Tom Cruise fala de separação, carreira, terrorismo e cinema em entrevista exclusiva

Ann Oldenburg

Nova York, EUA --­ Tom Cruise diz que está relaxado. "Muito relaxado", ele garante.

E para comprovar o que diz, ele dá um sorriso no melhor estilo "Top Gun".

Em um quarto de hotel silencioso e suavemente iluminado, o astro de 39 anos faz uma reflexão sobre os últimos episódios da sua vida.

O ano que passou foi cheio de emoções para ele, especialmente devido à sua dolorosa e muito comentada separação de Nicole Kidman, sua glamourosa companheira durante dez anos. Os dois, que sempre eram vistos juntos nas estréias de filmes e entregas de prêmios, chocaram Hollywood ao anunciar o divórcio, e a mídia repercutiu o caso por meses.

Cruise alega que Kidman sabe "exatamente" porque eles se separaram. Kidman, 34, teve um aborto natural na época do divórcio. Houve boatos segundo os quais ela estaria tendo um relacionamento com Ewan McGregor, que atuou com a atriz no filme "Moulin Rouge". Ela nega. Já Cruise confirmou estar namorando a atriz Penelope Cruz.

Tom Cruise afirma que ele e a família ficaram abalados com os ataques terroristas de 11 de setembro. Ele estava terminando o trabalho como produtor de "Os Outros", ao mesmo tempo que dava início à sua atuação em "Vanilla Sky", um romance de suspense que estréia em 14 de dezembro nos EUA. Ele diz que o seu papel no filme foi um dos mais difíceis da sua carreira.

"Foi um período muito difícil", diz ele.

Mas ele não costuma reclamar. "Não reclamo de nada. Não gosto de fazer com que os meus problemas se tornem problemas para outros".

Quando a notícia do seu divórcio estava para ser divulgada pela imprensa, ele reuniu o elenco e a equipe de produção de "Vanilla Sky" e os avisou que o seu nome estaria nos noticiários do dia seguinte.

E isso foi tudo?

"Isso foi tudo", disse ele. "Ninguém perguntou nada. Ninguém disse nada. Todos foram muito legais".

O fato de ter trabalhado anteriormente com o diretor Cameron Crowe - no sucesso "Jerry Maguire" - ajudou bastante. "Eu já havia trabalhado com aquela equipe. Eram os mesmos colegas. O que fizemos foi tocar o barco e continuar fazendo o filme".

Ele também é a favor de conversar. Mas não com a imprensa ou com outras partes que não estejam envolvidas com o problema em questão.

Eu e Nicole conversamos. Eu gosto de falar diretamente com a pessoa sobre a questão que nos diz respeito, ao invés de sair falando com os outros sobre o assunto".

Segundo Cruise, aquilo que pareceu ser animosidade entre ele e Kidman não foi a batalha amarga que pintada pela imprensa. De acordo com as histórias que teriam sido contadas por "amigos", Cruise teria ficado arrasado, enquanto que Nicole teria se saído bem da separação. Essas pessoas também teriam dito que eles estariam utilizando intermediários para pegar os dois filhos, Isabella, de oito anos, e Connor, de seis.

"Acho que grande parte desses boatos foram plantados na imprensa. Mas é assim que as coisas funcionam. O que fazer? Amigos? Eu nunca tive tantos amigos assim". A seguir ele ri e diz: "Os amigos delas? Bem, não são seus amigos".

Atualmente ele só tece elogios à ex-mulher.

"Ela tem um talento enorme e é muito agradável. Espero que Nicole seja reconhecida este ano pelo seu trabalho. Ela merece".

Um Oscar para "Os Outros"?

"Sei que estão fazendo um lobby para 'Moulin Rouge', mas eu fui o produtor de 'Os Outros' e estou torcendo por meu filme". Ele se inclina para trás e dá uma risada, acrescentando, "Adoro 'Moulin Rouge'".

Kidman poderia ganhar um Oscar, mas Cruise também, certo? "Eu adoraria ganhar o prêmio", diz ele. "Mas não se trata de uma questão de vida ou morte. Ou um motivo para se fazer um filme. Os Oscars são ótimos; mas são apenas comemorações de filmes".

Ele está fazendo a sua primeira visita a Nova York desde os ataques terroristas para comemorar o seu novo filme. Cruise diz que foi estranho não ver mais o World Trade Center na paisagem nova-iorquina. "Mas depois fiquei feliz em ver como a cidade está vibrante e viva, e como o espírito de Natal está presente nas ruas. Creio que as pessoas estão mais amigáveis. Você percebeu isso?".

Cruise tem esse hábito cortês. Ele faz perguntas ao entrevistador, estabelecendo um diálogo. Ele gosta de falar com as pessoas. Na caminhada do saguão do hotel até o elevador Tom agradeceu a todos. O ascensorista, o atendente responsável pelas chaves. E não se trata de apenas agradecer rapidamente, sem interromper seus passos. Ele para, olha nos olhos da pessoa e diz um "obrigado" individualizado. Do lado de fora, após a entrevista, ele demonstrou satisfação em dar autógrafos. Além disso, desejou a todos um feliz Natal e um próspero ano novo.

