Sofrimento de crianças afegãs sensibiliza norte-americanos

Gregg Zoroya

Após terem doado mais de US$ 1,3 bilhão para as vítimas dos ataques terroristas de 11 de setembro, os norte-americanos estão procurando arrecadar mais verbas para conter a onda de fome e ajudar as crianças no Afeganistão, onde a violência está disseminada.

Não existem dados estatísticos precisos, mas as organizações de ajuda humanitária afirmam que os norte-americanos destinaram ao Afeganistão dezenas de milhões de dólares além dos US$ 320 milhões doados pelo governo dos Estados Unidos.

Segundo os especialistas, a cobertura da guerra realizada pela mídia, que chega à saturação, é um dos motivos que explica tal generosidade. Um outro motivo é o presidente Bush, que em outubro pediu às crianças norte-americanas que auxiliassem as crianças afegãs, contribuindo com US$ 1 (R$2,44) por criança, a serem doados a um fundo especial operado pela Cruz Vermelha. Esse fundo já arrecadou US$ 1,5 milhão (R$ 3,66 milhões) ­ e nem toda a correspondência da Casa Branca foi ainda processada, devido à ameaça do antraz.

As agências de auxílio humanitário dizem que estão próximas de atingir o objetivo imediato de fornecer alimentos e abrigo aos cerca de seis milhões de afegãos que foram deslocados devido à guerra, à seca e ao inverno rigoroso que se aproxima. O Programa de Alimentação da ONU tem enviado caminhões, veículos removedores de neve, barcaças e aeronaves para transportar cerca de duas mil toneladas de alimentos por dia para o Afeganistão.

E as doações norte-americanas não param de chegar. "Essa é uma faceta do povo norte-americano que eu não conhecia, e vejam que moro aqui há 20 anos", diz Suraya Sadeed, fundadora da organização Help the Afghan Children, um pequeno grupo de ajuda humanitária criado por norte-americanos de descendência afegã.

A lista de doadores da organização aumentou muito nos últimos tempos, quando os norte-americanos que não são descendentes de afegãos passaram a contribuir com quantias recordes. O grupo espera enviar cerca de US$ 500 mil em alimentos, remédios e material escolar para o Afeganistão neste ano, cinco vezes mais do que o total arrecadado no ano passado.

"De repente, muitos americanos começaram a participar", diz Sadeed. "Eles se preocupam com as pessoas da região, e são capazes de distinguir entre o povo afegão e aqueles que cometeram esse crime".

Outras organizações maiores não estavam certas de como os norte-americanos reagiriam depois dos terríveis eventos de 11 de setembro. Grupos como o Fundo dos Estados Unidos para a Unicef, a Oxfam for America e a Mercy Corps enviaram cautelosos pedidos de contribuições para os doadores. Em muitos casos, a resposta foi surpreendentemente positiva:

- Em poucas semanas os doadores atenderam ao pedido da Unicef, doando US$ 36 milhões (R$ 87,73 milhões) para a compra de vacinas, remédios pediátricos e agasalhos para as crianças afegãs. Segundo Charles Lyons, presidente do grupo, pode-se considerar que os pedidos para atender a emergências internacionais têm muito resultado quando conseguem arrecadar um terço da quantia solicitada.

- A Oxfam America, que auxilia na distribuição de alimentos no Afeganistão, pediu em outubro US$ 1,2 milhão em doações. A organização acabou arrecadando mais de US$ 2 milhões e, segundo a porta-voz do grupo, Peggy Connoly, há mais dinheiro entrando.

- A Mercy Corps conta com centenas de colaboradores que fizeram duas doações nas semanas que se seguiram ao 11 de setembro. Uma para assistência às vítimas em Nova York e a outra para o Afeganistão, um índice praticamente desconhecido pelas agências de auxílio humanitário.

"Foi inusitado receber uma segunda doação dessas pessoas em um espaço de tempo tão curto", diz Matthew de Galen, chefe do setor de desenvolvimento da Mercy Corps. Segundo ele, a média foi de US$ 100 (R$ 244) para a primeira doação, a metade da quantia média da segunda.

"Por natureza, o norte-americano é um povo caridoso", diz a porta-voz do Mercy Corps, Laura Guimond. "Mas parece que desta vez houve ainda mais compaixão e sensibilidade. Não tivemos que implorar pelas doações"

Enviando os alimentos

A assistência para as organizações de auxílio individual é crucial, já que os funcionários dessas agências estão em território afegão distribuindo comida para os famintos. Os alimentos, compostos em grande parte por farinha de trigo para o preparo de pães, são enviados ao Afeganistão através do Programa Mundial de Alimentos, um projeto que tem 80% das suas verbas financiadas pelos Estados Unidos. A maior parte desse dinheiro vem dos US$ 320 milhões que a administração Bush reservou em 4 de outubro para assistência humanitária no Afeganistão.

A ONU enviou uma quantidade recorde de 52 mil toneladas de alimentos para o país em novembro. Essa taxa caiu após o colapso do Taleban, mas está começando a retomar o seu ritmo anterior. Nas montanhas da área central do país, onde cerca de um milhão de afegãos ficarão isolados do mundo depois que a neve cobrir as passagens, o programa da ONU está armazenando alimentos e já conta com a metade das 30 mil toneladas estimadas como necessárias para o inverno. Os sacos de trigo são entregues para cerca de 60 organizações, tais como a Oxfam, a Mercy Corps e o International Rescue Committee para que façam a sua distribuição. Essas organizações frequentemente empregam grupos de ajuda humanitária afegãos para entregarem a comida aos necessitados.

