Próxima edição do Oscar promete surpresas

Susan Wloszczyna

Em uma era de incertezas, quando hesitamos para abrir um envelope ou embarcar em um avião, por que o Oscar deste ano escaparia dessa tendência?

Como se fossem caçadores olhando para o céu em busca de uma presa, aqueles que têm como passatempo anual adivinhar quem levará os Oscars estão dando seus palpites, mas sem muita convicção. Não é que eles não estejam atingindo o alvo. Eles nem sequer conseguem identificá-lo.

"Vou fazer apenas uma previsão", diz Chris Gore, editora do filmthreat.com. "Este vai ser o ano mais imprevisível da década".

O que está tornando a situação obscura é a falta evidente de concorrentes óbvios e a escassez de filmes de qualidade feitos no primeiro semestre. A situação é completamente diferente da disputa pelo melhor filme de 2000, quando "O Gladiador", que acabou ganhando, e "Erin Brockovich" competiram emparelhados até o fim. E também diferente do outono do ano anterior, quando "Beleza Americana" venceu facilmente, já que os concorrentes simplesmente não estavam à sua altura.

"Vamos torcer para que para que o Oscar não nos reserve nenhuma estripulia este ano", diz Tom O'Neil, autor do livro "Movie Awards". "Esta pode ser a primeira vez desde 1988 em que todos os cinco indicados para o prêmio de melhor filme sejam lançamentos de dezembro. Se não houver bons lançamentos de Natal, pode ser que não haja prêmios da Academia".

Não haver Oscar? Isso seria algo como um Natal sem Papai Noel.

No entanto, está ficando claro que as apostas estão convergindo para os lançamentos de final de ano. Aqueles filmes que, dois meses atrás, à primeira vista pareciam estar destinados a ganhar, agora estão sendo examinados com mais atenção e não andam satisfazendo os especialistas.

Entre esses filmes estão "Vanilla Sky", o filme de suspense que estreou na sexta-feira com Tom Cruise, sendo dirigido por Cameron Crowe ("Almost Famous"). Embora a diretora da Paramount, Sherry Lansing, diga que "Vanilla Sky", a única esperança do estúdio para o Oscar, seja "um dos mais singulares e incomuns filmes já feitos", outros analistas menos parciais dizem que o filme é "terrível", "um tiro pela culatra" e outras coisas do gênero. Como disse um crítico da revista "The Hollywood Reporter", "tudo em 'Vanilla Sky' foi mal calculado... de forma que o resultado é pretensioso e absurdo".

"Ainda não se pode afirmar nada", diz o especialista do Oscar, Robert Osborne. "'Shrek' é encantador, mas não chega a atingir aquela categoria típica do Oscar".

O mal-estar para com a atual situação dos filmes, a despeito do recente sucesso de bilheteria que foi "Harry Potter e a Pedra Filosofal", pode ser atribuído em parte à ressaca de 11 de setembro.

Mas, o mais provável é que se trate apenas da continuação de uma das tendências que prevaleceram em 2001: as expectativas frustradas. Como se fossem balões de gás em uma fábrica de agulhas, os lançamentos mais esperados do ano, tais como "Inteligência Artificial", "Tomb Raider" e "Planeta dos Macacos", fizeram uma estréia alvoroçada, que logo se desfez em desencanto.

Agora, as expectativas estão dirigidas para os filmes de fim de ano. Sim, haverá competição, ainda que os concorrentes não estejam exatamente à altura do prêmio.

A cultura do "pós-ataque-terrorista" pode ajudar alguns candidatos que estão longe da perfeição. Segundo observou o crítico Peter Travers, da revista "Rolling Stone": "Desde o dia 11 de setembro, não se trata mais apenas de escolher o melhor filme. Esse filme tem também que representar os Estados Unidos de alguma maneira. É assim que Hollywood está pensando".

Vejamos por exemplo "The Majestic", uma ficção do pós-Segunda Guerra com Jim Carrey, que faz o papel de um roteirista de cinema, confundido com um herói de guerra desaparecido em combate. A receptividade ao filme foi controversa, mas o seu espírito patriótico é perfeito para os nossos tempos.

