Salários de astros da TV norte-americana não param de subir

TOM LONG

THE DETROIT NEWS



Em dezembro, Katie Couric, apresentadora do show "Today", da rede de televisão NBC, assinou um contrato segundo o qual receberá US$ 65 milhões (R$ 153,8 milhões) durante os próximos quatro anos. Isso representa um salário anual de mais de US$ 15 milhões (R$ 35,5 milhões).

Compare essa cifra com o salário de uma enfermeira norte-americana, que ganhava em média US$ 46.410 (R$ 109.806) anualmente em 2000, de acordo com o Departamento de Estatísticas Trabalhistas dos Estados Unidos. Ou com os bombeiros, que ganhavam naquele ano US$ 35.260 (R$ 83.425). Ou com os guardas de trânsito, que protegem as crianças no caminho da escola: US$ 19.110 (R$ 45.214).

Ainda no mês passado, foi anunciado que Arnold Schwarzenegger assinou o contrato para fazer "O Exterminador do Futuro 3", tendo recebido um adiantamento de US$ 30 milhões (R$ 71 milhões). E David Hyde Pierce, que faz o papel de Niles Crane na série de TV "Frasier", teria recebido um aumento que fará com que passe a receber algo entre US$ 750 mil e US$ 1 milhão (R$ 1,774 milhão e R$ 2,366 milhões) por cada episódio que filmar. Jane Leeves, que faz o papel de Daphne na série, também recebeu um aumento, passando a receber US$ 400 mil (R$ 946,4 mil) por episódio, o que fará com que o seu salário anual chege a quase US$ 9 milhões (R$ 21,3 milhões).

O astro de "Frasier", Kelsey Grammer, já é o ator mais bem pago da televisão, ganhando US$ 1,6 milhão (R$ 3,78 milhões) por episódio, o que perfaz um salário anual de cerca de US$ 35 milhões (R$ 82,81 milhões).

Acrescente a esse pelotão milionário os astros bem pagos do esporte - Shaquille O'Neal ganha US$ 24 milhões (R$ 56,78 milhões) anualmente, e Wing Nicklas Lidstrom US$ 10 milhões (R$ 23,66 milhões) - e somos obrigados a nos defrontar com a questão das prioridades atuais nos Estados Unidos. Será que a capacidade de ler notícias e entrevistar pessoas de manhã realmente vale 375 vezes mais do que o trabalho de um policial, que ganha cerca de US$ 40 mil (R$ 94,64 mil) por ano? Será correto que um ator secundário de uma série de TV ganhe 64 vezes mais do que um cirurgião bem pago, que salva vidas diariamente, por cerca de US$ 140 mil (R$ 331,24 mil) anuais?

"Alguma coisa está realmente errada quando vemos que essas pessoas ganham salários ridiculamente altos pelo que fazem, enquanto que a população que faz coisas realmente importantes recebe tão pouco", critica Doris VanderMeulen, professora assistente que trabalha com crianças excepcionais na cidade de Saline.

"Houve um tempo em que a compensação estava relacionada àquilo que você fazia", afirma Ron Scott, um ativista comunitário e produtor de TV de Detroit. "Quando ouvi falar da situação de Katie Couric, fiquei pensando sobre como se estabelece o valor de determinada atividade. Será que o critério estaria relacionado ao quanto a face de um indivíduo é conhecida? Não teríamos um método melhor de avaliação caso determinássemos o quanto cada um fornece à sociedade?".

Mas a onda de cheques multimilionários para os superastros não dá sinais de que vá ter fim tão cedo. Tom Brokaw, Larry King, David Letterman, Conan O'Briant Gumbel vão dar início a negociações para novos contratos nos próximos meses, e o salário astronômico de Couric provavelmente vai fazer com que todos eles peçam mais.

