Crescem sentimentos pró-EUA no Irã

Barbara Slavin

Teerã, Irã -- O "produto real" apareceu de novo no Irã há alguns meses, quando a Coca Cola passou a produzir o seu refrigerante na cidade de Mashhad. Até então, os iranianos tinham que se contentar com um tipo de cola local, menos popular.

O retorno de um dos ícones mais conhecidos da cultura norte-americana demonstra o quanto a mentalidade mudou nos 23 anos após a revolução islâmica que jurou varrer do mapa iraniano todos os vestígios do "Grande Satã".

Ao invés de exibir reféns norte-americanos, queimar a bandeira e gritar slogans anti-americanos, vários dos iranianos de hoje estão participando de demonstrações pró-americanas e desejando que o Irã possa ser mais como os Estados Unidos. Tais sentimentos nas ruas poderiam ajudar a aproximar os dois países, embora o governo iraniano continue sendo controlado por conservadores avessos a uma melhoria nas relações com Washington.

"Os Estados Unidos são o primeiro país do mundo, e, se tivéssemos relações melhores, isso seria bom para nós", afirma Arghavan, uma estudante de odontologia de 18 anos.

Um ex-funcionário do governo diz que não se lembra de uma época em que os EUA tenham sido mais populares no Irã.

Os ataques terroristas de 11 de setembro aproximaram os dois países porque deram a eles um inimigo comum: o regime Taleban do Afeganistão, que matou uma dúzia de diplomatas iranianos em 1998, e que forneceu refúgio a Osama bin Laden.

A onda de popularidade norte-americana entre os iranianos, que são muçulmanos não-árabes, se constitui em um visível contraste com a atitude dos muçulmanos no mundo árabe. Lá, a popularidade dos Estados Unidos está em queda livre devido ao apoio de Washington a Israel, na medida em que o conflito entre judeus e palestinos se acirra. Até mesmo os iranianos que se opõe às políticas dos Estados Unidos no Oriente Médio têm uma impressão positiva a respeito dos Estados Unidos.

Transformar esse sentimento popular em uma ação positiva pelo governo de Teerã não é uma tarefa fácil. O regime não se sente confortável em reconhecer que auxiliou os Estados Unidos na guerra no vizinho Afeganistão, fornecendo dados de inteligência e encorajando os chefes tribais apoiados pelo Irã a se juntar ao movimento de resistência anti-Taleban. Mas o Irã endossou o novo governo afegão de Hamid Karzai, que é pró-americano.

Rixas entre facções de reformistas sociais e conservadores também contribuem para dificultar a reaproximação entre os dois países. Mesmo assim, as vozes a favor da reabertura da antiga embaixada dos Estados Unidos - onde estudantes radicais mantiveram 52 norte-americanos como reféns por 444 dias, de 1979 a 1981 -estão fazendo mais barulho.

"A equação mudou desde o 11 de setembro", afirma o parlamentar Gholamheidar Ebrahimby-Salami. Ele diz que o Irã deveria "certamente" restaurar relações normais como os Estados Unidos. Washington cortou essas relações em 1980.

Alguns iranianos comparam os dois países, que eram aliados próximos sob o regime autocrático do Xá Mohammad Reza Pahlevi, de 1941 a 1979, a um marido e uma mulher ansiosos por caírem nos braços uns dos outros após uma longa separação, mas que ainda nutrem antigos ressentimentos.

Durante três dias após o 11 de setembro, multidões de jovens iranianos fizeram espontaneamente vigílias com velas na Mirdamad Boulevard, no norte de Teerã, a fim de demonstrar a sua solidariedade às vítimas dos ataques terroristas. Em outubro, comemorações após as vitórias iranianas no futebol se transformaram em manifestações anti-governamentais, com colorações pró-americanas.

Muitos aqui também observaram com inveja a iniciativa do governo Bush em suspender as sanções econômicas contra o Paquistão em setembro e em hastear a bandeira dos Estados Unidos na velha embaixada em Cabul, no mês passado.

No entanto, o governo, que fez a primeira revolução islâmica do século 20, ainda organiza protestos contra os Estados Unidos. Isso explica os slogans anti-americanos, recém-pintados, que decoram a ex-embaixada norte-americana, apelidada de "O Ninho dos Espiões". A instalação é hoje um museu, que recentemente exibiu uma exposição demonstrando como a CIA se envolveu nos assuntos nacionais iranianos.

