Especialistas acreditam em revolução da robótica em futuro próximo

Edward Baig

PHOENIX, Arizona - Os demógrafos podem até não percebê-la, mas prepare-se para assistir a uma grande explosão populacional em um futuro próximo.

Os recém-nascidos não são humanos, mas são capazes de experimentar emoções e de raciocinar. Nem tampouco trata-se de animais de estimação, mas eles oferecem companhia e fazem com que os donos riam.

Eles poderão ler estórias de dormir para as crianças ou trazer uma xícara de chá para um pai doente, patrulhar o quintal para evitar a entrada de intrusos, aparar a grama, passar o aspirador de pó ou operar outros eletrodomésticos. Eles vão também ocupar o seu escritório, selecionando a correspondência ou molhando as plantas.

Estamos falando de robôs e, para Bill Gross, eles representam a evolução natural do computador pessoal. "Com todo o poder de processamento de que dispõe os microcomputadores atuais, o próximo passo é acrescentar ao equipamento funções sensoriais sofisticadas".

Na conferência anual de tecnologia Demo, em Phoenix, Gross, presidente da Idealab, anunciou o lançamento de uma companhia de programação, a Evolution Robotics, que planeja criar uma geração de robôs pessoais.

Através da criação de uma "plataforma de software aberto", que a Evolution vai licenciar para fabricantes e projetistas, Gross espera controlar essa linhagem de máquinas da mesma maneira que a Microsoft, através do Windows, adquiriu o monopólio sobre os microcomputadores.

Se tudo sair de acordo com o planejado, ele acredita que robôs produzidos em massa, baseados no software da Evolution, vão ter um preço variando entre US$ 50 (R$ 123) e US$ 5.000 (R$ 12.300), sendo que os primeiros produtos do gênero devem aparecer dentro de um ano.

Os robôs, quer se pareçam com insetos repulsivos, com seres alienígenas ou imitem a forma humana, há muito tempo caíram na estima dos fãs da ficção científica. Os estereótipos mais conhecidos são os personagens de Guerra nas Estrelas, que podem ser inteligentes como um C3-P0 ou não passarem de autômatos cômicos, tão estúpidos quando uma maçaneta de porta.

Mas, há alguns anos os robôs saíram do território da fantasia. Eles vêm sendo utilizados nas linhas de montagem de fábricas, nos equipamentos militares de reconhecimento aéreo, ou até no local em que desmoronou o World Trade Center, em Nova York, onde máquinas móveis equipadas com câmeras examinam as brechas nos destroços em busca de corpos. E os robôs são capazes ainda de funcionar como seus olhos e ouvidos quando você não pode ir para uma casa de férias ou outro local remoto.

"Eu tenho a convicção de que na próxima década presenciaremos a aplicação dos robôs em serviços domésticos e sociais, em uma escala que nunca antes presenciamos", afirma George Bekey, fundador do Robotics Research Lab, da University of Southern Califórnia, e membro do comitê de conselheiros da Evolution. Acredita-se que já existem mais de 100 companhias em todo o mundo desenvolvendo algum protótipo.

De fato, todos os elementos já estão presentes para a criação de uma classe ainda mais inteligente de robôs. Chips de computador ainda mais poderosos, menores e relativamente baratos fazem com que seja possível o raciocínio sofisticado da máquina. A tecnologia de reconhecimento de áudio e a síntese de sons dão aos robôs o dom da voz. E as tecnologias de controle remoto fazem com que os robôs possam se comunicar e responder a comandos.

A presença generalizada da Internet também é um fator importante. "A Web faz com que a existência de uma grande comunidade de compartilhamento seja tão fácil, que basta se conectarem à Internet para que os robôs possam aprender a partir da experiência de outros robôs", afirma Gross.

Gross, o candidato a rei dos robôs, é um representante cerebral da espécie humana, além de ser uma das mais persuasivas personalidades existentes. O destino quis que esse sujeito carismático de 43 anos, de estrutura corporal franzina, ficasse conhecido como "o cientista louco com a alma de empresário". O ex-diretor da Compaq, Ben Rosen, que se tornou investidor da Evolution, afirma que Gross é "a pessoa mais criativa que já conheci. Ele é inacreditavelmente inteligente, energético e entusiástico".

E o guru da utilidade de produtos, Donald Norman, que está participando dos projetos, diz: "Bill só teve que fazer uma explicação de cinco minutos para que eu aceitasse a proposta".

Filho de um ortodentista da Califórnia, Gross vendia kits de energia solar na escola de segundo grau. No Instituto de Tecnologia da Califórnia, em Pasadena, onde ele se graduou em engenharia mecânica, Gross patenteou o projeto de um auto-falante e abriu uma loja de áudio e vídeo.

Ele se tornou um astro do software na Lotus Development, antes de lançar o software educacional Knowledge Adventure, em 1991, que mais tarde vendeu.

