Estados Unidos usam civis em frente de combate

Early Eldridge

Milhares de civis, vários deles empregados por empresas contratadas pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, estão trabalhando ao lado das tropas norte-americanas em todo o mundo.

As suas tarefas variam muito, indo desde as mais mundanas ­ como a construção de latrinas ­ até as perigosas ­ como o resgate de aviões e helicópteros abatidos próximos às linhas inimigas.

Graças a esses civis, o Tio Sam tem economizado milhões de dólares do contribuinte, já que pode fazer com que as tropas se concentrem mais na sua tarefa prioritária, que é o combate.

Segundo oficiais do Pentágono, esse contingente civil auxilia na complementação das Forças Armadas dos Estados Unidos, que viram os seus efetivos serem reduzidos de dois milhões de homens, durante a Guerra do Golfo, para os atuais 1,4 milhão. "Eles são uma parte integral e importante das nossas equipes durante as operações militares", diz o major James Cassela, um porta-voz do Pentágono.

Para os civis, trabalhar na guerra significa ganhar um dinheiro extra e aproveitar a chance de curtir uma aventura. "Eu poderia ter um emprego comum, de 40 horas semanais. Poderia ter optado por passar mais tempo com a minha família nos finais de semana e vendo jogos de futebol americano", diz Bill Smith, de 45 anos. Ao invés disso, ele preferiu trabalhar como um auxiliar civil de logística de munições para o Exército. Atualmente, Smith está operando na Coréia do Sul.

"A cada vez que nos mudamos, encaramos um novo local e um novo desafio", diz Smith, que trabalhou no Kuait durante a operação Tempestade no Deserto.

Uma longa história

Na verdade, os civis norte-americanos têm ido para a frente de batalha desde a época da Guerra Civil. Embora os militares não digam quantos civis estão trabalhando atualmente junto às Forças Armadas, cerca de 2,5 mil participaram da Guerra do Golfo.

A dependência das Forças Armadas desses civis provavelmente vai aumentar, segundo a mais recente avaliação feita pelo Pentágono. O Pentágono pretende privatizar ou terceirizar qualquer atividade militar que não esteja diretamente vinculada às operações de guerra, segundo o relatório divulgado pelo órgão.

As razões para o aumento na utilização de civis são as seguintes:

Custo. As Forças Armadas gastam mais de US$ 50 mil (R$ 125 mil) para fornecer treinamento básico a cada um dos seus recrutas. Os oficiais do Pentágono afirmam que não faz sentido treinar soldados para que eles terminem operando pás quando é possível contratar pessoas para fazerem esse serviço.

Especialização técnica. Como alguns dos novos armamentos são muito sofisticados e complicados, os funcionários das empresas que os fabricam precisam estar próximos aos campos de batalha para realizar os reparos e as manutenções que se façam necessários.

Segundo Cyndi Wegerbauer, porta-voz da General Atomics Aeronautic Systems, uma empresa de San Diego que presta serviços na área de defesa, a tarefa de fazer a manutenção e de ajudar a operar os equipamentos militares se tornou tão complicada que cerca de cinco empresas diferentes podem trabalhar com uma única unidade militar.

"Não estamos operando tanques ou mísseis, mas ajudamos a identificar os alvos em determinada área", diz ela.

Experiência. Os próprios civis, muitos dos quais são ex-militares, dizem que um dos benefícios advindos de sua utilização é a experiência e o conhecimento que são capazes de fornecer às tropas.

"Tenho uma experiência de 29 anos", diz Steve Retherford, um oficial da reserva que hoje é funcionário civil do governo, trabalhando para o exército dos Estados Unidos.

"Os soldados às vezes quebram a cabeça tentando consertar algum equipamento. E é aí que entra o nosso papel, pois desempenhamos a tarefa sem problemas", afirma Retherford, que atuou como civil na Arábia Saudita durante a operação Tempestade no Deserto. Os trabalhadores civis recebem o mesmo equipamento militar de proteção que os soldados, incluindo máscaras contra gases, roupas de bioproteção e cantis. Eles passam pelo mesmo treinamento militar sobre os costumes locais e sobre como evitar ofender os nativos da região. Além disso, recebem as mesmas vacinas e, na maior parte dos casos, voam até a zona de combate com as tropas, dormem nas mesmas unidades e comem a mesma comida.