"Creio que ela elevou o patamar", afirma Mike Novak, um advogado que atua na indústria de entretenimento, e que trabalhou com Bob Seger, Tim Allen e Kid Rock, bem como com um grande número de talentos do rádio e da TV da área de Detroit. "Toda vez que presenciamos um novo recorde em termos de valor de contrato, os comentaristas dizem que chegamos ao limite final. Quanto Jim Carrey ganhou os seus US$ 20 milhões (R$ 47,32 milhões), o fato foi bastante singular. Hoje é comum que os principais astros ganhem tais somas.

"Eu gostaria de ver no horizonte um fim para essa tendência", afirma Mike Bernacchi, professor de marketing da Universidade de Detroit. "Mas não há nada nesse sentido".

"Cedo ou tarde, somos nós que acabamos pagando o preço desses contratos, já que os preços da indústria de entretenimento sobem e alguém tem que bancar", afirma Bernacchi. "Não se trata de dinheiro de mentirinha. É grana real. E certamente ele não vem dos bolsos dos presidentes das grandes corporações".

No entanto, sob um ponto de vista estritamente empresarial, os salários dos superastros muitas vezes fazem sentido.

"Parece algo bizarro, mas se você encarar a situação da mesma maneira que a companhia, vai chegar à conclusão de que se trata de uma boa decisão empresarial", afirma Novak. "É muito raro que as companhias paguem excessivamente aos seus talentos, por mais que essa seja a impressão que se tenha".

"Katie Couric é um exemplo excelente. Em termos de valor por hora, ninguém no país recebe o mesmo que ela", afirma Novak. "Temos que levar em consideração o que ela representa em termos de audiência e para a companhia como um todo. Ela é muito especial".

Jim Carrey realmente ganhou US$ 20 milhões para fazer "The Cable Guy", e o filme foi, comparativamente, uma decepção. Mesmo assim, essa cifra foi um marco para o aumento de vários astros. Atualmente, Tom Hanks, Tom Cruise, Mel Gibson e Julia Roberts podem todos pedir mais de US$ 20 milhões por um filme.

E as cifras reveladas não chegam a contar toda a história. A maioria dos astros do cinema recebe uma percentagem da arrecadação de um filme, tão logo ele atinja um determinado patamar de bilheteria. Bruce Willis teria abocanhado US$ 50 milhões (R$ 118,3 milhões) com "O Sexto Sentido" e Tom Cruise algo como US$ 70 milhões (R$ 165,62 milhões) com "Missão Impossível", porque o ator também tinha créditos sobre a produção. A TV funciona de forma semelhante: os astros de "Frasier" provavelmente receberão cheques enormes em royalties pelo resto de suas vidas.

Portanto os ricos ficam mais ricos. E mais ricos. E mais ricos. Mas, afinal, é dessa forma que funciona o capitalismo.

"Existe sem sombra de dúvidas uma dicotomia infeliz entre aqueles cujos serviços deveriam ser recompensados de forma apropriada e os astros de cinema e de televisão", afirma o advogado Novak. "Mas, a verdade é que há um número muito maior de professoras capazes do que de apresentadores de televisão talentosos. Katie Couric é recompensada pelo fato de possuir a rara habilidade de fazer algo de especial, aparentando que se trata de uma coisa fácil".

"Trata-se de uma função da oferta e da procura", afirma Novak. "É economia de mercado pura e simples".

"Esta é uma sociedade capitalista na qual as pessoas devem ser capazes de trocar as suas habilidades por tudo que o mercado permita", concorda Gary Anderson, diretor artístico do Plowshares Theatre, de Detroit.

"É... há algo de errado nisso tudo. Neste país, valorizamos as coisas por aquilo que elas custam ou pela quantidade de dinheiro que geram, e não pelo seu valor para a sociedade e para os seres humanos", afirma Anderson. "É ridículo. Sou norte-americano. Acredito que as pessoas devem ser capazes de ganhar aquilo que podem", acrescenta. "Porém, creio que, como sociedade, temos que avaliar exatamente o quanto vale o trabalho das pessoas".

Tradução: Danilo Fonseca Sociedade

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