Mas Gross talvez seja mais conhecido pela sua criação de 1996, o Idealab, que lançou a idéia de "incubador da Internet". A missão do Idealab é transformar conceitos inovadores em negócios rentáveis. Com sede em Pasadena, na Califórnia, o Idealab gerou uma longa lista de empresas, incluindo a CarsDirect.com., a Citysearch (mais tarde adquirida pela TicketMaster), a Cooking.com e a PETsMART.com. A atual rede Idealab inclui cerca de 35 companhias em vários estágios de desenvolvimento. (A Evolution Robotics foi criada através do Idealab, mas opera separadamente).

Mas alguns dos produtos do Idealab não deram certo. A revista Fortune disse que Gross é "um gerente excepcionalmente ruim, e uma figura trágica no mundo da Intenet".

Os projetos de robôs demonstrados na Demo vão variar em tamanho e quanto ao projeto. Ligados a laptops comuns da Sony e construídos com estruturas de alumínio, eles estão longe de ser elegantes. Os robôs lembram mais brinquedos que tomaram anabolizantes. Mas eles são apenas os primeiros protótipos, e não o produto final de consumo. (É claro que o projeto é algo de relativo - um robô cuja função seja apenas aspirar o pó da sua casa não precisa ter a aparência de um R2-D2). Cada um deles foi construído e programado utilizando as ferramentas de desenvolvimento e os módulos de software da Evolution. Os protótipos serão capazes de ler um livro, seguir as pessoas, desviando-se de obstáculos, e responder quando forem chamados. Eles conseguem reconhecer os objetos do dia a dia e dizer o que são, baseado naquilo que viram anteriormente.

"Os robôs subdividem os objetos em até mil características mais importantes, como por exemplo, uma face, uma caixa de sucrilhos ou uma estante", explica Gross.

Gross espera demonstrar como é fácil para qualquer um programar os robôs. Arrastando e deixando cair figuras de objetos em uma simples tela de interface que serve como um portal para a mente do robô, os indivíduos poderão escrever os seus comandos. "O ponto forte deste sistema não é o fato de o robô poder descobrir o que é uma estante", diz Gross, "mas que o robô possa reagir a esses objetos da forma que foi definida pelo usuário".

De fato, Gross enfatiza que os seus robôs serão autônomos: eles são capazes de analisar uma situação e descobrir o que fazer -ou, em outras palavras, pensar. "Uma das coisas mais importantes envolvidas nesse projeto é a diferença entre controle remoto e autonomia", explica. "O controle remoto na verdade não passa de um ser humano com alguns controles".

Norman acrescenta que as emoções vão se transformar em um importante mecanismo de sobrevivência para os robôs, assim como são para as pessoas. "Nada é capaz de tornar esse robô mais feliz do que receber a ordem de buscar uma Coca-Cola para o seu dono e ver um caminho desimpedido pela frente. Mas se ele começar a perceber objetos pelo trajeto, o robô ficará um pouco aborrecido. E se as luzes se acenderem, ele ficará surpreso. O que um bom robô deveria fazer em tal situação seria parar, olhar em volta e tentar descobrir a causa para o que aconteceu".

Qualquer que seja o tipo final dos robôs, a Evolution provavelmente não os construirá. Gross organizou uma talentosa equipe de engenheiros e conselheiros, recrutados em universidades e empresas. Mas são as empresas externas e os laboratórios que provavelmente vão criar os robôs - a Evolution vende kits de programação (incluindo componentes de hardware) aos projetistas por um preço que varia entre US$ 1.500 (R$ 3.680) e US$ 5.000 (R$ 12.300).

"O ponto mais importante da visão de Bill é que o seu projeto consiste em uma plataforma aberta", afirma Norman. "E se deixarmos que milhares de pessoas em todo o mundo usem o kit, elas vão inventar coisas surpreendentes".

De sua parte, o produtor da Demo, Jim Forbes, acha que os robôs vão ter um desempenho extraordinário nas áreas de segurança, agricultura, fábricas e outras tarefas mundanas. "Não vejo necessariamente esses robôs como serviçais domésticos", diz ele. "Não gostaria que os meus netos acordassem, quando bebês, e a primeira coisa que vissem fosse alguma espécie de robô mecânico. Não posso suportar esse tipo de carga psicológica".

O presidente do Idealab pode ser mais passional sobre robôs do que foi com relação a qualquer um dos seus negócios anteriores. Mas o que poderia desanimá-lo? "Creio que o maior risco é a expectativa", diz ele. "Se todos quiserem comprar amanhã um C3-P0 por US$ 1.000 (R$ 2.459), não seremos capazes de atender à essa expectativa".

Mas Gross acredita que as pessoas entendem que concretizar esse tipo de visão leva tempo. Quer a sua idéia dê certo ou não, Gross está convencido de que um futuro robótico é inevitável: "Não há nada mais grandioso do que isso".

Tradução: Danilo Fonseca

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