Comércio próximo ao World Trade Center amarga prejuízos com a tragédia

Martha T. Moore

Nova York, EUA -­ Rachid Ayari se pergunta onde estão os fregueses. Antes do colapso do World Trade Center, que ficava dois quarteirões ao sul da lanchonete Subway da qual ele é gerente, Ayari costumava atender 400 pesoas por dia. Agora, em um dia considerado "bom", são apenas 100.

"Eu costumava ver rostos conhecidos todos os dias, sabendo de antemão o que eles desejavam comer", diz ele.

Os fatos falam por si só: os negócios despencaram 75%; ele perdeu cinco semanas de salário pelo fechamento da lanchonete, logo após os ataques; o tempo que leva para se deslocar de sua casa até o trabalho, que antes era de sete minutos, agora é de uma hora; e a sua equipe anterior, que era de seis funcionários, foi reduzida para apenas um.

Três meses após os ataques, muitos nova-iorquinos voltaram a morar e a trabalhar nas vizinhanças do "ponto zero". Ou pelo menos estão tentando. Os empresários que conseguiram reabrir suas portas descobriram que os clientes desapareceram. Os moradores tiveram a sua rotina diária atrapalhada pelo serviço de retirada dos destroços e de reparos dos estragos causados pelo ataque, que ocorrem 24 horas por dia. O deslocamento de casa para o trabalho, as compras, a atividade no emprego ­ praticamente todos os aspectos das vidas dessas pessoas foram alterados.

Isso é um presságio de um Natal ruim para o comércio. No Moran's, um restaurante irlandês localizado um pouco ao sul do ponto zero, a proprietária, Abby Lydon, teve de amargar o cancelamento de 10 festas de natal no estabelecimento ­ o que corresponde à metade do que já estava agendado. As festas restantes vão ser consideravelmente menores: segundo Lydon, a média de participantes em cada uma delas será de 40 pessoas, ao invés das 150 costumeiras.

No ano passado, as crianças se sentavam no colo de Papai Noel no shopping center do World Financial Center. Este ano o shopping está em obras, as lojas estão fechadas e os fregueses sumiram: cem mil trabalhadores foram transferidos da área de lower Manhattan.

Esses funcionários se constituíam na essência da vida comercial da área. Havia os cafés que serviam almoços para as empresas, firmas que prestavam serviços à indústria financeira, restaurantes chineses que atendiam à clientela diversificada que frequentava os tribunais e vários outros negócios. Tendo sido forçadas a fechar as suas portas durante semanas, essas firmas lutam agora para sobreviver.

"São milhares de negócios que estão correndo um grave risco", diz Julie Menin, fundadora da Wall Street Rising, uma associação criada há dois meses para tentar ajudar os pequenos empresários da vizinhança.

Menin é dona do Vine, um restaurante que fica defronte à Bolsa de Valores de Nova York. Ela viu o volume dos seus negócios despencar em 30% desde 11 de setembro, e teve que despedir 32 pessoas da sua equipe de 72 funcionários. "A cada mês a situação melhora um pouquinho, mas o processo tem sido muito difícil", diz ela.

Embora a maioria das pessoas que moram e trabalham em Lower Manhattan tenha retornado à área, a vizinhança de quatro quarteirões de comprimento e três de largura, espremida entre a Broadway e Battery Park City, um pouco ao sul do local onde ficava o World Trade Center, ainda está enfrentando uma situação caótica, até mesmo para os padrões nova-iorquinos.

A alguns metros da entrada da Subway de Ayari, um grupo de caminhões está saindo do ponto zero. As ruas se tornaram uma área de construção, já que existem muita coisa a ser reparada. Fios elétricos temporários estão estendidos pela pequena Exchange Alley.

Os serviços telefônicos estão problemáticos. "Em determinado dia você consegue linha, mas no outro dia os telefones ficam mudos", diz Lydon. Para poder se comunicar com os seus clientes via e-mail, Lydon tem frequentado um cibercafé, próximo à escola da sua filha.

