Camponeses afegãos voltam a cultivar papoulas para a produção de heroína

GREGG ZOROYA

USA TODAY



CANDAHAR, Afeganistão - O velho lavrador, usando roupas empoeiradas e dotado de uma barba que parece ter saído do Velho Testamento, anda rapidamente pelo seu terreno meticulosamente cultivado e diz que sabe que as papoulas que crescem sob os seus pés estão matando pessoas.

"A culpa não é minha", justifica-se Abdul Ghafer, de 70 anos, negando sem muita convicção a sua responsabilidade.

Quando as papoulas florescerem, dentro de três ou quatro meses, Ghafer vai extrair a essência contida na cápsula dura que existe em cada botão. O líquido branco será transformado em ópio, que algum laboratório distante processará, fazendo a heroína para atender aos viciados, especialmente na Europa.

Com o passar dos anos, esse tipo de lavoura de pequena escala e de fundo de quintal se multiplicou astronomicamente no Afeganistão, chegando a produzir até cinco mil toneladas métricas de ópio nos anos de boas safras, o que representa três quartos da produção mundial. Nem mesmo a repressão a essa atividade, realizada pelo regime fundamentalista Taleban, conseguiu dar um fim ao lucrativo negócio.

Agora, no momento em que este país devastado pela guerra está mergulhado no caos, as realidades econômicas fazem com que seja quase impossível para o frágil governo afegão, ou mesmo para as agências internacionais, subsidiar outras culturas, possibilitando que Ghafer e outros camponeses abandonem essa atividade que rende fortunas inimagináveis para o cidadão afegão comum.

Desde que o Taleban abandonou Candahar e as províncias vizinhas no ano passado, lavradores pobres como Ghafer se apressaram a retomar o cultivo de pequenos pedaços de terra. Este ano, Ghafer vai faturar até US$ 16 mil (R$ 39 mil) em um país onde a renda per capita é de apenas US$ 800 (R$ 1.950).

O dia do lucro não vai demorar. No trecho que cultivou, as papoulas, irrigadas pela água que é bombeada de um poço até as pequenas valetas, já estão exibindo os seus brotos, como se fossem pequenas folhas de alface, destacando-se no solo escuro e fértil. O campo, dividido com esmero em retângulos de 3m por 4m, e protegido por muros altos, fica dentro do perímetro da cidade, estando a apenas alguns quilômetros do palácio do governador recém-nomeado da província de Candahar, Gul Agha Shirzai.

Segundo Ghafer, o dinheiro gerado pelas papoulas é muito significativo para ser desprezado. "Se o governo nos ajudasse, e nos pagasse, não cultivaríamos mais as papoulas", diz ele, enquanto se equilibra sobre um canal de irrigação que corta a sua lavoura de papoulas. "Sabemos que esse produto não é bom para a saúde das pessoas".

Ghafer está se referindo a incentivos - pagamentos em dinheiro vivo para fazer com que os camponeses abandonem a lucrativa plantação de papoulas. Mas, para o governo interino de Hamid Karzai, financeiramente estrangulado, os subsídios não se constituem em uma prioridade na luta para reconstruir uma nação após 23 anos de guerras.

Durante os seus primeiros anos no poder, o Taleban não colocou empecilhos ao cultivo da planta narcótica, iniciado na região em 1994. Mas, em 2000, o líder do Taleban, o mulá Mohammed Omar, baniu a produção de papoulas, taxando-a de "anti-islâmica". Como resposta, os Estados Unidos forneceram uma ajuda monetária de US$ 43 milhões (R$ 104,83 milhões) ao Taleban, em maio do ano passado, devido ao sucesso da campanha do regime para a erradicação das plantações de papoula.

Mesmo após o decreto do Taleban, o cultivo da papoula continuou de forma esporádica. Segundo as autoridades locais, apesar da proibição ter desencorajado um grande número de plantadores de papoula a cultivar a flor, devido ao medo da reputação do Taleban em aplicar punições severas, a lei nunca foi ativamente obedecida. Chefes da produção da droga, como Hadji Bashir, de Maiwand, um vilarejo vizinho, permaneceram como colaboradores chave do Taleban e fornecedores de verbas para o regime. Os camponeses locais afirmam que continuaram a cultivar a planta clandestinamente.

Quanto a Bashir, ele apareceu na base militar do Estados Unidos em Candahar no início deste mês, afirmando que tinha informações importantes. Após ser interrogado, ele foi liberado, tendo prometido parar de traficar drogas.

