Psicólogos alertam para os riscos do sexo virtual

Marilyn Elias

O computador é um impressionante "brinquedo sexual" do século 21, aparentemente benigno, mas que pode explodir como uma bomba, destroçando a vida privada e profissional de um número surpreendentemente grande de norte-americanos, segundo a psicóloga Kimberly Young.

Ao contrário da crença popular, o vício em cibersexo não é um problema restrito àquelas pessoas fracassadas que ninguém gostaria de conhecer. Young prestou assistência a milhares de casais nos últimos sete anos no seu Centro de Combate ao Vício Online, na Pensilvânia. Entre a sua clientela estão advogados, médicos, grandes executivos e políticos. "São pessoas que vão à igreja todos os domingos", diz ela.

Pelo menos 200 mil norte-americanos são viciados em sexo virtual, segundo o psicólogo Al Cooper, do Centro de Problemas Conjugais e de Sexualidade de San Jose, Califórnia. Cooper, um especialista em comportamento sexual na Internet, faz tal estimativa com base em recentes trabalhos de pesquisa de âmbito nacional realizados por ele.

Mas como toda essa gente se mete em apuros com o sexo virtual? O novo livro de Young, "Entendendo o Cibersexo, da Fantasia ao Vício", é um relato de como isso acontece e de como os adultos podem retomar o controle de suas vidas.

Há vários anos, o cibersexo consistia basicamente na observação de páginas pornográficas na Internet. Atualmente, existem incontáveis salas de bate-papo erótico. Elas oferecem parceiros instantâneos para fantasias mútuas, que muitas vezes são reforçadas pelas webcams, que enviam imagens do corpo do amante virtual. Uma grande quantidade de vídeos com imagens sexuais está amplamente disponível. Há também os shows de sexo ao vivo transmitidos online.

"É fácil demais esbarrar com tal material na Internet", diz Young. "E uma vez que se adquire tal hábito, é muito difícil largá-lo. Em termos de vício em sexo, a Internet representaria a cocaína", diz ela.

Os psicoterapeutas norte-americanos são unânimes em afirmar que o número de viciados em sexo tem aumentado. Segundo Cooper, isso se deve a presença de três fatores: acessibilidade, disponibilidade e anonimato. Os viciados não precisam ficar se esgueirando por bares, arriscando-se a ser descobertos.

Cerca de 10% das pessoas engajadas em atividades sexuais online seriam viciados em sexo mesmo sem a presença da Internet, segundo sugere a pesquisa de Cooper. Esses indivíduos são pedófilos ou sofrem de uma compulsão que os impele a ter casos sexuais.

O psicólogo afirma que 20% dos pesquisados começaram fazendo explorações na Internet, tendo posteriormente mergulhado de cabeça na atividade de cibersexo. Para Cooper, essas pessoas não teriam desenvolvido o vício se não fosse pela Internet.

E 70% seriam apenas os "usuários recreativos". São os que usam a Internet como quem olha para uma revista com fotos de lingeries ou folheia as páginas da Playboy. Essas pessoas consideram a atividade agradável, mas não essencial.

Os terapeutas não definem o vício pelo número de horas passadas em frente ao computador. O que define o viciado é a incapacidade de controlar os seus hábitos, e isso interfere com as suas vidas pessoais ou profissionais.

O típico viciado em cibersexo tem necessidades sexuais não atendidas, embora as suas vidas possam parecer perfeitas para quem os conhece de forma superficial. Muitas vezes essas pessoas foram criadas por famílias rigorosas, que reprimiam a sexualidade, diz Young. Os adultos que têm um histórico de outros vícios parecem ser mais vulneráveis. E a meia-idade parece ser o período mais propício para essas aventuras cibersexuais.

Raymond, um cliente de Young de 58 anos de idade, é um executivo de sucesso de uma das empresas listadas na Fortune 500. Ele adotou uma personalidade fantasiosa no ciberespaço, de um estudante universitário de 20 anos, chegando mesmo a colocar na Internet uma foto falsa dessa pessoa. Com isso, ele atraiu um número incontável de mulheres. "Mas o personagem que adotei tem uma imaginação ousada demais para o meu estilo de vida", disse. Raymond conta que as experiências na Internet fazem com que ele se sinta jovem, embora as aventuras estejam começando a atrapalhar a sua vida familiar e profissional.

Craig, um executivo de 53 anos de idade, se sentiu eclipsado por rostos mais jovens no seu trabalho. Ele passou a se "auto-medicar" com a ciberpornografia, muitas vezes no trabalho, o que aliviava o seu estresse. Foi quando ele ficou tão viciado na coisa que não conseguia mais parar, o que prejudicou ainda mais o seu rendimento profissional.

Ele lutou contra o problema, mas passou por diversas recaídas. Seguindo a orientação de Young, Craig enxergou como havia assimilado a visão dos seus pais, segundo a qual o sexo seria um mero ato destinado a gerar filhos. A partir daí ele demonstrou ressentimento para com a sua mãe dominadora e para com o pai, que passou a ver como um fraco. Ele dava vazão a fantasias de dominação de mulheres quando estava online. "O cibersexo o ajudou a se rebelar contra as mensagens religiosas da sua juventude e a liberar um ódio residual contra as mulheres", diz Young.

Surpreendentemente, Craig manteve o seu casamento e o seu emprego. A razão disso é que ele informou a sua mulher sobre as suas necessidades e sentimentos, e ela se mostrou compreensiva. Ele também desempenhou papéis no teatro da comunidade: Craig sempre quis ser ator, mas os seus pais o impediram. Conforme os seus desejos passaram gradativamente a ser satisfeitos na vida real, ele passou a precisar cada vez menos do cibersexo.

Embora os casais que estejam cogitando um divórcio mencionem cada vez mais os casos no ciberespaço como sendo um problema, "esse fenômeno é mais um sintoma do que uma causa que precipita um distúrbio", diz Lindsey Short Jr, presidente da Academia Norte-Americana de Advogados Matrimoniais. "Aquelas pessoas que têm casamentos maravilhosos simplesmente não vão para casa e ficam vasculhando a Internet em busca de sexo", diz ele, admitindo que "caso exista um problema, ele pode ser exacerbado pela disponibilidade de parceiros fáceis online".

E ele diz que não se deve assumir que os homens sejam os únicos aventureiros no campo do cibersexo. Segundo os casos que Short tem presenciado na sua prática de advocacia, as mulheres se engajam ainda mais do que os maridos nas atividades sexuais online.

"Essas mulheres estão insatisfeitas e entediadas", diz Short. Young acredita que ambos os sexos têm igual predisposição para se tornar viciados em cibersexo. Os homens são mais fascinados pelo aspecto visual, buscando sites pornográficos, enquanto que as mulheres são mais verbais, preferindo as salas de bate-papo orientadas para o sexo.

O livro de Young traz um plano de sete etapas orientando o leitor a lutar contra o vício do cibersexo. O texto aconselha os leitores para que procurem as causas do seu vício, além de sugerir idéias práticas para conter o comportamento destrutivo.

Segundo ela, muitas vezes se faz necessário o acompanhamento profissional. E alguns relacionamentos não podem mais ser salvos. Esses casos são geralmente aqueles já atingidos por problemas terríveis, ocorridos antes mesmo que um dos parceiros resolvesse enveredar pelos caminhos do cibersexo.

"Os adultos que lutam contra vícios relativos à Internet precisam de ter pessoas que os apóiem à sua volta", diz Young. "Isso não significa pessoas que façam concessões ao viciado, mas cônjuges amorosos que desejem que o casamento sobreviva e melhore".

Tradução: Danilo Fonseca

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