Estresse causado por ataques terroristas faz americanos engordarem ainda mais

Nanci Hellmich

O nova-iorquino Bob Dembicki, 47, sempre adorou comer, mas ele nunca soube o quanto a comida era capaz de consolá-lo antes de 11 de setembro.

Dembicki é gerente da equipe de enfermagem da unidade de trauma cirúrgico e do centro de queimados do Hospital Presbiteriano de Nova York, que tratou 22 pacientes com queimaduras sérias, ocorridas durante o desastre com as torres do World Trade Center.

Durante muitas semanas após a tragédia, ele ficou por longos períodos no hospital, chegando a trabalhar freneticamente até 16 horas por dia. Quando tinha alguns minutos de folga, ele aproveitava para devorar alguns lanches de alto teor de gordura, trazidos por membros da equipe. À noite, quando estava sozinho em seu apartamento, Bembicki assistia as notícias na televisão, chorava, sem poder acreditar no que estava acontecendo, e se consolava com grandes banquetes que ele encomendava dos restaurantes e delicatessens locais: macarrão com queijo, frango com purê de batatas, hambúrgueres com batatas fritas, sorvete com xarope de chocolate e creme batido.

Ele se lembra que, em uma noite, pensava: "Por que estou comendo essa quantidade enorme de macarrão com queijo?". E a sua resposta foi muito simples: "Porque isso me dá prazer, e neste momento nada mais nos dá prazer".

Por volta do Dia de Ação de Graças, ele tinha acrescentado 7,2 kg a sua estrutura de 1m88, e sabia que já era hora de volta à forma e controlar a sua compulsão por comida.

Assim como em todo ano novo, milhões de norte-americanos vão tomar a resolução de perder peso. Mas, este ano, um número maior do que o comum pode estar lutando com o excesso de peso advindo do estresse - aqueles quilos extras adquiridos desde os ataques terroristas. Tem gente que come para se acalmar. Outros se preocuparam menos em controlar o peso, porque isso não parecia ser algo de importante durante o outono do terror. Resistir àquele pedaço de bolo de chocolate simplesmente não parecia valer à pena, e ir para a academia de ginástica soava como algo muito menos importante do que ficar em casa com as crianças.

Antes mesmo de 11 de setembro, milhões de norte-americanos estavam inclinando os ponteiros da balança na direção errada. Cerca de 61% dos norte-americanos são gordos demais, e cerca de 27% são obesos - ou seja, têm pelo menos 13,5 quilos a mais do que o peso saudável, segundo estatísticas governamentais. O Departamento de Saúde recentemente divulgou um documento apelando para que se previna e se diminua a obesidade no país.

Os norte-americanos admitem que se voltaram para a comida nos últimos meses. Em uma pesquisa de opinião patrocinada pelo Instituto Norte-Americano de Pesquisa do Câncer, cerca de 41% dos entrevistados disseram que mudaram um pouco os seus hábitos alimentares depois dos ataques. Eles disseram que passaram a comer mais "comidas que confortam", como purê de batatas com molho de carne, galinha frita e macarrão com molho de queijo, além de outros pratos pesados como bistecas, cozidos de carne, lazanha, e pratos açucarados, como sobremesas e sorvetes.

Segundo o pesquisador de obesidade, John Foreyt, da Faculdade de Medicina Baylor, em Houston as pessoas comem por uma série de razões de ordem emocional.

"Estamos sob um grande estresse, e temos muito poucas válvulas de escape para lidar com isso. Nós utilizamos a comida como um alívio para o estresse", diz ele. "Nós comemos muito quando estamos ansiosos, tensos,estressados, entediados e solitários".

"O que mais podemos fazer? Tudo o mais é proibido, e fumar não é socialmente aceitável. A única atividade legal que nos resta é comer".

Segundo o especialista em obesidade Kelly Brownell, professor de psicologia da Universidade de Yale, a comida consola algumas pessoas por uma série de razões psicológicas e biológicas.

Após o 11 de setembro, houve um auto nível imediato de estresse durante vários dias, que fez com que algumas pessoas comessem menos. E depois, durante os meses seguintes, as pessoas passaram a sofrer de níveis crônicos elevados de estresse moderado e, embora alguns indivíduos continuassem a comer menos, vários responderam a essa condição passando a comer mais.

Segundo o especialista, alguns de nós usam a comida como auto-medicação, assim como outros recorrem ao tabaco e ao álcool. Um drinque tomado em casa, após um dia duro de trabalho, faz com que certas pessoas se acalmem instantaneamente.

"E é esse o efeito da comida sobre outras pessoas", diz ele. "Esses indivíduos podem comer um sonho ou um saco de batatas fritas e, como conseqüência, se sentirem calmas e relaxadas".

Provavelmente existe uma razão biológica para que a comida acalme e conforte certas pessoas mais do que outras, de acordo com Brownell.

Pamela Peeke, professora de clínica médica da Escola de Medicina da Universidade de Maryland, acredita que os hormônios do estresse variam de um indivíduo para outro, o que explica porque alguns comem menos sob tensão, enquanto que outros comem demais.