No dia 16 de janeiro, com o Taleban em debandada e toda a pressão internacional para impedir a retomada do tráfico de drogas, Karzai tornou a baixar a lei que proíbe o cultivo de papoulas. "Quem desobedecer será tratado com rigor", diz o decreto. A lei foi implementada apenas alguns dias antes da conferência de Tóquio, nos dias 21 e 22 de janeiro, onde os grandes países doadores prometeram fornecer uma ajuda de US$ 4,5 bilhões (R$ 11 bilhões) em um período de cinco anos, a fim de auxiliar na reconstrução do país.

Mas os camponeses daqui e da vizinha província de Helmand, onde a papoula é uma cultura ainda mais importante, estão desprezando o novo decreto do governo. A província de Nangarhar, no extremo leste do Afeganistão, é um outro foco de cultivo de papoulas.

"Não estou preocupado com esse decreto", afirma Ghafer. "Eu diria a Karzai: 'Este é o meu trabalho, é o que eu faço para sobreviver'". Ele plantou as sementes de papoula tão logo o Taleban deixou Candahar, em dezembro.

Mesmo assim, ele não é nenhum tolo. Por detrás dos altos muros, a sua lavoura de papoulas está escondida entre pés de nabo, batata e cebola. Em uma cidade onde a maioria das casas é cercada por muros, a sua plantação não é visível e, quando observada pelo lado de dentro, chega a ser pitoresca. Com as suas paredes arruinadas rebocadas com barro, as construções de tijolos e um pomar de macieiras e laranjeiras espalhadas pelo terreno, o local tem aquela aparência pacífica, típica da segunda maior cidadã afegã.

"Adoro caminhar por aqui e trabalhar. É um bom lugar", diz Ghafer. "Ele faz bem à minha saúde".

Mas o local é também lucrativo, e é por isso que esse tipo de área cultivada é encontrado por toda a região. A dez quilômetros de Candahar, em um local que fica a uma distância discreta de cerca de 200 metros da estrada que leva a Herat, no noroeste do país, um grupo de camponeses - cada um dono de terrenos de cerca de quatro mil metros quadrados - trabalha com os dedos no solo recém irrigado a fim de expor os pequenos brotos das papoulas plantadas apenas alguns dias antes.

"Sei que muita gente morre por causa desta planta", admite o camponês Ali Jan, de 30 anos, que vive nas vizinhanças com a mulher e oito filhos. "Mas, infelizmente, somos pobres e precisamos ganhar dinheiro com as papoulas. Precisamos comer. Temos também que comprar roupas e outras coisas".

Os camponeses dizem que estão ansiosos por saber se o governo de Karzai vai oferecer incentivos, e eles prometem aceita-los. Depois que a ajuda internacional foi prometida, há apenas uma semana, não houve mais debate público sobre incentivos para sustentar a nova lei.

As Nações Unidas afirmam que, devido ao fato de a organização ter apenas recomeçado a se fazer presente em Cabul, os seus técnicos ainda estão elaborando planos para acabar com o cultivo da papoula. Entre as idéias que têm emergido para lidar com a colheita deste ano está a de utilizar fundos internacionais para comprar a produção, assim que ela for colhida, em março, e estabelecer centros de combate às drogas nas áreas-chave, segundo o porta-voz Kemal Kurspahic, do Departamento de Controle de Drogas e Prevenção da Criminalidade da ONU.

"Se contarmos com os subsídios, prepararemos a terra para o cultivo de trigo e árvores frutíferas", promete Jan.

O governo e as autoridades da ONU admitem que uma simples lei que proíbe o cultivo da papoula, ainda que acompanhada de operações de repressão, não vai resolver o problema. Tão logo o decreto de Karzai foi baixado, o Departamento de Controle de Drogas e Prevenção da Criminalidade, com sede em Viena, disse que incentivos para desencorajar o cultivo da papoula são absolutamente essenciais.

"A administração interina do Afeganistão precisa fornecer assistência imediata aos camponeses, como um primeiro passo para proporcionar um desenvolvimento alternativo sustentável, onde as culturas comerciais substituiriam a produção de ópio como fonte de subsistência da população rural", disse a agência.

Até mesmo o conceito de fornecimento de incentivos é motivo de polêmica para a liderança afegã. No governo provincial de Gul Agha, que provavelmente seria o canal para o fornecimento de tais incentivos, o conselheiro Yousuf Pashtun diz que vai protestar contra subsídios em dinheiro. Ao invés disso, segundo Pashtun, ele vai solicitar assistência governamental para fazer com que a irrigação seja mais acessível aos pequenos agricultores.

No escritório do Programa Mundial de Alimentos, da ONU, em Candahar, o encarregado do programa, Sikender Hyatt Khan, diz que o problema se resume à renda pessoal. "Estamos falando de famílias pobres que estão simplesmente tentando sobreviver. A menos que possamos fornecer a eles algo que possa garantir sua sobrevivência, eles continuarão a cultivar a papoula", adverte Khan.

