos, Harrison vinha atuando de forma muito discreta. "Ocasionalmente faço uma música nova, mas não posso me considerar realmente um indivíduo dedicado à carreira", disse ele ao USA Today no ano passado. "Basicamente, eu sou um jardineiro".

Mesmo durante a explosão cultural deflagrada pelos Beatles, Harrison era freqüentemente tido como o parceiro silencioso daquela revolução musical. Aceitando a sua entrada no Rock and Roll Hall of Fame, em 1988, ele ironizou: "Não tenho muita coisa a dizer porque sou o Beatle calado".

Ainda assim, o impacto do seu trabalho ressoou de maneira alta e clara no mundo da música, onde a sua natureza gentil, os seus trabalhos humanitários e a sua busca espiritual impressionaram tanto os colegas quantos os fãs.

"Eu conhecia George muito bem", disse Michael Jackson na sexta-feira ao USA Today. "E não digo isso porque ele não está mais entre nós. Ele foi uma das pessoas mais doces que conheci. Creio que foi uma perda trágica para o mundo da música. Ele era um compositor maravilhoso. A música "Something" ainda é uma das mais belas de todos os tempos".

Bono, do conjunto U2, embora sabendo do desdém que Harrison tinha pela banda irlandesa, o admirava abertamente. Lembrando o choque pelo qual passou quando soube que Harrison havia sido esfaqueado em sua casa por um intruso maluco, em 1999, Bono diz: "Descobri o quanto amava a sua guitarra e as suas composições, de forma que, na virada do milênio, quando eu tocava em frente ao Lincoln Memorial, Daniel Lanois e eu fizemos uma versão de "One" que se transformou em "My Sweet Lord". Eu cantei aquela aleluia para George. Eu simplesmente o adorava, embora não esteja certo de que esse sentimento fosse recíproco".

O U2 tocou "My Sweet Lord" para homenagear Harrison em seu concerto de sexta-feira, em Atlanta. No seu show na sexta-feira, em New Hampshire, Elton John dedicou a música "Your Song" a George Harrison, "por todas as canções maravilhosas que ele nos deu durante vários anos".

"Ele inspirava o amor e tinha a força de cem homens", disse Bob Dylan em uma declaração pública. "George era como o sol, as flores e a lua, e vou sentir uma saudade enorme dele. O mundo é um local profundamente mais vazio sem a presença de George".

Os amigos Beatles, Paul McCartney e Ringo Starr, também expressaram pesar e falaram das lembranças caras deixadas pelo companheiro falecido. "George era um homem muito corajoso, dono de um coração de ouro, mas também era alguém que não ouvia desaforos passivamente. Sempre vou me lembrar que, sem George, nada do que fizemos teria sido possível".

Embora bastante estimado pelos parceiros, algumas contribuições valiosas de Harrison muitas vezes não tiveram crédito.

"Something", a sua inesquecível balada de "Abbey Road", foi muitas vezes interpretada por Frank Sinatra, que a elogiava como sendo a melhor música de amor já composta. No entanto, Sinatra atribuía erroneamente os créditos da letra e da música a John Lennon e a Paul McCartney.

Harrison, McCartney, Lennon e Starr dissolveram os Beatles em 1970 após terem dominado a cultura pop global e alterado para sempre a música popular.

Pessoalmente, Harrison minimizava a importância do grupo, chegando a ponto de ter dito, em uma entrevista ao USA Today, que não conseguia se "sintonizar com as gravações dos Beatles". Mas ainda que ele tenha sido um compositor secundário na banda dominada por Lennon e McCartney, a marca deixada nas suas músicas é inconfundível.

Além de "Something", que foi a mais ouvida na época do seu lançamento, ele fez "Taxman", "While My Guitar Gently Weeps", "If I Needed Someone" e "Here Comes the Sun". Ele acrescentou floreios de guitarra e um estilo distinto, inspirado por Carl Perkins. George dirigiu a banda rumo a elementos exóticos e místicos, introduzindo a cítara no rock e um toque indiano em músicas como "Norwegian Wood" e "Within You Without You", pontilhadas de acordes de tambouras indianas de quatro cordas. O estilo meditativo de Harrison e sua missão mística deram ao som dos Beatles um sabor de mistério e dignidade.