O odor acre de fumaça proveniente das ruínas do World Trade Center persiste. Isso faz com que muita gente se preocupe com a possibilidade de ter problemas de saúde devido à exposição diária a esses gases. Mesmo nos dias em que o odor não está presente, o ar da região ainda causa queimação na garganta.

Ruben Napoleoni está acostumado a transitar velozmente entre as vizinhanças e os prédios na sua bicicleta, pois trabalha como mensageiro e entregador de pequenos pacotes. Mas o ataque fez com que tivesse que apertar os freios. O aumento das medidas de segurança nos prédios empresariais o impossibilitou de ir além do saguão dos edifícios, onde tem de esperar para pegar e entregar os pacotes. "A situação se tornou desastrosa", diz ele, dando uma pausa nas pedaladas próximo a Trinity Church. "Atualmente, a operação de pegar um pacote e entregar outro leva cerca de uma hora. Estou em um ritmo de tartaruga".

Prejuízo à rotina diária

Para todos na vizinhança ­ cerca de 270 mil pessoas ainda trabalham em Lower Manhattan, e dezenas de milhares moram na região ­ quase todas as rotinas foram prejudicadas.

Ir ao trabalho ficou mais difícil. Os carros de passeio, com exceção daqueles guiados pelos moradores locais, tiveram o seu tráfego proibido durante seis semanas, e ainda não podem transitar durante a hora do rush matinal. E, o mais crítico, cinco estações de metrô estão fechadas ­ três sob o World Trade Center e duas ao sul de onde ficava o arranha-céus. Também fechada está a estação da Path, a linha de trem que passa sob o Rio Hudson, ligando o World Trade Center a Nova Jersey.

Almoçar se tornou mais complicado. Andar pelas calçadas é penoso. Os pedestres têm que ziguezaguear através de barricadas e passar por pontes improvisadas de madeira. Além disso têm de se desviar de caminhões carregados de destroços que vão do ponto zero até o depósito de entulhos em Staten Island.

A segurança reforçada nos prédios de escritórios prejudicou um ritual diário dos funcionários: receber o almoço encomendado por telefone. Isso representou um forte impacto para os restaurantes que dependems desse tipo de negócio. O Moran's perdeu um rendimento diário de US$ 350 (R$ 840), segundo Brian Lydon, marido de Abby.

O local preferido de Randy Will para o almoço, o Sophie's, está fechado. Agora, para almoçar, Wills, que é advogado, caminha até à Rector Street onde está frequentando um outro restaurante. "Tenho que enfrentar um verdadeiro percurso minado com obstáculos, o que é bastante desagradável", afirma Wills. "Estou satisfeito por ter retornado ao trabalho, mas as coisas não têm sido fáceis".

"As pessoas estão um pouco mais sérias e ansiosas", diz Wills. "O fato de estarmos tão próximos ao ponto zero tem um efeito bastante negativo sobre as nossas cabeças".

Da mesma forma que proprietários de casas destruídas por furacões pintam nas fachadas do que restou de suas residências o nome das suas companhias de seguro, as firmas próximas ao World Trade Center adotaram os cartazes temporários, alertando os clientes em potencial que as portas dos estabelecimentos estão abertas.

Um pequeno cartaz em uma barreira de compensado chama a atenção dos clientes de Pete e Vito, dois cabelereiros do salão Plaza Chateau, destruído no desastre, afirmando que eles estão prestando os seus serviços no Executive Hair, na 26 Broadway.

Brian Lydon fez dezenas de cartazes com tinta spray e cartolina e os pendurou nas cercas dos canteiros de construção. Ele pintou algumas setas nas calçadas para indicar o caminho aos fregueseses. Mas ele está tendo que fazer novos cartazes, já que os turistas os estão levando como lembrança.

Enquanto funcionário e moradores tentam retornar à rotina diária, há um grande fluxo de turistas que querem dar uma espiada no local onde ficava o World Trade Center. A partir da Rector Street, a visão para o norte é de destroços, incluindo um pedaço da fachada da Torre Sul, que ainda está de pé.