Esta região tem sido por muito tempo um centro agrícola, mas as papoulas nem sempre foram o principal produto. Durante séculos, Candahar e as regiões vizinhas foram famosas pelas suas frutas: figos, pêssegos, cerejas, melões, uvas e romãs. O escritor e jornalista paquistanês Ahmed Rashid, nos seus trabalhos sobre o Afeganistão, diz que os frutos cultivados aqui eram vendidos em locais tão distantes quanto Calcutá e Nova Délhi, na Índia.

Quando os soviéticos invadiram o Afeganistão, em 1979, a luta entre as tropa russas e os guerreiros mujahedins destruiu os complexos sistemas de canais que irrigavam os pomares. As tropas soviéticas derrubaram as árvores e acabaram com os canais de irrigação, no intuito de eliminar possíveis esconderijos para os guerrilheiros.

Os campos foram extensamente minados. Ghafer afirma que perdeu dois filhos, de 20 e 16 anos, na explosão de uma mina, quando os garotos trabalhavam na terra, em um local nas imediações da cidade, em 1992. A atividade agrícola foi prejudicada ainda mais por uma seca devastadora, que agora parece estar entrando no seu quarto ano consecutivo.

A ONU possui um agressivo programa de remoção de minas em execução em todo o Afeganistão, mas pode levar algo entre cinco e dez anos apenas para livrar as grandes cidades desses explosivos. Várias agências de auxílio humanitário, como a Mercy Corps e a Care, possuem programas próprios para recuperar os canais de irrigação, mas, também nesta área, muita coisa precisa ser feita.

Os mujahedins nos anos oitenta, e depois os talebans nos noventa, lucraram com o dinheiro advindo da produção e distribuição do ópio. Antes de ter decretado a proibição, o Taleban aplicava um imposto islâmico, o zakat, sobre todo o comércio de ópio. Segundo Rashid, o Taleban ficava com até 20% do valor da produção bruta, antes de ela deixar o país para ser processada para a revenda.

Vários agricultores estão atualmente presos a um ciclo de produção de papoula. Eles recebem dinheiro adiantado de traficantes e precisam produzir as papoulas para pagar a dívida.

A planta exige muito trabalho e água. Ela tem que ser cultivada com o espaçamento adequado de outras plantas a fim de que as flores possam se desenvolver. E isso requer uma irrigação constante.

A coleta da substância leitosa das sementes imaturas da flor é uma tarefa estafante e que demanda muito tempo, no calor do verão. As cápsulas da flor têm que ser perfuradas. A seguir os agricultores utilizam os dedos para espremer a substância branca e aderente, um processo repetido diariamente até que a flor não libere mais líquido.

O ópio cru, que se transforma em uma espécie de goma, é modelado em blocos chamados de tor para ser vendido aos traficantes. Para a produção desses blocos, muitas vezes é necessária a contratação de mão-de-obra adicional para trabalhar nos terrenos de meio hectare.

É um trabalho duro, mas o solo rico da região é ideal para a cultura da papoula.

"O solo é fofo e úmido e não possui salinidade", afirma Ghafer, agachando-se e rompendo um torrão da terra escura com as mãos. "A terra é boa". Anualmente, ele e outros agricultores produzem cada um algo entre 22 e 27 quilos de ópio cru nos seus terrenos.

Ghafer diz que a sua cultura alternativa seria o trigo. Os lucros seriam apenas uma pequena fração daquilo que recebe pela safra de papoula, mal dando para garantir a subsistência da família, afirma. Segundo certas estimativas, os agricultores obtêm um lucro oito vezes maior com a papoula do que com culturas tradicionais, tais como o trigo.

Nos campos a oeste de Candahar, o agricultor Jan diz que, caso Karzai tente impor seu decreto sem oferecer incentivo aos lavradores, ele e os colegas vão simplesmente fazer o que faziam quando vigorava a proibição imposta pelo Taleban: cultivar a papoula clandestinamente em suas casas.

Nos campos de papoula, junto com ele e outros camponeses está Mohammad Akbar, de 35 anos, cuja tarefa é comprar os blocos de tor a cada estação e transporta-los para o noroeste, até Herat.

Lá, segundo Akbar, ele vende o produto para homens que trabalham para o governador local, Ismail Khan, que, como Gul Agha, é um chefe de clã que voltou à região, a fim de retomar o poder após a saída do Taleban.

De Herat, pacotes de material cru são levados para centros de processamento da heroína, próximos à fronteira com o Irã.

Caso os subsídios para os camponeses sejam fornecidos e Karzai obtenha sucesso em acabar com a produção de papoulas, Akbar ficará desempregado. Não haverá subsídios para os transportadores da droga. Ele dá de ombros.

"Eu abandonaria esse negócio e passaria a vender carros", afirma.



Tradução: Danilo Fonseca Afeganistão

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