Atração pelas comidas confortadoras

Aqueles que comem em excesso em períodos de estresse costumam procurar as comidas confortadoras da sua juventude, segundo Foreyt. Eles procuram comidas que associam com períodos de baixo estresse - ou seja, com a infância. É por isso que muitos buscam os purês de batatas, macarrão com molho de queijo e sobremesas.

É isso exatamente o que ocorre com Rochelle Reid Myers, 27, escritora e editora de uma associação de comércio em Washington D.C. Ela tem se acalmado desde 11 de setembro comendo desenfreadamente biscoitos recheados e doces.

"Quando era criança, eu era ruim de garfo, mas umas das poucas coisas que gostava de comer eram os doces, e o fato de comê-los agora de certa forma me remete à infância", explica.

Myers perdeu 32,5 kg no ano passado e quer perder mais nove. Porém, fazer dieta é algo que exige muita energia e equilíbrio emocional, e esses fatores passaram a ser menos relevantes depois do 11 de setembro. Portanto, ela se concentrou apenas em manter o seu peso durante os feriados (ela se exercitou quase que diariamente) e já está novamente tentando perder os quilos extras.

Já a advogada Sandra Bjork, 60, diz que tentou ser "um pouco mais gentil" consigo mesma desde os ataques terroristas, a ameaça do antraz e a guerra, todos esses fatores que contribuíram para aumentar a sua ansiedade. Ela passou a comer muitas sobremesas e purê de batatas, tendo ganho 2,25 kg, que agora tenta eliminar.

Para piorar o problema há a tendência para ignorar o planejamento das refeições durante os períodos de estresse. "Menos planejamento significa mais restaurantes, mais comidas entregues em casa, menos frutas e vegetais", diz Katherine Tallmadge, especialista em dietas e autora de um novo livro, "Regime Simples". "Quando há menos planejamento, há menos comidas saudáveis e o indivíduo tende a 'beliscar' mais".

E é muito fácil de se conseguir comida saborosa neste país, o que, segundo os especialistas, é uma tentação para as pessoas que comem por razões emocionais.

"Quando mais comida estiver disponível no dia a dia, maior será a probabilidade de que os pensamentos sobre comida resultem, realmente, em que se coma mais", afirma Michael Lowe, professor de psicologia da Universidade Hahnemann.

O segredo são os exercícios

Se você está tentando perder peso, ou evitar engordar, existem algumas coisas que pode fazer para facilitar a sua vida, mesmo quando estiver sob estresse.

Lowe faz as seguintes recomendações:

- Evite jantar fora. Se você come fora mais do que duas vezes por semana, reduza esse número. Quando as pessoas vão aos restaurantes ou lanchonetes, elas têm dificuldade em manter um limite apropriado sobre a quantidade de comida ingerida.

- Livre-se das guloseimas em casa. Retire de casa as comidas mais tentadoras e compre os petiscos em porções pequenas. Não fique rodeado por um estoque de comidas que engordam. Cedo ou tarde, você ou um outro membro da família vai acabar comendo mais do que o recomendável.

- Fique ativo. Faça entre 30 minutos a uma hora de uma vigorosa atividade física, como uma caminhada rápida, diariamente. Não faz muita diferença qual seja a atividade ou se ela é feita de forma longa e contínua, ou se consiste de um conjunto de pequenas séries. O importante é que os norte-americanos precisam reservar um tempo diário para movimentar os seus corpos. O exercício também ajuda a aliviar o estresse.

Segundo Linda Webb Carilli, porta-voz da organização Weight Watchers, é importante que aqueles que ganharam peso recentemente façam um exame retrospectivo e aprendam algo sobre si próprios e o seu relacionamento com a comida. "O importante é voltar ao percurso anterior", diz ela.

E é isso o que Dembicki está fazendo. Ele sabe o quanto é difícil perder peso. Três anos atrás, quando ele se associou à Weight Watchers, Dembicki pesava 112,5 kg, sofria de hipertensão arterial e tinha um alto índice de colesterol. Ele perdeu cerca de 27 quilos em um período de um ano e meio.

Dembicki estava com 87 kg antes dos ataques terroristas, mas o seu peso chegou a 94,5 kg nas semanas seguintes. Foi quando ele decidiu dar uma freada na sua dieta e voltou a freqüentar as reuniões do grupo.

Dembicki está mantendo um relatório diário de tudo o que come. "Acredito piamente em que é necessário escrever. É como se fosse um talão de cheques. Você tem que manter o balanço".

Ele voltou também a se exercitar, fazendo caminhadas rápidas pela cidade para ir à igreja e outros eventos e, ocasionalmente, malhando na academia.

Durante os feriados de fim de ano, ele exerceu vigilância sobre a sua dieta. Dembicki já perdeu 6,3 dos 7,2 kg que ganhou. Ele sabe que é muito difícil perder peso em um mundo "tão ligado à boa comida".

Dembicki reflete sobre a sua indulgência que se seguiu à tragédia.

"Até ocorrer esse desastre, nunca pensei em comida como um consolo. Mas agora vejo que a comida satisfaz as necessidades emocionais. Ela te faz sentir bem".

"As comidas confortadoras são boas no momento de estresse. Mas os momentos de gratificação se transformam em quilos extras", diz ele. "Eu simplesmente não vou mais sucumbir à essa tentação".

Tradução: Danilo Fonseca

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