Durante as orações da sexta-feira, o chefe supremo Ali Khamenei mais uma vez liderou as massas em cantos rituais de "Morte aos Estados Unidos", uma prática suspensa por duas semanas após o 11 de setembro, em respeito ao pesar norte-americano.

Em uma manifestação organizada pelo governo no mês passado, a fim de expressar solidariedade aos palestinos, os participantes criticaram o apoio dos Estados Unidos a Israel. Yasin Shokrani, 20, um dos vários estudantes universitários que participaram da manifestação, disse que os Estados Unidos deveriam dar o primeiro passo rumo a um melhor relacionamento, já que "o Irã foi vítima da injustiça norte-americana". Alguns observadores riram abertamente dos manifestantes.

Um fator responsável pela crescente popularidade dos Estados Unidos é a insatisfação com a taxa de desemprego de 30% e com a queda do nível de vida em um país rico em petróleo, que já foi uma das melhores nações em desenvolvimento do mundo. O entusiasmo por uma democracia no estilo norte-americano também está em alta.

De acordo com vários iranianos, as relações com os Estados Unidos incrementariam a economia e ajudariam a dilapidada indústria petrolífera da nação a levantar US$ 50 bilhões (R$ 114,7 bilhões) em ajuda externa necessária para a modernização. Os empresários iranianos não teriam mais de pagar taxas extras pela tecnologia norte-americana que, atualmente, precisa ser comprada através de intermediários. E os vôos diretos reduziriam pela metade o tempo necessário para que os cerca de dois milhões de iranianos que moram nos Estados Unidos viajem para visitar os seus parentes no Irã.

A avidez por produtos norte-americanos - desde a Coca-Cola até as lingeries da Victoria's Secret - é um sinal da insatisfação com o regime clerical. Dezenas de iranianos, incluindo estudantes, motoristas de táxi e comerciantes, disseram recentemente a um visitante norte-americano, sem aparentar que estariam brincando inteiramente, que desejariam que os Estados Unidos bombardeassem o seu "Taleban" e restaurassem um regime secular no Irã.

Já para outros, a admiração pelos Estados Unidos está misturada à ansiedade com o fato de o país ser a única superpotência. "O sentimento dos iranianos com relação aos Estados Unidos é muito complexo", afirma Mohammad Javad Gholam Reza Kashi, cientista político da Universidade de Teerã.

"Devido ao fato de o governo cantar "Morte aos Estados Unidos", a população tem uma atitude muito positiva com relação ao país. Mas há também as memórias negativas estimuladas pelo bombardeio do Afeganistão". Esses sentimentos são similares àqueles que os cidadãos soviéticos nutriam pelos Estados Unidos uma década antes da queda do comunismo.

As crenças quanto às vantagens de se restaurar relações com os Estados Unidos variam entre as autoridades iranianas. Os reformistas que apoiaram o parlamento eleito e o presidente, Mohammad Khatami, tem falado publicamente a favor de uma melhoria das relações. Já os conservadores, liderados pelo líder espiritual Khamenei, escolhido por um conselho eleito de elementos leais ao regime, têm manifestado ambigüidade. Khamenei tem a palavra final sobre a política. Em um discurso importante, em 30 de outubro, Khamenei disse que a retomada das relações com os Estados Unidos não seria favorável aos interesses do Irã. No entanto, os diplomatas perceberam que ele não incluiu a sua acusação consagrada, segundo a qual tais relações violariam o Alcorão ou a revolução iraniana. Seria de se supor que esses dois últimos fatores fossem imutáveis, enquanto que os "interesses" nacionais poderiam ser redefinidos.

Na verdade, a ala de Khamenei está mais orientada em direção a uma economia de mercado do que vários dos aliados de Khatami, que se preocupam mais com as reformas sociais. E os que apóiam Khamenei se inclinaram na direção de uma reaproximação com os Estados Unidos até Khatami ganhar as eleições de 1997. Agora, eles manifestam relutância em dar uma vitória a Khatami no campo da política externa.

O governo Bush ainda tem que revelar a sua política para com o Irã, além da coordenação de curto prazo com Teerã na guerra do Afeganistão.

As autoridades do Departamento de Estado elogiaram a abordagem "construtiva" do Irã com relação ao Afeganistão, mas ainda manifestam preocupação a respeito do apoio a terroristas palestinos que intensificaram os ataques contra Israel no ano passado. Há um debate em andamento na administração norte-americana que procura decidir entre a possibilidade de se aproximar do governo iraniano, ou esperar que os sentimentos populares forcem as reformas no regime religioso.

