Terra pode ser atingida por asteróide neste século

Dan Vergano

Você alguma vez já se preocupou com a possibilidade de ser atingido por um asteróide? E o que dizer de ser devorado por um urso?

Esses dois destinos trágicos fizeram parte de um recente debate em uma conferência de astrônomos. Um grupo minimizou os riscos de a Terra ser atingida por um asteróide, enquanto que outro usou o exemplo do urso assassino para zombar da argumentação do primeiro grupo.

Para os leigos, a polêmica pode soar como um jogo de números de caráter acadêmico passado no silêncio do espaço. Porém, o fato fez com que alguns astrônomos saíssem do sério e gritassem furiosos, argumentando que o que está em jogo é a consciência da população sobre o perigo representado à Terra pelos asteróides, e, talvez, verbas públicas para financiar pesquisas que determinem a dimensão desse risco.

Uma indicação dessa atual preocupação emergiu na terça-feira no Reino Unido, quando um conjunto de centros científicos criou a "Rede de Informações sobre Cometas e Asteróides", a fim de "fornecer informação atual, precisa e sem distorções" sobre potenciais impactos de asteróides.

A atual confusão envolvendo informações truncadas começou no mês passado, quando os pesquisadores do projeto Sloan Digital Sky Survey, chefiados por Zeljko Ivezic, da Universidade de Princeton, anunciaram que somente 700 mil objetos rochosos de cerca de 800 metros de diâmetro estariam localizados no Cinturão de Asteróides entre Marte e Júpiter, ao contrário dos dois milhões que eles esperavam encontrar. O projeto Sloan geralmente se concentra em objetos bem mais distantes: a sua missão principal é pesquisar galáxias longínquas.

A partir da pesquisa, publicada no mês passado no Astronomical Journal, os pesquisadores estabeleceram que as probabilidades de um asteróide do tamanho de uma cidade se chocar com a terra neste século, matando centenas de milhões de pessoas, seriam de apenas uma em cinco mil. As previsões anteriores, segundo eles, era de que o risco seria de cerca de um em cada 1.500.

Alguns jornais fizeram matérias sobre a alegada diminuição do risco, baseados nesses resultados, causando a ira dos astrônomos que estudam diretamente os asteróides "próximos à Terra", aqueles cuja trajetória se localiza na parte externa do Cinturão de Asteróides, mais próximos ao Sol, e na vizinhança da Terra. Desses, cerca de 1,5 mil são atualmente conhecidos. Um cientista chamou o relatório Sloan de "tolice", em uma lista de discussão de astronomia, afirmando que não fazia objeções às estimativas, mas sim aos métodos utilizados.

Um outro crítico, David Morrison, do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa, em Moffett Field, Califórnia, diz que as objeções ao estudo Sloan se concentram nos seguintes pontos:

- A utilização dos asteróides do cinturão principal como uma base para os números de asteróides próximos à Terra.

- A suposição de que um impacto de asteróide de grandes proporções acontece a cada 100 milhões de anos. Segundo os críticos, esse é um pressuposto arbitrário.

- A idéia de que a estimativa diminuiu o risco. As estimativas do Laboratório de Jato Propulsão variam entre um em quatro mil a um em 8.800, observa Morrison. Embora certos cientistas acreditem que o risco seja bem mais alto, da ordem de um em mil, tal estimativa nunca representou um consenso entre os astrônomos que estudam os objetos próximos à Terra.

De qualquer maneira, os críticos observam que não existe, estatisticamente, uma grande diferença entre um em mil e um em cinco mil. Foi a aparência de um risco menor, e não a realidade, o que desencadeou tanta perplexidade.

Os críticos chegaram ao clímax com uma paródia anônima do anúncio da Sloan, enviada pela "Slone Digital Survey", que sugere que o risco de um norte-americano ser comido por um urso é bem menor, baseado em uma pesquisa com hipopótamos africanos.

Em resposta a esse tipo de crítica, Ivezic sugeriu que aqueles que as fazem "não leram o nosso artigo com atenção".