"'The Majestic' reforça valores tradicionais e saudáveis", afirma Juan Morales, da revista "Movieline". "Há alguns discursos bastante patrióticos, cuja mensagem é de que os Estados Unidos são um grande país".

"Mas a tragédia terrorista não terá um efeito retroativo", adverte Glenn Kenny, da revista "Premiere". "'Pearl Harbor' não vai se tornar repentinamente um grande filme".

Os quatro principais concorrentes

A princípio, existem quatro candidatos com chances. Todos têm pontos fortes e fracos. Mas a maioria dos analistas do Oscar, quando chamados a dar um palpite, acharam que esses são os que têm as melhores chances. E eles se encaixam no tradicional molde da academia, que combina o aspecto emocional e o dramático. Mas não se assustem se eles não forem sequer indicados na lista de 12 de fevereiro.

O drama de batalha: "Black Hawk Down". Tão logo a MGM adiou o seu épico de guerra, "Windtalkers", para o próximo verão, a Sony espertamente lançou o seu para este ano. O estúdio nega que tenha tentado tirar vantagem tanto do atual conflito no exterior quanto da súbita abertura na agenda. "Tudo tem a ver com a reação de quem viu o filme. As pessoas assistiram ao filme e acharam que ele é notável", diz Geoffrey Ammer, diretor de marketing.

Dirigido por Ridley Scott ("Gladiador"), o filme fala de uma tentativa de resgate na Somália, onde tudo saiu terrivelmente errado. "É realmente parecido com aquilo pelo qual estamos passando no Afeganistão", diz Travers. "A história fala sobre entrar em um país estrangeiro sem saber como lidar com o combate".

Embora alguns críticos tenham denunciado a caracterização fraca e os sermões óbvios, outros elogiaram os conflitos brutais e eletrizantes. "Há uma seqüência de batalha de uma hora e meia, e que é de tirar o fôlego", diz Morales.

Saga esportiva. "Ali". A ascensão e queda do rei do ringue, Muhammad Ali, não poderia correr muito risco nas telas com um perfeccionista como Michael Mann ("The Insider") por trás das câmeras e com o carismático Will Smith atuando. Mas, como Ali ainda está bem vivo, Smith tem a dura tarefa de fazer jus a essa lenda do boxe.

A fantasia de aventura. "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel". Durante meses, enquanto o diretor Peter Jackson lutava na Nova Zelândia com o seu elenco de milhares de personagens para recriar o grande clássico literário de J.R.R. Tolkien, os executivos dos estúdios se concentravam na enormidade do projeto de US$ 270 milhões (R$ 640 milhões). Nunca antes alguém, e muito menos um cineasta pouco conhecido, havia filmado uma série de três filmes de uma só vez. Agora, após Travers ter declarado que "O Anel" é o filme do ano, e a revista "Newsweek" ter feito uma grande propaganda da obra, eles estão deslumbrados com o seu brilho.

Mas o Oscar não é um grande admirador da fantasia. Os filmes da série "Guerra nas Estrelas" nunca tiveram muito sucesso na Academia. Mas "O Senhor dos Anéis" pode ter aquela classe suficiente para por fim a esse preconceito.

"Nós tivemos um pressentimento que foi confirmado por um grupo bem mais objetivo de expectadores - os jornalistas e donos de cinema", afirma o produtor executivo Mark Ordesky. "É impressionante a forma como Peter fez o filme fluir por duas horas e 58 minutos".

A vitória sobre a doença. "A Beautiful Mind". O filme desce até as profundezas da loucura do gênio matemático de Princeton, John Forbes Nash Jr., que sofreu um surto esquizofrênico antes de ganhar o Prêmio Nobel por suas teorias econômicas. A obra conta com um astro e um diretor de primeira linha (Ron Howard e Russel Crowel), rivalidades acadêmicas e pesadelos de ordem psiquiátricas, sendo, portanto, uma combinação com pouca probabilidade de ser apreciada.
Mas o que filme tem a seu favor são os fatos. O roteiro é apenas "inspirado" pela vida de Nash. Lembram-se do que ocorreu em 1999, quando a equipe de produção de "The Hurricane", a estória do boxeador encarcerado Rubin Carter, "temperou" os fatos reais? Muita gente acredita que a polêmica resultante foi o que custou o Oscar a Denzel Washington naquele ano.