As autoridades norte-americanas também estão divididas sobre como lidar com o apoio manifestado no passado pelo Irã aos ataques terroristas contra alvos norte-americanos no exterior. O Irã é acusado de ter auxiliado os terroristas sauditas que explodiram instalações militares norte-americanas na Arábia Saudita, em 1996. Dezenove soldados norte-americanos morreram naquele ataque.

Vários iranianos dizem se sentir embaraçados pelo apoio fornecido pelo seu governo ao terrorismo, além de estarem cansados daquilo que vêem como um desperdício de recursos necessários ao país. Os iranianos são, em primeiro lugar, patriotas e, em segundo lugar, muçulmanos. Eles apontam para a sua história registrada de 2.500 anos e ficam furiosos quando são confundidos com árabes.

"As ruas iranianas são muito mais pró-americanas do que as árabes", diz Afshin Molavi, um escritor iraniano-americano que escreveu o livro, ainda não publicado, "Persian Pilgrimanges" (Peregrinações Persas). "O governo afirma que se preocupa com os palestinos, mas o povo iraniano não tem tal preocupação".

Há muito tempo as autoridades iranianas têm dito que aceitariam qualquer acordo de paz endossado pelos palestinos. O ex-ministro das Relações Exteriores, Abbas Maleki, um conservador influente, disse em uma entrevista que o Irã não pode exigir mais do que os líderes palestinos. "A tigela não pode ser mais quente do que a sopa", disse ele.

O Irã possui a sua própria lista de reclamações contra os Estados Unidos que se interpõe no caminho rumo a melhores relações. Entre elas está o embargo imposto em 1995 pelos EUA, que impede o comércio de praticamente tudo, com exceção de alimentos e remédios. Uma outra reclamação é a prática de os Estados Unidos tirarem as impressões digitais dos visitantes iranianos.

Inseguras e nutrindo uma suspeição profunda quantos às intenções dos Estados Unidos, as autoridades iranianas dizem que temem ser humilhadas caso retomem o relacionamento e as medidas anti-Irã continuem em vigor.

"Suponha que nos sentemos para conversar com os Estados Unidos e eles ainda nos digam que se opõe à passagem de oleodutos pelo Irã", diz Maleki, que atualmente chefia o Instituto Internacional Iraniano para Estudos da Região do Mar Cáspio. "Nós queimaríamos a imagem do Irã no mundo islâmico".

Mas há quem sugira passos mais modestos que Washington poderia tomar para mostrar o seu apoio ao povo iraniano, ainda que não demonstrasse simpatia pelo regime. Os Estados Unidos poderiam contribuir com mais verbas, por meio dos programas das Nações Unidas de combate às drogas, que ajudariam a reduzir o transporte do ópio afegão, que inferniza os dois países. E Washington também poderia parar de se opor à inscrição do Irã para a Organização Mundial do Comércio, que controla o comércio internacional. Segundo os economistas, as mudanças necessárias para que o país se qualificasse para se tornar membro da organização estimulariam reformas que poderiam permitir ao Irã se juntar à economia global.

"Se quisermos ser amigos, não devemos ficar mostrando os dentes ameaçadoramente um para o outro", diz Amir Mohebian, colunista do Relasat, um jornal pró-Khamenei.

Alguns políticos iranianos dizem que Washington deveriam agir pouco enquanto os iranianos resolvessem as suas diferenças internas.

"Enquanto a democracia não for institucionalizada aqui, é irrelevante o fato de haver ou não relações com outros países", diz Abbas Abdi, que estava entre as lideranças estudantis iranianas que tomaram a embaixada dos Estados Unidos em 1979. Atualmente formado em ciências sociais, Abdi afirma que uma pesquisa de opinião com 1,3 mil moradores de Teerã, conduzida um mês após os ataques de 11 de setembro - no momento em que as bombas norte-americanas começavam a chover sobre o Afeganistão - demonstrou que uma pequena maioria crê que ainda não é hora para se restaurar as relações com os Estados Unidos.

Mas Mahmoud Kashani, um candidato independente que disputou sem sucesso a presidência, em junho, diz que, caso fosse eleito, "o dia da minha posse marcaria o início das negociações diretas com os Estados Unidos".

Antigamente era difícil que os políticos falassem com tanta liberdade.

"Nós somos como um casal de noivos, andando por uma alameda, a passos bem lentos", diz Hadi Semati, professor de ciência política da Universidade de Teerã.

Tradução: Danilo Fonseca

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