Cinema americano não reflete diversidades sociais

Susan Wloszczyna e Anthony de Barros

Os filmes se classificam em várias categorias. Ação, comédia, drama... Mas eles não refletem a realidade.

Até mesmo os observadores descompromissados do cinema tradicional sabem disso. Mas quem poderia ter imaginado que os filmes de Hollywood perderiam com tanta intensidade o foco social?

Utilizando várias das mesmas categorias encontradas pelo censo dos Estados Unidos de 2000, o USA TODAY compilou estatísticas sobre idade, raça e sexo dos atores e personagens em filmes de 2001 que foram exibidos em pelo menos 600 cinemas. Ao todo, 570 papéis - tanto os principais como os coadjuvantes - e 135 filmes foram incluídos na pesquisa.

Entre as descobertas:

-Os hispânicos representam 12,5 % da população, mas os atores hispânicos atuaram em apenas 4,9% dos papéis pesquisados.

-Na vida real, a população está dividida aproximadamente meio a meio entre homens e mulheres. Já nos filmes, os homens dominaram entre 65% e 35% de todos os papéis pesquisados, e entre 75% e 25% dos papéis principais.

-Nos Estados Unidos, a idade média da população feminina é ligeiramente maior do que a dos homens, 36,5 contra 34, respectivamente. Mas os homens são mais velhos do que as mulheres nos filmes analisados, com idades médias de 38 anos contra 30 anos, respectivamente.

-Cerca de metade dos americanos com mais de 15 anos é casada, mas somente 18,1% dos personagens dos principais filmes o são.

Os indicados na terça-feira para o Oscar de melhor filme refletem o fato de que a complexa sociedade dos Estados Unidos dificilmente é retratada nas telas. Há os atores brancos, a maioria dos quais homens, de "A Beautiful Mind"; os também brancos, e em sua maioria homens, de "O Senhor dos Anéis"; o elenco de atores brancos britânicos de "Gosford Park"; os amantes solteiros e brancos de "Moulin Rouge"; e o casal branco de "In the Bedroom".

É bem verdade que muitos indicados para o Oscar ousaram violar as convenções de Hollywod. Para os iniciantes, 'Mind', 'Bedroom' e 'Gosford' têm como tema duplas casadas e mais velhas. E os indicados para melhor interpretação, Halle Berry, Denzel Washington e Will Smith estão entre os poucos negros que fizeram os papéis principais em dramas. De fato, são 29 anos desde a última vez em que três negros foram indicados para as principais categorias de atuação em um mesmo ano.

Alguns cinéfilos adoram essas raras exceções. Mimi Gan, de 45 anos, uma jornalista sino-americana de televisão que mora em Seattle, e que tem duas filhas, de três e cinco anos, ficou satisfeita quando 'Mulan', com a sua confiante heroína asiática, estreou em 1998. Mas ela está vendo a sua herança cultural ficar reduzida a Jackie Chan, um palhaço popular do Kung-Fu. Não é de se surpreender que quase todos os asiáticos analisados pela pesquisa faziam filmes de ação. "Creio que entendo", diz Gan. "Tudo se reduz às bilheterias dos cinemas. Sendo assim, por que eles deveriam tentar fazer algo diferente?".

O estudo revela que os asiáticos são um dos muitos grupos marginalizados nas salas de cinema.

Jennifer Lopez, que é descendente de porto-riquenhos, conta com toda a fama que uma celebridade pode obter. Mas ela é apenas uma entre alguns poucos atores e atrizes hispânicos que conseguem papéis principais de maneira consistente. Embora o número de hispânicos nos Estados Unidos tenha disparado, aumentando em 58%, ou 35,3 milhões de indivíduos, desde o censo de 1990, os produtores de cinema não se empenharam em acompanhar essa expansão.

Isso apesar de os hispânicos terem sido identificados durante anos como a audiência de cinema que mais cresce, segundo a Motion Picture Association of America, que se recusa a fazer comentários sobre o assunto. Esse grupo étnico foi responsável por 14% das vendas de ingressos em 2000. Conforme afirma Santiago Pozo, especialista em marketing para platéias hispânicas, "somos um gigante invisível".

Luis Reyes, co-autor do livro 'Hispanics in Hollywood', chama atenção para o fato de a população de língua espanhola ter sido parte da indústria cinematográfica desde o seu surgimento. "O motivo pelo qual os filmes eram feitos em Hollywood era a disponibilidade de uma força de trabalho barata", diz ele. "Hispânicos, negros e asiáticos, todos eles se instalaram aqui".

