Pesquisas com filhos de casais gays têm resultados inconclusivos

Marilyn Elias

Um número cada vez maior de homossexuais está optando por desempenhar o papel de pai ou mãe, e as conseqüências que isso pode ter para as crianças ainda são incertas.

Até há alguns anos, os filhos de homossexuais quase sempre nasciam durante o primeiro casamento de seus pais.

Agora, aquilo que muitas vezes é chamado de "gayby boom" está em andamento, à medida em que adultos gays conscientemente formam famílias. Mais lésbicas estão gerando filhos, usando esperma de doadores, e os gays estão utilizando mães de aluguel. Além disso, ambos os sexos estão adotando crianças, graças às práticas liberais de adoção.

Os especialistas estão começando a examinar mais de perto como o fato de crescer tendo pais gays afeta as crianças. Uma gama de descobertas sobre famílias chefiadas por homossexuais será publicada na conferência da American Psychological Association (APA), que começa nesta sexta-feira em São Francisco.

Embora não haja dados muito concretos disponíveis, pesquisas recentes sugerem que entre três milhões e seis milhões de crianças nos Estados Unidos têm pais gays.

Grupos de apoio para famílias gay - a Family Pride Coalition (Coalizão de Orgulho da Família e o COLAGE (sigla em inglês para Filhos de Lésbicas e Gays em Toda Parte) - relatam que houve um grande aumento na participação desse segmento social nos últimos anos.

Uma revista dirigida a essas famílias, "And Baby", foi lançada neste verão, com uma edição de 100 mil exemplares, representando uma opção a mais além da "Proud Parenting Magazine".

"Sabemos que a comunidade é grande o suficiente para contar com duas revistas", diz o editor Michelle Darne, dono de uma agência de publicidade de Nova York. "Estamos passando no momento por um período de grande expansão".

Resultados de estudos sobre como essas crianças se ajustam enfatizam a sua similaridade com os filhos de casais heterossexuais. Mas um ramo de ponta da pesquisa científica, cujos resultados deverão ser divulgados na conferência da APA, está descobrindo algumas características distintas de famílias gay. Entre as descobertas:

- Entre os quatro e os seis anos de idade, as crianças com mães lésbicas desejam ter ocupações que não são muito típicas do seu sexo, ao contrário dos filhos de heterossexuais. Os pesquisadores têm mais dificuldade em descobrir o sexo dos filhos de lésbicas ao olhar fotografias das crianças. As mães heterossexuais possuem visões mais tradicionais sobre como os seus filhos e filhas devem se comportar, segundo a psicóloga da Universidade da Virgínia, Charlotte Patterson.

- Os pais gays dividem os cuidados com as crianças mais do que o fazem os casais heterossexuais. "Os dois homens assumem o papel de papai e mamãe", afirma o psicólogo Carl Auerbach, da Universidade Yeshiva. Descobertas similares foram feitas através de uma pesquisa nacional com 256 famílias, a maioria das quais é chefiada por lésbicas. A pesquisa foi feita pelas psicólogas Suzanne Johnson e Elizabeth O'Connor, do Dowling College.

- Os adolescentes se sentem mais próximos às "madrastas" lésbicas não biológicas que se incorporam ao lar do que aos padrastos. Eles também afirmam se sentir mais bem tratados por "madrastas" lésbicas do que pelos seus padrastos e madrastas casados com mães e pais naturais.

Outras pesquisas a serem apresentadas na APA revelaram que os pais gays encontraram menos animosidade por parte da vizinhança do que esperavam.

Mas os críticos contestam com veemência a validade dessa pesquisa, dizendo que é muito fácil pintar a vida das crianças criadas por gays em tonalidades róseas.

Virtualmente todos os estudos são reduzidos e tendem a ser distorcidos a favor dos mais ajustados. Muitos deles não incluem grupos de controle de crianças heterossexuais, além de não acompanhar as crianças no decorrer do tempo para detectar problemas que emergem na adolescência. Quase que não há estudos sobre famílias chefiadas por gays, e os resultados sobre crianças nascidas em casamentos heterossexuais podem ser confundidos pelos efeitos do divórcio.

Além do mais, os terapeutas que vêem as crianças criadas por homossexuais, bem como as próprias crianças, falam de experiências fortes que podem deixar cicatrizes psicológicas.

"Ter um pai gay é um problema social", diz Steven James, psicólogo do Goddard College. "Os jovens às vezes criam mentiras muito elaboradas para explicar as duas camas do casal. Eles costumam dizer que a cama extra é do tio, e arcar com tal mentira às vezes é difícil. Já os pais muitas vezes se sentem culpados".

Segundo o psicólogo, os pais homossexuais que são abertos sobre a sua orientação sexual, que modelam comportamentos mentais saudáveis e que arranjam comunidades que apóiam as suas crianças, costumam ter os filhos menos problemáticos.

Mas os cenários caracterizados por um ambiente de proteção podem ter um efeito nefasto sobre os adolescentes. Rob DeVoogd, de 17 anos, mora em Ithaca, em Nova York, e freqüenta uma escola progressista. Mas ele pega um ônibus com adolescentes de outras escolas que muitas vezes discriminam os gays. "Esse tipo de coisa dói, e é difícil não tomar como um ataque pessoal, já que a minha mãe é lésbica".