Vantagens

Apenas os soldados têm acesso às armas. Porém, o que os civis recebem, e os soldados não, são os ótimos salários.

Os civis muitas vezes recebem vantagens salariais, geralmente chamadas de "adicional por periculosidade", dos seus patrões para trabalhar em zonas de guerra. Essas vantagens podem chegar a algo entre 10% a 50% sobre o valor do salário.

"Durante a operação Tempestade no Deserto essas pessoas ganharam muito dinheiro", diz John Schandelmeier, chefe civil da equipe de planejamento do Comando de Material do Exército dos Estados Unidos. "É isso o que eles querem fazer".

É claro que há riscos envolvidos. Os civis geralmente têm um seguro de vida adicional fornecido por seus patrões.

O Pentágono diz que os funcionários civis recebem crachás, indicando que não são militares e que não estão servindo diretamente nas zonas de combate. Segundo a Convenção de Genebra, de 1949, que estabelece diretrizes internacionalmente reconhecidas sobre o tratamento que deve ser dispensado a prisioneiros de guerra, esses crachás podem garantir um tratamento humanitário para os civis que sejam capturados pelo inimigo.

Isso pode soar como uma proteção duvidosa. Mas a verdade é que a maior parte dos civis não teme ser enviada para as zonas de guerra.

Tomemos como exemplo Harry Frazier, 55, que trabalha para a DynCorp, uma empresa que cuida desde a manutenção de aeronaves até a instalação de sistemas de comunicação.

Frazier, um dos 600 funcionários da DynCorp que trabalham na base do exército em Fort Hood, esteve no Kuait e na Arábia Saudita durante a Guerra do Golfo.

"Todos tínhamos consciência da ameaça representadas pelas armas biológicas e pelos mísseis Scud", diz Frazier. "Estávamos acampados a cerca de dois quilômetros das linhas inimigas, mas algumas vezes tínhamos de avançar para resgatar aeronaves abatidas. Era um pouco assustador".

Apesar disso, ele pensou em ir de novo à guerra desta vez, mas desistiu quando a família implorou para que ficasse em casa.

Ir para a guerra não chega a ser uma surpresa, nem para as companhias nem para os seus funcionários.

Toda empresas que presta serviços no setor de defesa sabe que precisa contar com uma equipe disposta a ir às linhas de combate para fazer a manutenção e os reparos no equipamento que a companhia vende às Forças Armadas. E os funcionários sabem que, ao aceitar esse tipo de trabalho, há chances de que tenham de ir à guerra.

"Eles assinam documentos atestando que são essenciais em casos de emergências e que poderão estar sujeitos a hostilidades de combate. Todos os funcionários recebem essa informação quando se candidatam ao emprego", afirma Elmar Cotti, um funcionário civil que acompanhou uma unidade do exército na Bósnia.

A DynCorp, que enviou 700 funcionários ao Kuait e à Arábia Saudita durante a Operação Tempestade do Deserto para, entre outras coisas, construir um complexo de reparos de aeronaves, diz que não teve problemas para encontrar trabalhadores dispostos a auxiliar na luta contra o terrorismo.

"Recebemos uma multidão de voluntários que desejavam ir ao Afeganistão", diz Chris Digesualdo, vice-presidente de serviços técnicos de campo da DynCorp, que envia civis para trabalhar nos campos de batalha desde 1946.

A DynCorp afirma que o seu contrato com o Pentágono proíbe a empresa de revelar quantos dos seus funcionários estão participando da guerra em andamento contra o terrorismo, bem como a localização desses funcionários. Nem as forças armadas nem as empresas contratadas revelam os nomes dos civis que estão trabalhando no exterior, envolvidos no conflito atual.

As empresas também têm funcionários trabalhando diretamente com as forças armadas em situações não beligerantes. "O nosso pessoal está espalhado pelos Estados Unidos, Europa e Coréia do Sul", afirma Digesualdo.

"Se uma aeronave militar cair em qualquer parte do mundo, há uma grande possibilidade de que o nosso pessoal auxilie no seu resgate".

Tradução: Danilo Fonseca

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