Religiosos e famílias das vítimas discutem o perdão aos terroristas

Karen S. Peterson

Nesta era de terrorismo, talvez não haja nenhum conceito mais difícil de ser exercido do que o de perdão. Seria possível perdoar os terroristas que se apropriaram de vidas, da inocência, da prosperidade e da paz de espírito norte-americana?

"Todos nós estamos enfrentando questões referentes ao perdão nas nossas mentes e nos nossos corações", diz o reverendo Paul Keenan, da Arquidiocese de Nova York. Ele perdeu um grande amigo no desastre do World Trade Center. "Em determinados dias temos mais facilidade de encarar essas questões do que em outros".

Teólogos, especialistas em ética, analistas da mídia, profissionais de saúde mental, políticos, famílias das vítimas e o restante de nós, todos abordam esse assunto a partir de vários pontos de vista e ângulos éticos. Na trilha dos debates, existem verdadeiras bombas emocionais prontas a explodir.

Muita gente procura naturalmente orientação na teologia, apenas para perceber que as águas ficam rapidamente turvas. A unanimidade não é a palavra do dia mas, novamente, o perdão é um conceito nebuloso.

Para serem perdoados, os católicos têm de perdoar. É uma "doutrina dura", afirma o cardeal Theodore McCarrick, arcebispo de Washington. "Não há limites para o perdão que Deus solicita de nós. E também não há limite para o perdão que Ele está disposto a nos conceder".

Temos que perdoar o nosso vizinho, ainda que o nosso vizinho seja Osama bin Laden, afirma McCarrick. "Deus vai retribuir. Ele vai equilibrar todo o bem e o mal que existem no mundo e fazer com que tudo fique em harmonia".

O papa João Paulo 2º passou por esse desafio. Ele perdoou publicamente o homem que quase o matou em 1981, três dias após a tentativa de assassinato.

Mas os católicos não pensam de forma monolítica. "Temos que perdoar os nossos inimigos a partir de uma perspectiva cristã", afirma o reverendo Richard Neuhaus, da Igreja da Imaculada Conceição, em Manhattan, e presidente do Instituto de Religião e Vida Pública. "Mas não há nada de contraditório em rezar por um inimigo que vai se arrepender e ser perdoado por Deus e, ao mesmo tempo, tentar impedir que ele cause mais estrago - e, se necessário, matá-lo".

Como é que alguém pode orar por um inimigo e, ao mesmo tempo, matá-lo? "Vivemos em um mundo confuso", diz Neuhaus. "Isso não é vingança, e sim justiça, e existe uma grande diferença entre os dois conceitos".

Muitos teólogos de várias correntes religiosas afirmam que não há perdão sem arrependimento. "Esse é basicamente o ponto de vista judeu", diz David Ariel, presidente do Colégio de Estudos Judaicos de Cleveland. "Este não é o momento para se falar sobre perdão. O perdão só é possível após alguém ter renunciado aquilo que fez de errado, corrigido esse erro e feito uma compensação por ele. Não há possibilidade de perdão quando alguém persiste em cometer atrocidades e em defender essas atrocidades".

"Se uma pessoa está fazendo o mal ou causando danos a outros, temos a obrigação de impedir que ele proceda dessa forma", diz Ariel. E ele adverte: "O judaísmo ensina que, embora nós perdoemos, nunca esquecemos".

"Na ausência de arrependimento, seria uma tolice falar sobre perdão no sentido mais amplo da palavra", diz L. Gregory Jones, reitor da Duke University Divinity School. A sua pesquisa se concentra no estudo do perdão.

O remorso também faz parte da visão muçulmana de perdão. "O arrependimento é um elemento bastante claro", afirma Alan Godlas, especialista em estudos islâmicos do departamento de religião da Universidade de Geórgia. "Deus está sempre perdoando mas, para que os seres humanos participem desse sistema, eles precisam se arrepender", afirma.

No entanto, em determinadas circunstâncias, um agressor que viola os "direitos da humanidade" não será perdoado, a menos que ele peça perdão às suas vítimas e elas o perdoem, afirma Hafiz Siddiqi, do Centro de Educação e Informação Islâmica, na Califórnia. "Caso se recuse a pedir perdão, o agressor será punido com o fogo do inferno".

"Ao invés de pensar em perdão, concentre-se em amar o seu inimigo", aconselha Jones, da Duke University. "Embora tenhamos que manter o futuro processo de perdão sobre a mesa, não é muito cedo para se falar sobre amar o inimigo. Esse é um aspecto crítico na trilha da reconciliação e do perdão. Temos que reconhecer que eles são nossos inimigos e que estão dispostos a nos fazer mal. Mas isso não significa que devemos demonizá-los ou odiá-los".

