Vítima do atentado de 11 de setembro luta para se recuperar de queimaduras

MELISSA KLEIN
The (Westchester, N.Y.) Journal News



WHITE PLAINS, Estado de Nova York - Começando pelo dedo indicador arroxeado, e indo vagarosamente até o dedo mínimo, Dan Lynch flexiona cuidadosamente cada um dos dedos da mão direita de Harry Waizer, até que eles toquem a palma, segurando-os nessa posição até que o punho fique fechado.

"Isso que ele está fazendo é uma tortura para mim", reclama Waizer.

Lynch, terapeuta ocupacional do Burke Rehabilitation Hospital, é um especialista em infligir esse tipo de dor nos pacientes. Os dedos queimados de Waizer têm que ficar nessa posição, não importa a intensidade da dor, por pelo menos meia hora. A dor aumenta a cada minuto.

"Tenho a impressão de que vou perder o juízo, tamanha é a dor. Chega um momento que eu suplico a ele para parar", diz Waizer.

"Só mais cinco minutinhos", é a resposta usual de Lynch.

Esse é o ritual matutino de Harry Waizer.

Enquanto os vizinhos pegam as suas xícaras de café da manhã sem dificuldade, Waizer luta para recuperar a coordenação e a força das suas mão, que já possibilitaram que ele escalasse uma montanha canadense durante as férias com a família.

O conselheiro fiscal da firma Cantor Fitzgerald estava no elevador do World Trade Center, no dia 11 de setembro, a caminho do 104º andar da Torre 1, quando o primeiro avião seqüestrado atingiu o arranha-céu. Embora tivesse sofrido queimaduras intensas, ele conseguiu descer 78 andares pela escada e escapar com vida.

Ele agora enfrenta o duro desafio da recuperação.

"Sobrevivi às chamas e agora tenho que sobreviver às seqüelas deixadas por elas", lamenta Waizer. "Não me recuperar com sucesso seria para mim algo equivalente a ter morrido no fogo".

Waizer é um dos que tiveram sorte. Todos os que trabalhavam nos escritórios da Cantor Fitzgerald naquela manhã, um total de 657 pessoas, morreram após o avião ter se chocado com a torre, fazendo com que a estrutura desmoronasse.

Waizer se recorda do elevador caindo e de dois incêndios. Ele tentou extinguir um deles batendo no fogo com algo que não se recorda. O outro consistiu em uma bola de fogo que se explodiu como um flash contra a sua face e sumiu.

O elevador parou no 78º andar onde, miraculosamente, as portas se abriram. Waizer saiu do elevador e por um instante ficou pensando se levava ou não a sua maleta executiva. Ele optou por deixar a maleta no chão e se dirigiu para as escadas, já tomadas por uma multidão de pessoas em debandada.

Waizer gritou que estava ferido e que precisava passar. Ele disse que viu o olhar de ressentimento na face de todos que se voltaram para olha-lo.

"Foi então que eles viram o meu rosto e ficaram boquiabertos", conta.

Mais ou menos na altura do 50º andar ele esbarrou com alguém que subia - provavelmente um bombeiro. O homem deu meia-volta e guiou Waizer até o térreo, gritando durante a descida para que as pessoas se afastassem e dessem passagem à vítima de queimaduras.

Assim que saíram do prédio, os dois andaram pela rua procurando por uma ambulância. Waizer foi levado diretamente para o centro de queimaduras onde permaneceu consciente por um período suficiente para que fornecesse a alguém o seu nome, o nome da mulher, o seu endereço e o número do telefone.

Quando Karen Walsh Waizer chegou ao hospital, Harry Waizer estava quase irreconhecível devido às queimaduras e aos inchaços, mas o seu anel de casamento - que estava com uma enfermeira - não deixou dúvidas quanto à sua identidade.

Segundo o médico Roger Yurt, diretor do centro de queimaduras, as chances de sobrevivência de Waizer, quando ele deu entrada no hospital, eram de 50%.

O maior problema enfrentado por Waizer foram as queimaduras químicas nos pulmões, causadas pelos subprodutos do incêndio.

"É bem possível que ele tenha inalado um pouco de combustível de avião, já que as lesões nos pulmões foram muito graves", conta Yurt.

Waizer foi colocado em um respirador artificial e sedado, tendo ficado nesse estado por oito semanas. Ele teve infecções, um coágulo sanguíneo e convulsões. Waizer passou por quatro cirurgias para remover a pele queimada e substituí-la por enxertos.

Karen Waizer manteve uma vigília diária no hospital. Ela leu textos sobre reflexologia para aprender a massagear os pés do marido, a única parte do seu corpo que podia tocar.

No início de novembro, Waizer tinha apresentado uma melhora suficiente para que a medicação fosse suspensa. Todos os seus músculos haviam se atrofiado, incluindo aqueles em torno da boca, de forma que ele não era sequer capaz de articular palavras. No início Waizer se comunicava apontando para letras em um quadro.

Ele só sabia sobre aquilo pelo qual tinha passado em 11 de setembro, mas não sobre os ataques terroristas.

"Todos ficavam me falando que eu tinha que dizer a ele o que acontecera", conta Karen Waizer. "Mas ele tinha que se recuperar, e como ficar curado se você fica sabendo de repente que todos os seus companheiros de trabalho estão mortos e que as torres desmoronaram?".

Passaram-se apenas alguns dias para que Waizer, em um sussurro quase inaudível, perguntasse à mulher o que tinha acontecido.

Os olhos de Waizer se arregalaram quando ele ouviu falar dos aviões.

"Ele me perguntou qual andar tinha sido atingido pelo avião", diz Karen. "E foi nesse momento que ele ficou sabendo que a Cantor Fitzgerald havia sido atingida em cheio".

Waizer começou a citar os nomes de companheiros de trabalho e a sua mulher balançava a cabeça em um sinal negativo a cada um desses nomes, indicando que estavam mortos.

Quanto os três filhos de Waizer - Katie, de 13 anos; Joshua, de 12; e Jodi, de 10 - puderam finalmente visita-lo em novembro, o encontro foi pungente e doloroso.

"Ele não podia sequer levantar os braços para abraça-los", diz Karen Waizer.

Waizer começou a fazer exercícios de reabilitação física na unidade de queimados, onde os fisioterapeutas o colocaram de pé. No dia em que ele deu dois passos os médicos e enfermeiras aplaudiram e choraram.

Para Waizer, aquele foi um momento ambíguo, onde se misturavam uma sensação de realização e uma outra de perda.

"Por um lado, reconheci que realizara algo de importante", diz ele. "Por outro lado, me veio à cabeça o pensamento de que três meses antes eu descia pelas paredes de uma montanha. E ali estava eu, sendo aplaudido por dar dois passos. Meu Deus, o que o futuro me reserva?"

Waizer deixou o hospital em 19 de novembro, embora estivesse muito longe de estar curado. A cicatriz do rosto fazia com que a pálpebra do olho esquerdo fosse puxada para baixo e virasse ao avesso, tendo sido necessária uma cirurgia para corrigir o problema. Waizer também sofreu de uma forte dor na coluna, o que fez com que tivesse que ficar imóvel, recebendo compressas de gelo, após apenas cinco minutos de exercícios.

Um exame de ressonância magnética revelou a existência de um abscesso próximo a sua coluna, que mais tarde se descobriu estar infeccionada.

Waizer retornou ao New York Presbyterian Hospital para tratamento, passando por um período frustrante de 12 dias que adiaram a sua recuperação.

Durante 23 horas por dia, as mãos, os braços e as pernas de Waizer ficam cobertos por trajes de compressão elástica, a fim de minimizar a intensidade das cicatrizes. Ele terá que usa-las por pelo menos um ano. Quando as crostas dos ferimentos secarem e caírem do seu rosto, ele usará uma máscara de compressão.

A princípio os médicos não sabiam se ele seria capaz de recuperar as funções das mãos, mas a dor da terapia acabou valendo a pena.

"Hoje de manhã eu acordei e escovei os dentes sozinho", diz Waizer. "Algumas semanas atrás eu não seria capaz de realizar esta façanha".

O médico Richard Novitch, diretor de recuperação pulmonar de Burke afirma que Waizer está melhorando muito.

"Tem sido um grande prazer cuidar dele, e, felizmente para Waizer, acho que o seu futuro parece bem promissor", diz ele. "Ele terá que enfrentar problemas, mas vai voltar a viver a sua vida, e retornar ao convívio familiar".

Waizer afirma que o crédito pela salvação da sua vida pertence aos médicos e enfermeiras da unidade de queimados e que a recuperação dos seus movimentos só foi possível devido à equipe de Burke. Mas, acima de tudo, ele agradece à sua esposa, com quem é casado há 17 anos.

"A recuperação é cansativa, e por vezes desalentadora", diz Waizer. "Ela não me deixaria desistir. Não importa o quanto achemos que somos fortes, precisamos de uma força extra nessas circunstâncias. É necessário ter alguém atrás de você que te empurre".

Waizer espera retornar à sua casa este mês. E, ao olhar para a esposa, vê um objeto que ela traz próximo ao coração. É um colar com o seu anel de casamento, que ela usa no pescoço desde 11 de setembro.


"Tenho que lhes dizer que esse símbolo é tão importante para mim que eu não vejo a hora em que possa voltar a usa-lo no dedo", afirma Waizer no seu leito de hospital.



Tradução: Danilo Fonseca Terror

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