Os curiosos se aproximam em pequenos grupos das serras circulares azuis utilizadas pelos policiais, para tirar fotos. Alguns deixam flores nas proximidades dos destroços. Outros param no Subway de Ayari para comer um sanduíche. Mas o volume maciço de negócios originado dos grandes prédios de escritórios que ficam na rua ­ sejam as entregas diárias de almoço ou as festas de escritórios que encomendavam grandes sanduíches "de metro" ­ praticamente acabou. "Desde o desastre, nunca mais fiz entregas de sanduíches para festas", queixa-se Ayari.

Os turistas têm sido a salvação dos empresários que lutam para sobreviver. Quando havia centenas deles reunidos nas barreiras em frente ao Moran's, Brian Lydon costumava ir lá fora e chamá-los para entrar e comer.

Eles estão comprando filme fotográfico na banca de revistas de Manoj Rajan, na esquina das ruas Rector e Greewich. Ao reabrir a sua banca, três semanas após os ataques, Rajan descobriu que as vendas do New York Post, que eram de 200 exemplares diários, caíram para apenas 40. Quando uma estação de metrô foi reaberta na sua esquina, em outubro, as vendas aumentaram para 150 exemplares. Mas ele não consegue mais que os jornais sejam entregues na sua banca. Rajan agora tem que ir ele mesmo até a Broadway, a um quarteirão de distância, para pegar o material.

"Houve uma invasão de curiosos. Eles ajudam e devemos ser gratos ao movimento que geram para o comércio arruinado", afirma Kathy Wylde, do New York City Partnership, uma câmara de comércio da cidade. "Mas eles também congestionam um espaço que não conta mais com calçadas e dificultam o trabalho daqueles que trabalham nos destroços", acrescenta. "Mas cedo ou tarde eles vão perder o interesse e partir".

Apesar do pessimismo já reinante com relação às festas de final de ano, aqueles que trabalham ou moram nas vizinhanças do ponto zero temem que a situação possa ficar ainda pior após o ano novo. "Janeiro promete ser um mês assassino para os negócios", diz Menin, da Wall Street Rising. "Atualmente, estamos contando com a atenção da mídia, e as pessoas ainda vêm eventualmente almoçar ou comprar em downtown. Mas, depois da temporada de fim de ano, esse fluxo restante pode cessar. E precisamos dele todos os dias.

Da aeróbica à busca e resgate

As organizações locais estão lutando para manter os negócios funcionando, especialmente durante a estação de Natal. Há ônibus especiais para transportar os moradores de Battery Park City para fazer compras em South Street Seaport, do outro lado de Lower Manhattan. E, a fim de atrair outros nova-iorquinos para downtown, a Alliance for Downtown New York, um grupo empresarial, está apelando para comerciais de televisão.

Um desses comerciais mostra um homem careca no barbeiro, esperando a vez de cortar o cabelo que não possui. "Você pode não precisar, mas downtown precisa", diz a propaganda.

A Wall Street Rising tem planos para distribuir cartões de descontos para as lojas e restaurantes de downtown. O impacto econômico resultante da perda de lucros durante semanas a fio está sendo tão severo, no entanto, que há grupos fazendo lobby junto ao governo federal para a concessão de financiamentos com condições mais brandas do que as atuais. Isso porque, segundo os empresários, os atuais contratos provavelmente não poderão ser pagos.

"Da última vez que estive em Nova York, você esbarrava nas pessoas, elas te davam uma olhada fria e soltavam um palavrão", diz Harry Bosworth. "Agora, no caso de um encontrão, ambos pedem desculpas a todo o momento".

Bosworth está há um mês na região. A sua firma, a American Restoration, está limpando um edifício de 60 apartamentos na 110 Greenwich Street, além da academia de ginástica ao lado, a Dolphin Fitness, que foi usada como centro de comando pelas equipes de busca e resgate.