Geralmente os alimentos são fornecidos às famílias que vivem em campos no interior do Afeganistão. Outros suprimentos de emergência para o inverno incluem barracas, isolantes térmicos para o solo, casacos e cobertores. Durante o inverno, nas terras altas no centro do Afeganistão, na região de Bamiyan e nas províncias vizinhas, a temperatura pode chegar a ­28 graus centígrados.

Segundo os funcionários da ONU, a maior crise imediata está nas províncias de Gadghis, Fariab, Ghowr e Saripul, a noroeste do Afeganistão, que consiste em uma região de planaltos que se estendem das cidades de Herat, no oeste, a Mazar-e-Sharif, no norte. Mike Sackett, que coordena o trabalho de auxílios humanitários da ONU no Afeganistão, estima que 900 mil afegãos nessas províncias podem enfrentar a fome generalizada nos próximos meses. Os alimentos são enviados a essas províncias basicamente a partir de Herat e Mazar-e-Sharif. Mas em Mazar-e-Sharif, a desintegração do Taleban fez com bandos de homens armados passassem a vagar pela cidade, o que põe em risco a vida dos funcionários das organizações humanitárias, afirma Sackett.

"Aquilo de que todo esse projeto de auxílio humanitário necessita é um esquema de segurança", afirma Sackett. "A questão principal não é apenas enviar comida ao país, mas fazer com que ela chegue às mãos daqueles mais necessitados".

Um fator extra que complica o sistema de distribuição é a recusa do Uzbequistão em permitir que os caminhões da ONU que rumam para Mazar-e-Sharif utilizem a ponte em Termiz, a cidade ribeirinha na fronteira com o Afeganistão. Isso obriga a ONU a fazer com que os alimentos cruzem o rio Amu Darya de barca, o que faz com que todo o processo se torne mais lento.

A recusa do Uzbequistão também está relacionada à falta de segurança no norte do Afeganistão, segundo Sackett. Em meio a essa complicada operação de ajuda humanitária, os recursos advindo das doações feitas pelo público podem consistir na mais preciosa fonte de auxílio financeiro, afirma Gerald Martone, diretor de respostas emergenciais do International Rescue Committee, que distribui os alimentos próximo a Mazar-e-Sharif.

Isso porque as doações de caridade, ao contrário dos fundos governamentais destinados a um tipo específico de auxílio, podem ser utilizadas para responder a emergências que ameacem a vida das populações carentes.

Um exemplo afegão é a necessidade de lenha e outros combustíveis, à medida que o inverno se aproxima. Cinco crianças afegãs morreram em novembro, vítimas de uma mina terrestre, quando procuravam arbustos para fazer uma fogueira. Com doações isentas de restrições, os funcionários do International Rescue Committee podem comprar carvão e lenha para as famílias necessitadas, de forma que as crianças não tenham que ficar procurando combustível em locais que possam estar minados, diz Martone.

Funcionários de auxílio humanitário que atuam no Afeganistão dizem que os esforços intensificados da comunidade internacional aumentaram as esperanças de um povo há muito tempo imerso na tragédia e na guerra. "Há uma grande dose de esperança", disse a diretora-executiva da Unicef, Carol Bellamy, em Cabul, quando visitava os locais onde a situação da população é mais crítica. "Há também uma percepção mais otimista, segundo a qual poderia haver um futuro melhor para as crianças afegãs".

Alguns não ajudam

Mas para ser mais exato, o programa de doações para o Afeganistão não tem sido um sucesso completo. Em alguns poucos casos, algumas pessoas rejeitaram qualquer idéia relativa a fornecer assistência para a região. "O povo do Afeganistão não tem importância. Os americanos é que são importantes", afirma Robb Svenson, empresário da área de Chicago e veterano do Vietnã, que serviu na Marinha. "Tenho todo um estilo de vida que está sendo atingido por esses terroristas, e não estou nem um pouco preocupado com o Afeganistão".

Segundo a vice-presidente da organização de auxílio humanitário, CARE, desde o dia 11 de setembro algumas pessoas pediram que os seus nomes fossem retirados da lista de doadores da instituição, já que a CARE estava levantando fundos de ajuda para o povo afegão.

Ela atribui a mudança de atitude ocorrida desde então à cobertura feita pela mídia sobre o sofrimento do Afeganistão e ao pedido feito por Bush, em 11 de outubro, para que as crianças norte-americanas auxiliassem as crianças afegãs.

"Nós podemos e temos que ajudá-las", afirmou Bush.

Stacy Palmer, editor do "Chronicle of Philantropy", uma publicação dos grupos de auxílio humanitário, diz que Bush merece crédito por ter motivado os norte-americanos a ajudar o Afeganistão. "Não é comum vermos um presidente dizendo, 'Façam mais doações', para algo de natureza tão específica", diz Palmer.

Em Contryside, Illinois, a professora de jardim de infância, Mary Pat Larocca, fez um acordo com os seus 26 alunos no dia seguinte ao apelo de Bush.

Os meninos e meninas de cinco e seis anos trabalharam na limpeza de sua sala de aula durante um dia, na escola pública Ideal, ganhando US$ 1 da professora pela tarefa. A seguir eles realizaram um projeto escolar, afixando cada uma das notas de um dólar dobrada em um grande pôster vermelho, branco e azul, decorados com as suas fotos, e enviados para Washington, D.C.

Eu disse à crianças: "Bem, devido à essa tragédia, há crianças em um país distante chamado Afeganistão que podem ficar sem comida neste inverno, e eles precisam de ajuda. E o presidente Bush pediu que cada um de nós mandasse um dólar para elas", conta Larocca. "Todos os alunos concordaram com a idéia".

Tradução: Danilo Fonseca

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