Equipes de emergência agora correm risco de vida

Robert Davis

WASHINGTON - Correr para a Casa Branca para atender a uma emergência médica costumava ser uma tarefa divertida para John Far, enfermeiro do corpo de bombeiros do Distrito de Columbia.

Quando havia um visitante ou uma alta autoridade sofrendo de dores no peito, os agentes do Serviço Secreto costumavam dar as boas vindas a Farr e aos seus colegas em locais da Casa Branca cujo acesso é geralmente proibido à maioria das pessoas. Farr era parte de uma equipe de proteção e ajudava muito em casos de emergência.

"Eu cuidava das pessoas e, depois, no dia seguinte, ficava sabendo pelo jornal quem eram. Quando tratava delas, não tinha idéia do quanto eram importantes", diz ele.

E quando ele não estava ocupado cuidando dos pacientes, Farr e os seus companheiros do corpo de bombeiros podiam se dar ao luxo de perambular e espiar o interior da residência presidencial. "Vi locais na Casa Branca que a maioria das pessoas nunca teve a oportunidade de conhecer", conta Farr.

Mas isso foi antes de 11 de setembro.

Agora Farr e outros membros da equipe são considerados suspeitos até prova em contrário. Cada um é escoltado por um agente do Serviço Secreto que os vigia do lado interno da cerca da Casa Branca. O equipamento que carregam, o caminhão em que chegam e até mesmo os seus movimentos são encarados como ameaças.

Tais problemas para os profissionais que realizam atendimentos de emergência não são enfrentados apenas por aqueles que trabalham nos protegidos centros de poder da nação, mas também são sentidos em todas as ruas do país.

A nova realidade consiste em que quase tudo mudou para Farr e um milhão de outros profissionais cujo trabalho faz com que sejam os primeiros a chegar a locais de desastre ou emergências, e que compõe a primeira frente de defesa do país contra o terrorismo.

Para os paramédicos, cada caso de mal estar de um indivíduo em um local público possui o potencial para ser a primeira vítima de um ataque biológico ou químico. Esses profissionais têm grande probabilidade de se constituírem na segunda onda de fatalidades.

Para a polícia, cada caminhão parado devido a problemas mecânicos deve ser encarado como uma possível bomba. Eles têm que ficar junto ao veículo até que o risco seja eliminado.

Já para os bombeiros, todo odor ou substância suspeitos devem ser checados para determinar o seu potencial para destruir bairros inteiros. O trabalho daqueles que chegam primeiro para responder a essas emergências é o de natureza mais mortífera.

Novos métodos, menos confiança
Desde o dia 11 de setembro, essas tropas da linha de frente adotaram novos métodos e novas atitudes.

Nada parece ser o mesmo.

"A nossa confiança nas pessoas diminuiu", diz Farr.

No dia 11 de setembro, Farr e a sua equipe viram os aviões explodir contra o World Trade Center em um grande aparelho de televisão instalado no seu destacamento de bombeiros, a seis quarteirões da Casa Branca.

A seguir, alarmes dispararam, uma impressora começou a redigir um endereço e a voz de uma comandante foi ouvida nos auto-falantes, dando a ordem para que os bombeiros se dirigissem à Casa Branca.

Enquanto iam a toda velocidade rumo a Pennsylvania Avenue, Nº 1600 (endereço da Casa Branca), eles ouviram o barulho das sirenes de outros carros de bombeiros sendo enviados para o outro lado do Rio Potomac, na direção do Pentágono, que acabara de ser atingido por um avião. Um dos bombeiros disse a Farr que havia apreciado bastante ter trabalhado com ele. "Ele estava fazendo as pazes com todos nós", conta Farr. "O colega estava se preparando, pois estava convicto de que aquele era o dia em que morreria".

Quando saltaram do veículo na Casa Branca, o cenário era caótico.

"Geralmente, quando a Casa Branca é evacuada, as pessoas ficam irritadas", diz Farr. "Mas no dia 11 de setembro, todos estavam correndo em disparada. Os agentes do Serviço Secreto exibiam as armas que trazem escondidas".

Quando estacionaram o caminhão -que exibe orgulhosamente a inscrição "O primeiro a chegar a Casa Branca"- os agentes apontavam para um jato comercial que passava diretamente acima do local. Foi uma cena nunca antes vista, já que o espaço aéreo acima da Casa Branca é fechado para o tráfego comercial.

"Todos achavam que aquele avião ia atingir a Casa Branca", conta Farr. Mas tarde, foram saber que a aeronave havia sido desviada para a área devido ao ataque contra o Pentágono.

Farr e sua equipe ficaram na Casa Branca por mais de duas horas. "Era como ficar esperando que o céu caísse sobre as nossas cabeças", diz ele. Desde então o medo se transformou em uma realidade opressiva; uma nova normalidade para Farr e outros profissionais que lidam com emergências em todo o país.

"Só um idiota não teria medo de entrar em certos edifícios", diz ele.


Risco maior, horas mais longas
Um dos paramédicos do destacamento de Farr deixou o local para trabalhar no Oregon. Outros estão pensando em mudar de profissão.

Porém, para outros profissionais que são os primeiros a chegar em uma área de emergência, o risco maior não é algo de inteiramente novo.

Mais de metade dessa força doméstica de proteção é composta por policiais. Eles estão acostumados a encarar situações aparentemente benignas como sendo potencialmente explosivas e letais.

Separar brigas de casais ou entregar multas a motoristas infratores são, potencialmente, missões muito perigosas.

Agora eles sabem que um caminhão enguiçado na estrada, próximo a um prédio lotado, pode ser uma bomba. Uma pessoa suspeita pode ser um terrorista.

"Não existe mais aquilo que costumávamos chamar de 'um atendimento fácil'", diz Jim Pasco, diretor-executivo da Ordem Fraternal de Polícia. "Agora, não há nenhum momento no nosso turno em que se possa colocar os pés sobre a mesa e dar uma relaxada".

Para tais departamentos, esses turnos parecem agora não ter mais fim.

A polícia do Distrito de Colúmbia, por exemplo, aumentou a sua carga de trabalho de quarenta para sessenta horas semanais. "As horas extras simplesmente se tornaram parte do nosso trabalho", diz Pasco.

Mas ele não ouviu reclamações.

"De forma geral, foi para encarar esse tipo de dificuldade que os policiais entraram para o serviço", diz ele. "Eles protegem o público, e o público nunca esteve tão ameaçado quanto atualmente. Você ouve os tiras durões, dos velhos tempos, falando sobre o seu dever e da honra que é trabalhar na polícia".

Mas Farr, divorciado e pai de três filhos, só quer trabalhar todos os dias salvando pessoas, sem ter que correr risco de vida.

Após meses de ameaças de antraz, de entradas em túneis do metrô, sabendo através do FBI da possibilidade de ataques iminentes, e de mais treinamentos para enfrentar o terrorismo, o que faz com que encare os riscos de maneira diferente, cada dia em que vai para o trabalho se tornou uma espécie de loteria.

"Fico pensando o que vai acontecer durante o dia", diz Farr.

Mas ele não planeja deixar a profissão.

"Pretendo correr o risco", diz Farr. "Temos quatro turnos, 365 dias por ano. Há 33 destacamentos de bombeiros na cidade. Tendo em vista todos esses números, creio que as chances estão ao meu favor. Acho que é uma profissão que ainda vale a pena".

Tradução: Danilo Fonseca

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