Pesquisa aponta maior resistência do HIV a medicamentos

Steve Sternberg

As variedades do HIV resistentes aos medicamentos se disseminaram desde que as primeiras drogas eficazes começaram a ser usadas, há cinco anos, fazendo com que o tratamento da Aids se tornasse bem mais difícil, segundo relataram na terça-feira pesquisadores envolvidos no primeiro estudo em larga escala do nível de resistência do HIV.

O estudo, que se concentrou em pacientes tratados entre 1996 e 1999, revelou que 78% deles tinham uma variedade do vírus que era resistente a uma classe de drogas, 51% estavam contaminados por uma variedade resistente a duas classes de medicamentos e que 18% eram portadores de uma linhagem de HIV resistente a todas as três classes de drogas existentes para o controle da doença.

"O fenômeno da resistência é muito maior do que pensávamos", afirma o pesquisador Douglas Richman, do San Diego Health Care System.

A facilidade com que o HIV se transforma para se proteger contra as drogas mais poderosas disponíveis representa um fenômeno da evolução biológica em plena ação. Somente os vírus mais aptos sobrevivem para se multiplicar, preenchendo rapidamente a lacuna deixada pelos seus ancestrais mais vulneráveis. Além do mais, quanto maior a quantidade de HIV de uma variedade resistente, mais o vírus vai ser capaz de se disseminar de uma pessoa para outra. "Creio que isso nos indica o porque de estarmos presenciando um número muito maior de episódios de contágio do vírus resistente às drogas", afirma Richman.

Estudos anteriores demonstraram que entre 10% a 20% das pessoas recém-infectadas com o HIV são portadoras de variedades resistentes a drogas.

O novo estudo se baseou em amostras de sangue retiradas de 1.083 pacientes que não estavam mais respondendo bem ao tratamento. "Essa população é estatisticamente representativa das 132.442 pessoas tratadas entre 1996 e 1999", afirma Richman, que colaborou com especialistas da Rand Corporation.

Segundo Jose Zuniga, diretor da Associação Internacional de Médicos Especialistas no Tratamento da Aids, os médicos deveriam realizar testes em seus pacientes portadores do HIV, para determinar a presença ou não de variedades do vírus resistentes às drogas, assim que percebessem que os resultados do tratamento estivessem diminuindo, de forma a elaborar uma terapia especificamente dirigida para o paciente.

Mas não se trata de um problema simples, já que os atuais testes só são capazes de determinar a resistência nas variedades mais comuns do vírus. Os episódios de resistência em mais da metade das variedades menos comuns podem deixar de ser identificados, e os resultados podem ser de difícil interpretação. Zuniga observa que exames mais novos e de melhor qualidade estão sendo desenvolvidos.

De acordo com Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, os resultados do estudo são "surpreendentes". Porém, ele adverte que os exames de melhor qualidade são apenas parte da solução. "Esses resultados são uma advertência para que se criem novos medicamentos".

Os pesquisadores dizem que os estudos demonstraram que os testes, que custam entre US$ 400 e US$ 1 mil, possuem uma boa relação custo-benefício, já que poupam os pacientes de tratamentos caros com drogas ineficazes, além de mantê-los fora do hospital. Um dos estudos, realizado na França, demonstrou que o fracasso no tratamento acrescenta US$ 250 mensalmente aos gastos com cada paciente.

A pesquisa também possui implicações para o tratamento em nações pobres. Esses países, que hoje podem adquirir remédios mais baratos ou medicamentos genéricos para o tratamento da Aids, podem experimentar uma disseminação descontrolada do vírus resistente às drogas, a menos que os médicos prescrevam remédios de forma apropriada e os pacientes acatem as ordens médicas.

Caso contrário, afirma Zuniga, as drogas perderão a sua potência e o HIV se tornará novamente não tratável.

Richman apresentou os seus resultados em Chicago, na Conferência Inter-Científica sobre Agentes Anti-Microbiais e Quimioterapia. Ele é diretor-médico da ViroLogic Incorporation of South San Francisco, que realiza os testes utilizados na experiência.

Tradução: Danilo Fonseca

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