Há alguns anos, ele passou a responder às provocações. "Algumas vezes essas pessoas me dão ouvidos, e isso faz com que eu me sinta forte internamente", diz ele.

Ashley Harness, 18, de Minneapolis, cresceu com duas mães lésbicas. Ela foi concebida com esperma de um doador. A sua família participa ativamente de uma igreja freqüentada principalmente por gays e lésbicas. As suas mães a rodeiam com um grande e amoroso círculo social.

Ainda assim, na escola ela fez segredo sobre a sua vida no lar durante anos. "Isso me impediu de exercitar todo o meu potencial de aprendizado. Eu me autocensurava nas aulas e não expunha tudo aquilo que era capaz".

Aos 16 anos, Harness se sentiu forte o suficiente para se abrir. Alguns especialistas em saúde mental acreditam que não é a orientação sexual dos pais, ou mesmo os colegas de escola maliciosos que pode causar o maior potencial de dano para essas crianças, mas sim do fato de a criança ser criada por dois pais do mesmo sexo. As pesquisas demonstram que mulheres e homens muitas vezes criam os filhos de forma diferente, e cada um pode contribuir com qualidades positivas para a criação da criança. As crianças também podem se relacionar com pais e mães de forma diferente.

"O sexo dos pais tem um papel muito grande... Podemos não achar que essa diferença entre os sexos seja politicamente correta mas, pelo amor de deus, ela é correta em termos do desenvolvimento das crianças", argumenta a psiquiatra infantil Kyle Pruett, da Universidade de Yale.

Um exemplo: os pais são mais ambivalentes sobre a sua própria autoridade quando disciplinam uma criança do mesmo sexo. Portanto, os pais lidam melhor com os garotos, e as mães com as filhas. É mais fácil para uma criança desafiar um pai do sexo oposto. É claro que pais heterossexuais solteiros ou divorciados, cujos filhos não foram expostos ao outro pai, enfrentam os mesmos problemas.

Mas o rompimento real com o passado está nas "novas" famílias criadas com esperma de doadores desconhecidos ou mães de aluguel. Uma criança tem dois pais do mesmo sexo, e não há nenhum pai do outro sexo na família.

Em um estudo pioneiro, mas de dimensões modestas, os filhos de casais de lésbicas, nascidos por meio de esperma de doadores, foram comparados com os filhos de casais heterossexuais. Os garotos com duas mães tinham a mesma tendência que outros garotos a serem fanáticos pelos esportes masculinos. Mas os filhos de lésbicas também cozinham, cuidam do jardim e "são muito sensíveis para com os seus sentimentos e os dos outros. Eles são mais andróginos", diz a psicóloga de São Francisco, Peggie Drexler.

Mesmo assim, Pruett diz: "Sabemos que as crianças buscam modelos de comportamento do mesmo sexo, e elas se beneficiam com o fato de ter pai e mãe".

Esse processo de "observação" começa muito cedo. O filho de três anos de Jen Bleakley e Nina Jacobson, de Los Angeles, perguntou a suas mães lésbicas, "Eu tenho um pai?". Essa pergunta progrediu para a demanda, "Eu quero um pai", e para afirmações como "Os pais são legais".

Bleakley explicou ao menino que há diferentes tipos de famílias. Parentes, amigos e "babás" masculinos fazem parte do cotidiano da família.

O casal escolheu o mesmo doador de esperma para o seu filho e para a filha de nove meses. Ele concordou em ser "achado" (a maior parte dos doadores não concorda), de forma que as crianças possam identifica-lo quando fizerem 18 anos.

Os pais muitas vezes se surpreendem ao ver como as crianças "entendem a situação" tão jovens.

Gregg Cartagine e o seu parceiro, Reed Chaikin, ambos de 39 anos, são pais de Travis, de quatro anos, nascido de uma mãe de aluguel de Indiana, com o esperma de Chaikin.

Quando Travis tinha dois anos, eles estavam passando as férias em Key West, na Flórida, tomando café à beira de uma piscina, quando uma mulher perguntou ao garoto, "Ah, a mamãe ainda está na cama?". Travis, calmamente respondeu, "Não temos uma mãe. Temos dois pais e um cão".

"Algumas vezes ele chama um de nós de mamãe e, de vez em quando brincamos de esconde-esconde e Travis pergunta, 'Cadê a mamãe?', de forma que a idéia ainda está em atividade na sua cabeça", diz Cartagine.

Os professores do jardim de infância freqüentado por Travis dizem que ele é muito bem ajustado. "E creio que tivemos sorte porque ele foi um bebê tranqüilo", afirma Cartagine.

O temperamento inato é uma poderosa incógnita enfrentada tanto pelos pais homo como pelos heterossexuais, diz Pruett. "Uma criança tranqüila vai se sair bem melhor sob estresse do que uma outra que é altamente sensível".

Os especialistas concordam que, com certeza, pesquisas científicas definitivas sobre os filhos de gays e lésbicas vão demorar muitos anos para serem completadas.

Enquanto isso, enquanto pesam as incertezas relativas aos seus relógios biológicos e ao desejo profundo de ter um filho, um grande número de homossexuais está dando um salto baseado apenas na fé.

"Nós sentimos que quando maior a aceitação e o amor que rodeiam as nossas crianças, mais capazes elas serão de superar os golpes da vida", afirma Jacobson.

Tradução: Danilo Fonseca

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