Quem se viu pego no meio da controvérsia foi o especialista em asteróides, Robert Jedicke, da Universidade do Arizona em Tucson. Ele foi citado como sendo um especialista externo no relatório Sloan, que concordaria com o valor numérico da estimativa do risco de impacto, uma parte do estudo que ele afirma não ser importante.

Segundo a sua avaliação, o estudo é mais útil por fornecer uma pesquisa uniforme do Cinturão de Asteróides. Ele diz que a estimativa de impacto de asteróides próximos à Terra divulgada pela Sloan está correta basicamente por acidente, já que se baseia na premissa de que um grande impacto ocorre a cada 100 milhões de anos.

A idéia de que o risco vindo do espaço foi superestimado veio em uma má hora para os estudo dos asteróides próximos à Terra. Na Inglaterra, o aumento planejado nos gastos com a detecção de asteróides próximos parece estar assegurado, tendo, no entanto, sofrido uma desaceleração. Em meados de dezembro, a Nasa por um breve período ameaçou acabar com a pesquisa sobre objetos próximos à Terra no gigantesco rádio-telescópio de Arecibo, em Porto Rico. A agência espacial acabou recuando, após receber uma avalanche de reclamações. Além disso, uma redução planejada do orçamento ameaça o Observatório Astrofísico Smithsonian, em Cambridge, Massachusetts, um centro de estudos de objetos do nosso sistema solar.

Apesar desses problemas em potencial, há alguns sinais de progresso nessa área de pesquisa. Após alguns começos abortados, o sistema para alertar o público sobre a presença de asteróides potencialmente perigosos parece estar funcionando. Durante o feriado de Ação de Graças, os astrônomos assinalaram pela primeira vez o asteróide 2001 VKS como sendo uma possível ameaça. A seguir, após análises mais detalhadas, o nível de risco foi reduzido, sem que se tivesse sobressaltado a população.

No início de 2001, o espetacular pouso da sonda espacial NEAR-Shoemaker, da Nasa, na superfície do asteróide Eros, fez com que a atenção do público para com a proximidade de asteróides alcançasse um nível inédito.

Em uma recente conferência da American Geophysical Union, em São Francisco, estudos realizados sobre Eros, um corpo celeste próximo que nunca cruza a órbita da Terra, levantou a questão de como asteróides do cinturão entre Marte e Júpiter se desviam, chegando à nossa vizinhança. Durante a conferência, William Bottke, do Southwest Research Institute, em Boulder, Colorado, sugeriu que os asteróides com formato de batata saíram do cinturão principal há apenas 16 milhões de anos. Segundo os astrônomos, determinar com que freqüência os asteróides chegam à vizinhança da Terra é importante para que se entendam as chances de um deles se chocar de forma catastrófica com o nosso planeta.

Desde 11 de setembro, "creio que passamoa a entender melhor o que significa se defrontar com um desastre impensável. De certa forma, a tragédia fez com que passássemos a dar mais atenção à tarefa de fazermos tudo o que estiver ao nosso alcance para nos protegermos contra desastres", afirma o astrônomo Richard Binzel, do MIT.

De acordo com Binzel, protestos contra o quase cancelamento do projeto de Arecibo e uma reação crítica às estimativas alternativas quanto aos riscos vindos do espaço refletem uma certa frustração entre os cientistas que há muito tempo buscam financiamento para o entendimento dos asteróides que descobriram. Esses cientistas não se contentam simplesmente em catalogar os asteróides.

E as perspectivas não são das melhores. "O atual orçamento para o programa Observação de Objetos Próximos à Terra passa por algumas escolhas especialmente difíceis", escreveu recentemente, em uma carta para a comunidade espacial, Colleen Hartman, que dirige o departamento de exploração do sistema solar da Nasa. Em um protesto contra a tentativa de cancelamento do projeto de Arecibo, a Sociedade Planetária, um grupo estudos espaciais, afirma que tais projetos são vitais. "Um objeto próximo à Terra que atingiu o nosso planeta há 65 milhões de anos desencadeou a extinção dos dinossauros e da maior parte das espécies que então floresciam. Um outro objeto semelhante pode vir em nossa direção a qualquer momento", afirma a Sociedade Planetária.

Tradução: Danilo Fonseca

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