Após anos fora da escola, meninas afegãs estão ansiosas para voltar a estudar

GREGG ZOROYA

USA TODAY



CABUL, Afeganistão - Fortemente agasalhada devido ao frio na sala de aula, a professora da quarta série, Diana Nadri, dá uma aula de ciência para as suas alunas, falando sobre a água. Várias dessas adolescentes se esforçam para recuperar o tempo perdido, após terem sido banidas durante cinco anos da sala de aula pelo Taleban.

"A água é o maior presente de Deus para os seres vivos", diz ela. "Sem água, a vida é impossível".

As garotas se agacham no chão de cimento ou sentam-se nas ruínas, compostas de estruturas de vergalhões, daquilo que no passado já foram carteiras de estudantes mas que, agora, não possuem mais o revestimento de madeira. Nadi rabisca a lição com um giz em um pedaço de compensado que serve como quadro-negro. Não há sistema de aquecimento, janelas ou tapetes. Nem tampouco livros, papel ou lápis.

Mesmo assim, há dezenas de professoras e milhares de alunas nesta escola para meninas, recém-reaberta. Assim como a água, sobre a qual Nadri fala na aula de ciência, a educação aqui goteja sobre as mentes áridas e ressecadas das jovens meninas afegãs, como se fosse chuva em uma paisagem assolada pela seca.

"Para nós, estudar é algo como um piquenique", diz Ahtefa Sarjoghi, de 18 anos, que está no segundo ano do segundo grau.

Duas semanas atrás, esse amplo complexo de primeiro e segundo graus, a Escola para Garotas Zargouna, não passava de uma grande ruína. Mas uma rede não oficial formada por ex-professoras e administradoras, incluindo a diretora da era pré-Taleban, Alia Hafize, de 54 anos, começou a organizar as aulas em resposta à promessa feita pelo governo interino, em 22 de dezembro, no sentido de dar educação para meninos e meninas.

Segundo Peter Medway, gerente de projetos de emergência do Fundo para as Crianças das Nações Unidas, o lugar estava completamente vazio em um dia, e, no dia seguinte, havia professoras e alunas organizando as aulas, em um ambiente de muita simplicidade. O número de crianças matriculadas, a grande maioria meninas, aumentou diariamente em 200 ou 300, à medida que a novidade se espalhava. Hoje há quase três mil alunas na escola.

"Para mim, foi algo de inacreditável", afirma Hafize, que desafiou a lei Taleban, ao levar clandestinamente meninas para a sua casa, a fim de que recebessem aulas secretamente. "Eu não podia imaginar que me tornaria novamente diretora".

"Na verdade, nós não prevíamos esse tipo de recomeço espontâneo", afirma Medway, que tinha uma agenda de encontros comunitários preparada. Ela ficou surpresa ao ver que as moradoras tomaram a iniciativa, sem contar com implementos básicos, manutenção ou salários para as professoras. "Este fato indica o grau de comprometimento das professoras e dos pais das alunas com essa causa".

Uma das alunas de Nadri é Homira Asghira, de 14 anos, que tem as feições suaves emolduradas por um xale preto sobre a cabeça. Após repetir solenemente a lição do dia sobre a água, Homira vai para o corredor e desabafa a sua frustração devido aos anos de escola perdidos, e a ameaça aos seus sonhos de um dia ser médica. "Eu estava totalmente desesperada", conta ela. "Não permitiam que eu estudasse e nem que fosse útil para o meu país".

Esses são temas familiares para as meninas daqui: tempo perdido, oportunidades perdidas e uma sensação de terem sido deixadas para trás. A interpretação radical da lei islâmica feita pelo Taleban transformou as meninas e mulheres jovens em virtuais prisioneiras em suas próprias casas.

"É claro que foi algo de muito entediante para nós", afirma Friba Sufy, de 21 anos, que está no terceiro ano do segundo grau, e sonha em um dia ser jornalista. "Foram cinco anos. Se essa situação tivesse continuado por mais um ano, eu teria enlouquecido".

Ela e outras colegas tentaram estudar em casa. Sufy dave aulas sobre o Alcorão às crianças mais novas. Muitas acham que a situação dos garotos não era muito melhor, já que eles viviam confinados, estudando uma visão estreita do islamismo nas escolas públicas.