Mas Nash se enquadra no perfil do herói popular que está em voga. O momento atual pode poupar "Mind" das críticas corrosivas.

E quanto ao quinto lugar? Aí tudo pode acontecer, e há uma multidão de concorrentes no páreo.

Um trio. Após conseguir a indicação para melhor filme, com "Chocolat", no ano passado, a Miramax está cheia de esperanças, incluindo a ótima produção francesa, "Amelie", o drama "In the Bedroom", e o ainda enigmático "The Shipping News", com Kevin Spacey e Julianne Moore.

A produtora executiva Janet Hill não acha que os três vão se anular, e observa que a Miramar tem o precedente de haver lançado "Shakespeare Apaixonado" e "A Vida é Bela" simultaneamente, em 1998. "Trata-se de uma abundância de talentos. As pessoas não vêem essas obras como sendo 'três filmes da Miramax'".

Um desenho animado. O maior sucesso financeiro do ano, "Shrek", pode ser o primeiro desenho animado desde "A Bela e a Fera", de 1991, a chegar entre os cinco mais cotados. "Para ser bem franco, se não fosse um desenho animado, não haveria a menor dúvida quanto a isso", afirma o chefe de marketing da DreamWorks, Terry Press, sobre a estória que rendeu mais de US$ 266 milhões (R$ 630,42 milhões).

Uma mente doente. Os cinéfilos que ficaram hipnotizados com "Memento" ainda estão pensando em como as investigações de Guy Pearce sobre o assassinato de sua mulher afetaram a sua memória de curto prazo. William Tyler, presedente da distribuidora Newmarket, está relançando "Memento" em Nova York e em Los Angeles este mês, para garantir que o filme, que custou US$ 4,5 milhões (R$ 10,66 milhões) e rendeu US$ 25 milhões (R$ 59,25 milhões), reative a memória da Academia.

Um musical. Aproveitando a oportunidade de uma estréia, a Fox trouxe "Moulin Rouge" de volta aos cinemas e conseguiu como recompensa o primeiro prêmio da crítica - da National Board of Review. "Por um lado o filme é ousado e pioneiro", diz o presidente da Fox, Tom Rothman. "Por outro, é uma verdadeira produção de estúdio que trás de volta a grandiosidade típica dos musicais". A última vez que um musical tradicional fez sucesso na Academia foi em 1972, com "Cabaret".

Uma estória pesada. Por último vem um filme feito com um orçamento barato, "Monster Ball", uma película ousada e amarga sobre um caso entre um policial racista (Billy Bob Thorton) e a mulher de um prisioneiro executado (Hale Berry), que não deve ser confundido com o lançamento da Disney, "Monstros S.A.".

Os críticos estão impressionados. O problema é que os indivíduos que vão escolher os ganhadores tem de ver o filme antes de também se impressionarem.

Enfim, a 74ª cerimônia de entrega do Oscar pode se tornar uma página cinzenta na história do prêmio, não apenas devido à falta de opções. Após uma escassez de indicados negros na categoria de atores (sendo que não houve nenhum em 2000), este ano há dois fortes concorrentes: Smith e Washington.

Tal disputa já estava demorando muito para ocorrer. Um grande ator negro ganhou somente uma vez - Sidney Poitier, com "Lilis of the Field", de 1963.

Berry também poderia amenizar o clima, caso fosse indicada para disputar o Oscar de melhor atriz. Além disso, Jamie Foxx ("Ali") está sendo elogiada por seu papel como coadjuvante. "Se elas não forem indicadas, creio que haverá motivos para protestos", diz Travers.

Tradução: Danilo Fonseca

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