Sapato-bomba demonstra falhas na segurança de aeroportos

Blake Morrison e Richard Willing

Depois que Richard Reid embarcou em um vôo da American Airlines em Paris, com explosivos que estariam ocultos em seus sapatos, as autoridades de segurança aérea e os especialistas se perguntaram: Será que as autoridades de segurança nos aeroportos dos Estados Unidos teriam detido Reid?

A resposta é: Talvez.

"Se o sistema estivesse funcionando corretamente, com sorte o teríamos capturado", diz o especialista em contra-terrorismo e ex-agente do FBI, Philip King.

Reid, de 28 anos, deve comparecer perante um tribunal de Massachusetts na sexta-feira para ouvir oficialmente as acusações de ter interferido com a tripulação de uma aeronave. Segundo as autoridades, ele tem cooperado. Os seus advogados afirmam que não há nenhuma evidência de uma ligação entre o crime do qual Reid está sendo acusado e uma conspiração maior que poderia envolver a rede Al Qaeda, de Osama Bin Laden.

Reid foi preso no último sábado, após uma luta a bordo do vôo de Paris a Miami, que foi desviado para Boston. Segundo uma testemunha, Reid tentou acender um "artefato explosivo funcional improvisado", oculto no seu tênis, sendo entretanto contido por membros da tripulação e passageiros. Um porta-voz do FBI disse que a natureza do explosivo e o seu potencial de destruição deverão ser anunciados durante uma audiência na sexta-feira.

Fontes de investigação confirmaram na quinta-feira que Reid foi identificado por um membro da Al Qaeda que foi feito prisioneiro no Afeganistão como sendo um visitante que esteve recentemente naquele país, onde pode ter passado por treinamentos nos campos da organização de Bin Laden. Porém, as autoridades não estão certas quanto ao crédito a ser dado a essa identificação, e estão tentando esclarecer melhor os fatos.

Segundo especialistas em segurança de aviação, a facilidade com que Reid embarcou na aeronave da American Airlines reavivou algumas das preocupações quanto às várias falhas de segurança que continuam a ocorrer nos aeroportos dos Estados Unidos.

Os especialistas e a Administração Federal de Aviação dizem que os aperfeiçoamentos das medidas de segurança planejados antes do incidente devem criar múltiplas barreiras para impedir atos terroristas, além de corrigir muitas falhas. Se um terrorista passar através de um detector de metais com um explosivo plástico nos sapatos, um dos 180 cães farejadores que operam em 39 aeroportos deverão ser capazes de alertar os agentes de segurança. Os cães checam vários locais nos aeroportos e podem ser utilizados para atuar nas filas de passageiros que esperam para embarcar ou para passar pelos pontos de checagem. Laura Brown, porta-voz da Administração Federal de Aviação, diz que mais 90 cães passarão a atuar em outros 25 aeroportos até o final do ano que vem.

Além disso, a nova Agência de Segurança de Transportes criou uma equipe para examinar formas de utilização da tecnologia para aumentar a segurança. Como parte da legislação de segurança de aviação, as autoridades podem examinar artefatos capazes de analisar o nervosismo na voz dos passageiros ou de fazer uma varredura completa nos seus corpos.

A tecnologia de varredura eletrônica do corpo cria uma imagem de vídeo dos indivíduos. A imagem permite aos agentes de segurança visualizar quaisquer objetos escondidos sob as roupas. No entanto, a máquina é incapaz de detectar objetos no interior do corpo. Os agentes de segurança aeroportuária estão utilizando as máquinas em uns poucos aeroportos, incluindo o O'Hare, em Chicago, o Los Angeles International, e o John F. Kennedy, em Nova York. Ainda que as autoridades de segurança decidam utilizar os aparelhos para examinar os passageiros - uma medida que poderia gerar preocupações quanto às liberdades civis, devido à capacidade da máquina em revelar o corpo humano nu - o uso generalizado desses dispositivos ainda seria algo para daqui a vários anos, e exigiria o investimento de milhões de dólares.

A tendência a encarar a tecnologia como uma panacéia é perigosa, segundo os especialistas em segurança. A realidade, segundo eles, é que uma atitude vigilante com relação à segurança é mais importante do que qualquer parafernália nova. Uma equipe de revista mais bem treinada e agressiva, por exemplo, poderia fazer uma diferença significante. Diretrizes mais rigorosas para essas equipes deverão vigorar em novembro do ano que vem.

"Simplesmente não existe uma única tecnologia capaz de identificar todos os mínimos detalhes", afirma Reynold Hoover, especialista em contra-terrorismo e ex-agente do Birô de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo. "Não importa que providências tomemos, alguém vai tentar encontrar uma forma de burla-las. Então, queremos realmente estar dois passos à frente dessa gente".

Após o incidente envolvendo Reid, A Agência Federal de Aviação baixou uma norma de segurança que determina que as companhias aéreas examinem os sapatos de alguns passageiros. Segundo Brown, essa medida é uma dentre várias tomadas pela agência desde 11 de setembro. E ela e outros especialistas sabem também que essa não será a última medida.

"O problema é que os terroristas são muito criativos", explica King. "Mas temos alguns planos e, se eles forem implementados, creio que estaremos na direção certa. Creio que teremos bons resultados".

Tradução: Danilo Fonseca

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