Parte dessa atitude se deve aos fatos ocorridos em 11 de setembro. Segundo Cruise, os eventos fizeram com que ele quisesse ajudar mais os outros. "Passei a me deter mais para pensar sobre Nic e eu, sobre as crianças, as nossas famílias, a sociedade, e o mundo em geral, avaliando o que poderia fazer para ajudar". E parte desse modo de agir se deve também àquele Tom Cruise que um dia foi estudante em um seminário franciscano. Ele diz que isso não tem nada a ver com a cientologia (seita religiosa fundada nos EUA na década de 50). Ele já exercia o pensamento positivo "antes da cientologia", à qual aderiu quando tinha cerca de 20 anos de idade. Mas ele logo acrescenta: "A cientologia é ótima, porque ela te fornece muitos instrumentos que te capacitam a ajudar os outros".

Seja a sua personalidade ou a sua religião o fator que faz com que ele tenha essa atitude em relação a tudo, Cruise e Kidman parecem ter se adaptado bem à vida de solteiros. "Estamos atualmente em um lugar muito bonito". Mas, ele se recusa a dizer qual será o seu "local bonito" para o final do ano. "Eu e Nic concordamos em não falar sobre isso, porque todos começarão a especular".

Ele tampouco gosta de especulações sobre a nova namorada, Penelope Cruz.

Estaria ele perdidamente apaixonado por Cruz? O que devemos falar?

"Vocês devem falar que isso é algo que diz respeito à minha vida pessoal, e não vou discutir tal coisa", diz ele, rindo novamente.

Muito engraçado. Mas agora responda a pergunta.

"Estou muito feliz".

Ele prefere falar sobre o seu filme do que sobre o seu relacionamento. "Vanilla Sky" é uma história de cultura-pop futurista que exigiu que o ganhador do título de "homem mais sexy do mundo", concedido pela revista "People" em 1990, passasse a metade do filme mancando e maquiado de forma a apresentar uma face feia e desfigurada. Cruz é a mulher pela qual ele se apaixona e que tem que aturar a mudança no visual do namorado.

Cruise diz que foi um desafio. "Me acostumar com a maquiagem e assimilar os gestos do personagem foi algo de muito difícil".

Mas o ator explica que as deformidades faciais se constituem em apenas um dos elementos de um enredo complexo. "A história diz também respeito a um cara que está em busca da verdade".

Crowe, que entrou na sala do hotel para participar com Cruise de uma outra entrevista, diz que embora o ator goste de analisar o significado mais profundo dos seus filmes, é a atenção do astro para com os detalhes da interpretação o que mais o impressiona.

"Algo de notável é que ele percebe os mínimos detalhes do papel", diz Crowe, mencionando um pequeno trecho em particular, que Cruise sublinhou enquanto lia o script.

Um outro detalha que o público pode notar: Steven Spielberg aparece brevemente em uma cena de festa. "Ele estava batendo papo conosco e, de repente, resolveu ir até o estúdio e fazer uma ponta de improviso na gravação", conta Cruise.

Depois de "Vanilla Sky", Cruise trabalhou em "Minority Report", de Spielberg, onde o ator faz o papel de um policial do futuro. O filme deve ser lançado no próximo verão americano. "Em cada filme de Tom podemos ver uma nova faceta do ator", diz Spielberg. "É nisso que ele é bom. De forma sutil, Cruise se transforma e se ajusta a cada filme em que trabalha".

Após essa tarefa, há rumores de que ele estrelaria em "Cold Mountain", a filmagem do best-seller sobre um soldado ferido na Guerra Civil dos Estados Unidos. "Não. Ainda não decidi o que vou fazer depois", nega o ator, que diz que isso não passa de um boato.

Ele continua fazendo aparições intermitentes, participando de programas de televisão, onde fala sobre "Vanilla Sky", e aparecendo sem camisa na capa da revista "Vanity Fair".

Trata-se de uma capa que provavelmente vai atrair a atenção de homens e mulheres. Há muito tempo circulam boatos segundo os quais Cruise seria gay. Na semana passada o ator desistiu de um processo judicial de US$ 100 milhões (R$ 240 milhões) contra um editor e um ator de filmes pornográficos gays que alegavam estar de posse de um filme onde Tom Cruise praticaria relações homossexuais. Eles agora admitem que tal fita não existe.

"Esses indivíduos são pessoas que estão tentando fazer fama com um ato repugnante", diz Cruise. "É ridículo. Não tenho nada contra o homossexualismo. Nada mesmo. Mas não venham tentar me jogar na lama através de um videoteipe. Por favor! Isso é ridículo!. Se fosse verdade, eu estaria me lixando. Mas não é, e não é correto tentar vender esse tipo de coisa para ganhar fama". Ele acrescenta, "Não creio que essa atitude represente muito bem a comunidade gay".

Em uma hora de entrevista, esse foi o único momento em que Tom Cruise ficou levemente exaltado com uma pergunta. Ele prefere abordar a vida como se ela fosse um filme. Quem sabe um filme de Cameron Crowe.

"Cameron Crowe é um romântico que gosta dos temas de amor e de relacionamentos. A idéia é que não se pode contar com nada na vida como certo. Como seres humanos, tudo o que cada um de nós faz tem um efeito sobre a vida dos outros, como se fosse uma onda se propagando".

Tradução: Danilo Fonseca

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