Estudo revela que nem todas as mulheres podem fazer terapia hormonal

RITA RUBIN

USA TODAY


Um estudo divulgado no Journal of the American Medical Association é o mais recente a questionar se a menopausa deve ser considerada como um estado anormal de deficiência de estrogênio que precisa ser corrigido em todas as mulheres.

Essa idéia, defendida há muito tempo, tanto pelas mulheres quanto pelos médicos, "é apenas completamente errônea", afirma Cynthia Pearson, presidente da organização de saúde feminina National Women's Health Network, com sede em Washington D.C. "Preciso ter esperança de que algo finalmente vai mudar com relação aos hábitos dos médicos".

A Wyeth-Ayerst, fabricante do Premarin, que é de longe a marca mais popular de estrogênio comercializado, financiou essa pesquisa recente. Os autores do estudo afirmam que mulheres mais velhas que não apresentavam sintomas de menopausa e que tomaram por três anos o Prempro, a combinação feita pela Wyeth de estrogênio e progestina acabaram se sentindo fisicamente piores do que aquelas que tomaram um placebo no mesmo período. Essa é a primeira pesquisa a questionar a crença pouco estudada de que os hormônios da pós-menopausa melhoram a qualidade de vida das mulheres.

O chefe da pesquisa, Mark Hlatky, cardiologista da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, afirma que as mulheres que tomaram Prempro podem ter se sentido pior devido aos efeitos colaterais, tais como corrimentos vaginais mais freqüentes, sangramento uterino e flacidez dos seios.

As mulheres que disseram sentir ondas de calor pelo corpo no início do estudo se sentiram mentalmente melhor três anos depois, após tomarem o Prempro, ao invés do placebo. Aparentemente, para elas, os possíveis efeitos colaterais compensavam o alívio experimentando por não sentirem mais as ondas de calor, que causam grande desconforto e atrapalham o sono, segundo Hlatky.

"O estudo de Hlatky faz com que se questione se, no momento, a qualidade de vida deve ser enquadrada na relação risco-benefício para a terapia de reposição hormonal", afirma JoAnn Manson, que foi co-autora de um editorial que acompanha o trabalho.

De acordo com Hlatky, se os hormônios oferecerem realmente algum benefício, as mulheres sem os sintomas de menopausas podem decidir encarar os efeitos colaterais. Mas, ele ressalta que "não existe ainda muita evidência de que o tratamento tenha um grande efeito na prevenção das doenças cardíacas". E certos estudos descobriram que a terapia de reposição hormonal feita por longos períodos pode aumentar o risco de as mulheres desenvolverem câncer do seio ou coágulos sanguíneos.

Manson, chefe da equipe de medicina preventiva do Brigham and Women's Hospital, da Universidade de Harvard, em Boston, além de outros pesquisadores, duvida de que a proteção contra cardiopatias deva fazer parte da relação risco-benefício referente à terapia de reposição hormonal.

Durante anos, muitos médicos utilizaram a terapia de reposição hormonal por acreditar que ela seria favorável ao coração, embora ela tenha sido aprovada somente para o alívio dos sintomas, e, mais recentemente, para a prevenção da osteoporose.

Não se tratava apenas de pensamento positivo. Os estudos têm demonstrado consistentemente que as mulheres que estão no período pós-menopausa e que recebem hormônios têm menos ataques cardíacos e vivem mais do que aquelas que não utilizam os hormônios.

Mas há um problema com os assim chamados estudos observacionais. Eles se concentraram em mulheres que decidiram por conta própria fazer ou não a terapia de reposição hormonal. Algumas outras características das mulheres que possuem a tendência a optar pelos hormônios, tais como um maior nível educacional e estilos de vida mais saudáveis, podem explicar melhor os resultados.

Nos últimos anos, os cientistas começaram a publicar os resultados de testes aleatórios controlados, nos quais mulheres receberam ao acaso os hormônios ou um placebo.

Vários desses testes concluíram que a terapia de reposição hormonal não reduz o risco de ataques cardíacos e derrames cerebrais. As descobertas fizeram com que a American Heart Association divulgasse um manifesto científico no verão passado, afirmando que as mulheres portadoras de cardiopatias não deveriam receber os hormônios, e aquelas sem problemas cardíacos não poderiam contar com o tratamento para prevenir as doenças do coração.

Várias mulheres e os seus médicos estão esperando que a Women's Health Initiative dê respostas definitivas sobre os efeitos dos hormônios sobre o coração. O estudo financiado com verbas públicas fez com que 27 mil mulheres no período pós-menopausa recebessem aleatoriamente os hormônios ou um placebo. Os resultados finais devem ser divulgados em 2005.

Enquanto isso, Joann Pinkerton, diretora do Health System MidLife Center, da Universidade de Virgínia, em Carlottesville, afirma que não prescreve necessariamente estrogênio para mulheres que não padecem de ondas de calor e outros sintomas da menopausa.

"Quantos médicos ainda estão prescrevendo a terapia hormonal na menopausa para todas as pacientes, isso eu não sei responder", diz Pinkerton. "Essa é a ação correta para algumas mulheres, mas não para todas".



Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos