Médicos americanos reconstroem uma face e uma vida

ROBERT DAVIS

USA TODAY



Mark Tatum vai literalmente vestir uma face nova na próxima segunda-feira.

O homem de 45 anos, de Owensboro, Kentucky, vai colocar uma face artificial - uma prótese de plástico - para cobrir um terrível buraco no rosto causado por uma grave sinusite que quase o matou dois anos atrás.

"Foi terrível", conta. "A dor se concentrava principalmente nos meus olhos. Eu disse à minha esposa que não sabia o que estava se passando comigo e tive que ir para o hospital".

Lá, os médicos tentaram conter uma massiva infecção causada por fungos, conhecida como mucormicose, que estava devastando os tecidos quentes e úmidos dos seus seios paranasais.

Esse fungo é comum em pães mofados, alimentos estragados e no solo. Mas a maior parte dos sistemas imunológicos humanos o combate sem nenhum problema. Tatum sofria de diabetes e tinha recebido recentemente uma série de injeções de esteróides para se livrar de dores nas costas e nos ombros. Os médicos acreditam que essa combinação de problemas de saúde tenha comprometido o seu sistema imunológico em um grau suficiente para permitir que o fungo se alastrasse, embora os médicos afirmem que nunca saberão exatamente o que aconteceu com Tatum.

Logo após ele ter dado entrada no hospital em Owensboro, a sua infecção não pôde ser debelada nem pelos melhores remédios disponíveis.

"Os médicos reuniram a família e todos os meus amigos, e disseram, 'Mark, podemos te levar para casa e deixar que você parta sem dor' - em outras palavras, me deixar morrer - 'ou podemos te transportar até Louisville e tentar remover o tecido atingido. Mas não podemos garantir nada'. Eu disse imediatamente, 'Com todos os diabos! Me levem para Louisville!".

No momento em que chegou ao hospital da Universidade de Louisville, algumas horas depois, ele tinha perdido a visão de um olho e o outro já começava a dar sinais de estar sendo danificado.

Na sala de operação, os médicos removeram os seus olhos, nariz, palato duro, palato mole, dentes da arcada superior e outros tecidos. Depois a equipe esperou para ver se Tatum, um guarda de segurança, sobreviveria ao trauma da cirurgia.

"Quando ficou claro que ele sobreviveria, nos solicitaram que entrássemos na sala do paciente para avaliar o que poderíamos fazer", conta o cirurgião plástico Wayne Stadelmann. "O próximo passo seria a reconstrução da porção média da sua face".

Primeiro, Stadelmann reconstruiu o palato duro e outras partes do topo da sua boca, de forma que Tatum pudesse voltar a comer.

Tatum conta que ficou sedado, dormindo durante a pior parte de todo o processo. "A próxima coisa de que me lembro foi de ter acordado dois meses depois", conta.

A seguir, o cirurgião plástico pediu a opinião de Zafrulla Khan, um cirurgião especializado em próteses faciais. Khan planejou uma forma de cobrir a cavidade onde existira a face de Tatum.

O mais freqüente é que esse tipo de prótese seja feito para pacientes de câncer ou vítimas de acidentes traumáticos, que chegam a perder até a metade de seus rostos. É extremamente raro que alguém sobreviva a uma infecção como a de Tatum, tão grave que consumiu toda a porção média da sua face. Khan disse que a face poderia ser feita, mas que seria pesada.

Portanto, Stadelmann teve que construir alguns pontos de apoio para a prótese.

Ele tirou pedaços de osso e de pele do calcanhar de Tatum e, no verão de 2000, construiu uma estrutura óssea que serviria como apoio à face artificial. Mais tarde, alguns ganchos foram inseridos nos ossos transplantados. A seguir uma estrutura de metal, que Khan chama de "superestrutura", foi fixada aos ganchos. Cada operação exigiu meses de recuperação, de forma que os ossos e as partes de metal pudessem se fundir.

Só então Tatum estava pronto para receber a nova face.

Uma porção de silicone similar àquela que transformou o ator Robin Williams em "Uma Babá Quase Perfeita" fica sobre uma estrutura plástica conectada à "superestrutura" por meio de ímãs.

O rosto custa cerca de US$ 3.200 (R$ 7.760). No total, a despesa médica de Tatum ficou em cerca de um milhão de dólares (R$ 2,42 milhões).

Khan e a sua equipe esculpiram a face usando fotos que mostravam o rosto do paciente antes da infecção. Mas a maior parte das informações foi proporcionada por Nancy, a mulher de Tatum.

"O apoio familiar que ele recebeu, especialmente da mulher, foi tremendo", diz Khan, que já havia ajudado pacientes com problemas similares advindos do câncer e de tentativas de suicídio com espingardas de cartucho. Mas ele nunca vira um paciente com uma destruição facial tão extensa quanto aquela causada pela infecção que atingira Tatum.

"Algumas vezes a família recua", diz Khan. "Mas não no caso de Mark. A sua família ficou ao seu lado o tempo todo. Ela é a sua espinha dorsal que lhe dá sustentação".

Se Nancy é a espinha dorsal de Tatum, Leah Tatum é a luz dos seus olhos.

A sua neta de dois anos o chama de "Pa-Pa". Ela só o conheceu como o homem sem face.

"Ela diz, 'Pa-Pa não tem olhos. Pa-Pa não tem nariz'", diz Tatum. "Mas ela também diz, 'Ele vai te-los de volta'".

Com o seu novo rosto, Tatum poderá voltar a fazer parte do mundo.

"Eu procurei ficar em casa", diz ele. "Não gosto de sair por aí onde há crianças, já que não quero que elas vejam algo como isto. É apavorante".

Mas neste momento ele planeja uma segunda lua de mel.

"Agora vamos viajar", afirma.



Tradução: Danilo Fonseca Medicina

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