Ele ensinou Lennon a tocar guitarra e apresentou aos Beatles a meditação transcendental. "Wonderwall Music", de 1968, com um toque oriental, foi o primeiro LP dos Beatles com o rótulo da Apple.

Caso tivesse se aposentando após a dissolução dos Beatles, ele já teria um lugar assegurado no panteão dos astros do rock. Mas Harrison também se destacou na sua carreira solo, conquistando oito discos de ouro (vendas acima de 500 mil cópias) e três de platina (mais de um milhão de cópias vendidas). Ele também se contrapôs ao modelo hedonista de estrelismo no mundo do rock com o seu marcante exemplo de humildade e generosidade.

Por escolha própria o beatle menos comunicativo e menos visível, Harrison marcou a sua saída da banda com o álbum triplo, de 1970, "All Things Must Pass", o primeiro de um ex-Beatle a ficar em primeiro lugar nas paradas de sucesso. A música "My Sweet Lord" ficou em primeiro lugar em todo o mundo, uma vitória que foi azedada em 1976, quando Harrison perdeu uma batalha nos tribunais, tendo sido acusado de ter plagiado o sucesso dos Chiffons, "HeŽs So Fine".

Sensibilizado pela situação dos refugiados famintos de Bangladesh, Harrison organizou dois concertos beneficentes em 1971, considerados os protótipos dos modernos eventos de caridade no mundo do rock. O show, do qual participaram os maiores astros do rock, gerou um documentário musical e o álbum triplo, "Concert for Bangla Desh", que recebeu o prêmio Grammy em 1973. Em 1974 ele se tornou o primeiro Beatle a fazer sozinho uma turnê mundial.

Após uma longa ausência, Harrison fez um brilhante retorno em 1988, quando o seu álbum "Cloud Nine" emplacou a canção mais ouvida, "Got My Mind Set on You", uma regravação do original de 1962 feito por James Ray. Ele também se juntou a Bob Dylan, Roy Orbison, Tom Petty e Jeff Lynne no primeiro dos dois álbuns do Traveling Wilburys, que foram sucessos de venda.

Em 1992, quando aceitou o primeiro prêmio Century, da Billboard, pelo seu desempenho criativo, Harrison disse: "ter sido um Beatle não foi um obstáculo para a minha carreira".

Prisioneiro da sua própria fama e muitas vezes obscurecido pela sombra dos Beatles, Harrison buscou a satisfação e a paz de espírito na música e em outros prazeres mais simples.

"A fama não é o meu objetivo", disse ele certa vez.

Harrison se meteu em poucas empreitadas musicais nos anos 90, exceto ao colaborar para o altamente popular "Beatles Anthology", composto de álbuns, um especial de TV e uma autobiografia, e ao preparar a reedição do seu próprio catálogo de obras. Apesar dos problemas com a saúde, ele trabalhava no início deste ano no seu primeiro álbum desde "Cloud Nine", de 1987. "Tenho material suficiente para três álbuns solo", disse ele ao USA Today.

Em outubro ele gravou "Horse to the Water", na sua casa na Suíça, com o pianista britânico Jools Holland, ex-membro do Squeeze. Composta em conjunto com o filho, Dhani, de 23 anos, a música é destinada aos amigos autoindulgentes que necessitam de despertar espiritualmente. Incluída no álbum "Small World, Big Band", lançado no Reino Unido em 19 de novembro, os direitos autorais de "Horse to the Water" pertencem a "R. Limited 2001", em uma evidência de que o lendário humor negro de Harrison não esmoreceu nem em face à morte.

Um dia após a morte de Harrison, a sua família divulgou um comunicado: "Ele deixou este mundo da mesma forma em que nele viveu, consciente da presença de Deus, sem medo da morte e em paz, rodeado pela família e pelos amigos".

Um sentimento de calor aconchegante sempre vai cercar o seu legado, cheio de músicas confortantes e de mensagens encorajadoras, que incluem um trecho apropriado para os seus fãs pesarosos. "Agora a escuridão só permanece durante a noite", canta Harrison em "All Things Must Pass". "As coisas não vão ser sempre assim cinzentas".

Tradução: Danilo Fonseca

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