Os apartamentos da 110 Greenwich possuem varandas que, antes do 11 de setembro, tinham vistas para o World Trade Center. Agora o edifício está cheio das cicatrizes causadas pelos destroços que despencaram do arranha-céus, e os apartamentos estão cobertos de poeira.

Dale Martin, o gerente do prédio, voltou ao seu apartamento no Dia de Ação de Graças. Até o momento, só 17 moradores, além dele, retornaram. A sua alegria ao voltar para casa se transformou em surpresa e incredulidade ao descobrir que o filho, Rocklind, não pode mais pegar o ônibus escolar em frente ao edifício. A polícia bloqueou a rua para o tráfego de veículos. Agora, a mulher de Martin tem de levar o filho ­ que está na primeira série do ensino básico ­ a pé, em um percurso de dois quarteirões, para pegar o ônibus até a escola para a qual o garoto foi transferido. "Os fatos ocorridos aqui realmente viraram as nossas vidas de pernas para o ar", diz ele.

Revivendo os eventos todos os dias

Antes de 11 de setembro, a vizinhança possuía tudo o que Martin poderia desejar. A sua mulher fazia compras no shopping center do World Trade Center três vezes por dia. Havia um cinema em Battery Park City. "Aqui, nós estávamos felizes no nosso pequeno mundo", diz Martin. "Agora, tudo se foi. Tudo".

Muitas das pessoas que transitam pelas calçadas em frente ao cenário arruinado carregam dentro de si as memórias de 11 de setembro. Coisas como tentar respirar em meio a poeira asfixiante, se esconder nos porões e correr para resgatar os filhos em escolas e creches.

Doreen Tyrrell estava dentro do prédio da Bolsa de Valores, onde ela e o irmão trabalham. Quando as duas torres desabaram a dois quarteirões de distância, os funcionários caíram no chão. Tom cobriu o corpo da irmã com o seu, enquanto o prédio era tomado pela fumaça e pela poeira. "Nós revivemos aqueles eventos todos os dias que estamos aqui", diz Doreen. "Quando o metrô faz o seu barulho característico, estremecendo a rua, damos um pulo, assustados".

Os Lydon compraram a sua árvore de natal no principio do ano. Eles encontraram a árvore de pé em Battery Park City, da mesma forma que no ano passado. Mas, algumas vezes Abby Lydon se pergunta se algum dia todo esse estorvo vai terminar.

O colapso do World Trade Center danificou o seu prédio em Battery Park City, e, por isso, a família está morando sobre o restaurante que eles lutam para salvar da bancarrota. Depois houve um incêndio nos cabos elétricos temporários na Rector Street, a apenas alguns metros da porta de entrada do Moran's.

Quando o Vôo 587 da American Airlines se espatifou no Queens, no dia 12 de novembro, a região de Lower Manhattan foi imediatamente lacrada pela polícia, a título de precaução. Houve uma ameaça de bomba em uma delegacia de polícia em frente ao restaurante. E, na quinta-feira da semana passada, uma explosão de ar comprimido, ocorrida em uma tubulação próxima à Rector Street, destruiu janelas nos prédios próximos. Abby Lydon achou que se trata-se de uma bomba.

Ela começou a fazer certas perguntas a si mesma. "Eu dizia, 'Será que vai ser preciso que um tijolo caia na minha cabeça para eu me convencer que é hora de partir?'", conta Lydon.

Já Ophir Barone e Ryan Farrel tomaram a sua decisão. Após quase três meses mudando de um hotel para outro, os estudantes da Universidade de Nova York retornaram recentemente a 110 Greenwich para empacotar os seus pertences. "Não sei como é que tem gente que ainda consegue viver aqui", diz Farrel, enquanto empurra uma cadeira e caixas de som pelo corredor. "Eu prefiro cair fora".

"Não quero ficar ligado ao algo que daqui a 35 ou 40 anos ainda estará na minha memória como algo ruim", diz Barone. "E não serão as prestações restantes do aluguel que vão me manter aqui. O preço a ser pago não vale a pena".

Tradução: Danilo Fonseca

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