"Se o Taleban não tivesse subido ao poder, eu estaria no terceiro ano universitário", lamenta Tuiba Habib Rasolle, de 20 anos, que quer seguir os passos profissionais do pai, que é médico. Ela está no terceiro ano do segundo grau, o mesmo grau de escolaridade que tinha em 1996, quando o Taleban assumiu o controle do país.

No início da década de noventa, a Escola Zargouna era um próspero centro de ensino para 4.800 meninas. Sob o regime Taleban, ela se tornou um local de estrita instrução religiosa para um número cada vez menor de garotos, confusos com o currículo radical. A escola finalmente foi fechada, quando o governo radical islâmico deixou Cabul.

Funcionários de organismos internacionais de auxílio, tais como a Unicef, acreditam que a organização e a reabertura desta e de outras escolas está entre as tarefas mais delicadas que a comunidade internacional tem pela frente. Mas os moradores locais estavam adiante desses funcionários, em termos de planejamento e iniciativa.

Safia Hayat, a vice-diretora encarregada de educação, tem a expressão cheia de orgulho quando mostra a escola aos visitantes.

"Nem posso dizer o quanto estou feliz", diz ela. "O Taleban achou que ficaria aqui para sempre. Mas agora eles caíram".

Assim como outras funcionárias e estudantes, ela abandonou o uso da burca nas instalações da escola. A vestimenta que cobre o corpo todo, cujo uso era obrigatório, continua sendo uma espécie de hábito. As mulheres detestam a burca, mas se sentem desconfortavelmente expostas sem ela, quando andam pelas ruas. Como resultado, quando as mulheres e garotas entram nas instalações da escola, há uma "onda azul", na medida em que dezenas delas retiram as burcas ao mesmo tempo.

Os pais dizem que durante os anos do Taleban se esforçaram para dar educação às suas filhas, através das aulas ilegais, uma prática que poderia resultar em prisão ou tortura para os maridos e pais. Anisa Omar, de 39 anos, natural de Cabul e esposa de um engenheiro civil, diz que a sua filha, Hoemira, de 14 anos, lutou para se manter atualizada através dos seus estudos clandestinos. No entanto, a garota permanece tristemente na sexta série, enquanto que o irmão de 13 anos, já está no primeiro ano do segundo grau. "Sinto pena da minha filha", afirma Omar.

Uma outra mãe, Malike Rizazada, de 34 anos, que planeja recomeçar a sua carreira de professora de biologia, está frustrada.

"Eu não gosto de me meter com política, mas o que sei sobre o Taleban é que os seus membros eram contra as mulheres e contra a humanidade. Eles eram especialmente contra a educação das mulheres", acusa Rizazada. "No Afeganistão, há muitas mulheres intelectuais".

Assim que o governo interino anunciou que as garotas retornariam às escolas públicas, ela logo matriculou as duas filhas, de 12 e 10 anos, na Zargouna. "Não ligamos para a falta de carteiras, quadros negros e giz. Podemos aprender sentadas sobre um tapete estendido no chão".

Atualmente, as professoras trabalham literalmente de graça. A única fonte de renda da escola advém daqueles pais que conseguem pagar 20 mil afeganis mensais por criança, algo em torno de R$ 2,50. Mas quase 80% das crianças estão no nível da pobreza. A renda familiar é escassa.

Mas, segundo Hafize, bem mais preocupante é a falta de itens fundamentais: fornalhas para aquecimento, carpetes para serem colocados sobre o chão de cimento, carteiras escolares e janelas.

A Unicef está ajudando. Além de fornecer material básico de aprendizado, como quadros negros, giz, livros, cadernos, canetas e lápis, a organização está promovendo seminários de atualização, com a duração de dez dias, em matemática, ensino da língua, direitos das crianças e conscientização quanto aos perigos representados pelas minas explosivas. E a organização está contratando trabalhadores para construir fornalhas a lenha e vasos sanitários, consertar portas e janelas e tapar buracos feitos por projéteis de artilharia nas paredes externas.

"A educação é tremendamente necessária para o nosso povo. Para a população, a educação é como um copo d'água para uma pessoa sedenta", diz Hamidulla Hatam, chefe de planejamento e de administração de ajuda estrangeira do Ministério da Educação do governo interino.



Tradução: Danilo Fonseca Pós-Taleban

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