"Concentre-se na frase 'ame os seus inimigos' antes de perdoá-los", diz David Heim, editor-executivo do Christian Century, um jornal teológico ecumênico. "Em determinado momento haverá perdão, mas isso vai ocorrer quando tivermos um relacionamento com os nossos inimigos, quando estivermos trabalhando juntos para construir um futuro. E provavelmente ainda não chegamos a esse ponto".

Trabalhar em conjunto com um inimigo caído é o que Joseph Hough Jr., presidente do Union Theological Seminary, de Nova York, chama de "perdão político". "O Plano Marshall, concebido pelos Estados Unidos para reconstruir a Europa após a Segunda Guerra Mundial, e as alianças norte-americanas com a Alemanha e com o Japão são exemplos de como este país pode ascender a uma profunda manifestação da versão política do perdão".

As famílias de vítimas de terrorismo falam de forma eloqüente, com vozes diferentes, sobre o perdão. Beth Capasso perdeu o seu filho quando terroristas explodiram o Vôo 103 da Pan Am, sobre Lockerbie, na Escócia, em 1988. "O perdão é uma palavra tão estranha", afirma Capasso, de 59 anos, moradora do Brooklin. "Não penso nisso dessa forma. Sou capaz de perdoar uma porção de gente por um monte de coisas, mas uma parte de mim ainda está furiosa com aqueles que realizaram o atentado. Isso foi algo que marcou a minha vida".

"Embora algumas famílias possam ter perdoado aqueles que tiraram a vida dos seus parentes, eu, pessoalmente, não conheço ninguém que tenha perdoado os terroristas que derrubaram o avião da Pan Am", afirma Capasso. "Talvez isso seja possível para alguém que tenha uma vida profundamente religiosa". Ela se tornou assistente social a fim de ajudar os outros a lidar com a tristeza e se tornou membro da organização AirCraft Casualty Emotional Support Services, que auxilia vítimas de desastres aéreos.

Algumas familiares daqueles que morreram em 11 de setembro têm uma visão muito diferente.

O marido de Amber Amundson, Craig, de 28 anos, morreu enquanto trabalhava no Pentágono. Ela ficou com dois filhos para criar.

Uma carta aberta de Amber na Internet pede aos líderes nacionais que não usem a morte do seu marido como uma justificativa para "mais uma espiral sem fim de assassinatos. Peço a eles que concentrem o nosso poderio no trabalho pela justiça e pela paz em todo o mundo", diz a carta. "Solicito aos nossos líderes que utilizem a imensa energia do nosso país para criar um mundo no qual a compaixão e o perdão sejam possíveis".

Nem mesmo os profissionais da área de saúde mental, que tendem a dizer que o perdão ajuda a superar a raiva auto-destrutiva, concordam quanto à necessidade de perdão. "Eu pretendo nunca perdoar Osama bin Laden, e tenho orgulho disto", diz Jeanne Safer, que trabalha há 25 anos como psicoterapeuta em Nova York e é autora do livro "Perdoar ou não perdoar: Porque às vezes é melhor não perdoar". "Não acho que isso me prejudique como pessoa moral e ética. Pelo contrário, creio que tal posição me consolida como tal".

"Bin Laden clamou a Alá que destruísse os Estados Unidos", diz ela. "Perdoar os que não se arrependem é possível para certas pessoas. Mas não é algo de possível ou necessário para todos". Ela critica o "lobby do perdão" e defende um "perdão saudável" que evite "um padrão moral único e absoluto".

Robert Enright é professor de psicologia da Universidade de Wisconsin-Madison. Ele acredita que os indivíduos em geral não têm obrigação moral de perdoar. "As pessoas são moralmente obrigadas a ser justas e a evitar causar danos aos outros", escreve Enright no seu livro, "O Perdão é uma escolha: Um processo passo a passo para solucionar a raiva e restaurar o perdão". "Não somos obrigados a conceder perdão. O perdão é uma escolha. É um presente concedido a alguém que não o merece".

Mas ele acredita bastante na escolha pelo perdão. "Sem isso, seríamos destruídos pelo ódio crescente", diz ele. "Multiplicar o ódio é algo de muito fácil. Difícil é multiplicar o perdão".

Fica a cargo do público a tarefa de decidir entre opiniões cada vez mais diversas. O presidente Bush quer Bin Laden vivo ou morto, e o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, praticamente disse que prefere ver o saudita morto.

A colunista Courland Milloy defende o perdão, citando o programa sul-africano de reconciliação que se seguiu à dissolução do apartheid. Milloy observou em uma coluna escrita no mês passado que "pouca gente parece estar com um estado de espírito para perdoar".

Nick Joannidis, de 32 anos, diz que é incapaz de perdoar os terroristas. Mas ele adverte para que não se ponha a culpa em toda a comunidade muçulmana pelo que a Al Qaeda fez. "Isso seria totalmente errado. Não se pode culpar uma religião inteira pelo que os extremistas fizeram".

Tradução: Danilo Fonseca

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