Mas essa contribuição feita no passado se traduziu em apenas uma exposição muito limitada nos filmes atuais. "Não existe nenhum Richard Gere latino, indivíduos capazes de fazer um filme atrás do outro", diz Reyes. "Antonio Banderas é o único. Andy Garcia chega perto, mas ele nunca conseguiu realmente fazer um filme que fosse sucesso de bilheteria. Jennifer Lopez é uma estrela. Salma Hayek, também, até certo ponto. Mas até esses acham difícil conseguir o roteiro certo".

A beldade espanhola Penelope Cruz, uma grande estrela no seu país de origem, parece contar com todos os fatores para chegar lá, incluindo os créditos notáveis em filmes estrangeiros ganhadores do Oscar como 'Belle Epoque' e 'All About My Mother'. Mas ela ainda tem que avançar muito neste país, apesar de ter participado de três filmes no ano passado: 'Blow', 'Captain Corelli's Mandolin' e 'Vanilla Sky'.

Os diretores de Hollywood querem a atuação da atriz. Eles apenas não sabem como fazer com que a platéia americana deseje vê-la nas telas.

"Olhem só o que fizeram com ela. No seu primeiro papel em língua inglesa, ela é uma mexicana. No segundo, também uma mexicana. Na Espanha ela faz todo tipo de papel, desde uma senhorita virginal, até uma mulher sedutora", critica Reyes.

Pozo que acabou de lançar a primeira empresa cinematográfica hispânica, juntamente com a Universal Pictures, afirma que a culpa por tal situação é da falta de entendimento do mercado. "Os outros estúdios praticamente não tem idéias quanto a esse fenômeno. Eles conhecem os números, mas não fazem nada para tirar vantagem desses índices. É necessário que haja uma equipe capaz de vender o produto".

As mulheres também lutam para ter um impacto. Embora as mulheres correspondam a 51% da população, elas atuam em apenas 35% de todos os papéis pesquisados, e somente em 25% dos papéis principais.

"Quando o movimento feminista era muito influente, havia mais esforço nesse sentido", diz Elayne Rapping, professora de estudos norte-americanos na Universidade de Buffalo. "Na verdade, o público feminino parece exigir isso. Mas nas últimas décadas houve um declínio da pressão feminista. Portanto, Hollywood voltou àquilo que faz mais facilmente e melhor".

Terry Press, chefe de marketing da DreamWorks, insiste em dizer que um dos motivos para tal situação é o fato de os homens desprezarem os filmes que dão destaque às mulheres. Ou melhor, às mulheres vestidas. "Adivinhe o que um cara quer ver em 'Monster's Ball?', diz ela. "Eu poderia passar uma hora falando a um expectador masculino sobre as grandes atuações. Mas o que ele gostaria mesmo de ver é Halle Berry pelada".

É claro que o astro Billy Bob Thornton também tira a roupa. Mas isso mal é mencionado pela imprensa especializada.

Segundo os especialistas, colocar homens nos papéis principais é algo que traz poucos riscos, já que os homens e as mulheres preferem que as coisas sejam assim.

"É uma questão de hierarquia", diz Shirley Glass, psicóloga de Baltimor e cinéfila ávida. "Aqueles que estão em uma posição de menos poder têm mais inclinação a se interessarem por outras com mais poder".

Em média, a idade dos atores parece coincidir com o censo. A média nacional é 35,3 anos e a dos atores de 35 anos. Mas um exame mais detalhado revela uma grande divisão quando se faz a separação por sexo. Enquanto que a média de idade das mulheres nos Estados Unidos é de 36,5 anos, essa média é de apenas 30 anos nos filmes. E a grande maioria das atrizes de cinema, 70,2%, tem entre 20 e 39 anos, uma faixa etária onde se encaixam apenas 28,2% das mulheres americanas.

Compare esses números com os dos homens, que possuem a tendência a ser mais velhos nos filmes do que na vida real (eles têm uma idade média de 38 anos nos filmes e 34 na população dos Estados Unidos). Quase 48% dos atores masculinos têm mais de 40 anos, comparados a 40% na população norte-americana.

Portanto, enquanto uma estimada vencedora do Oscar como Vanessa Redgrave, de 64 anos, pega uma ponta no drama pouco assistido de Jack Nicholson, 'The Pledge', Gene Hackman, também vencedor do prêmio da Academia, aos 71 anos está mais ativo do que nunca, tendo feito quatro filmes em 2001: 'Heartbreakers', 'Heist', 'Behind Enemy Lines' e 'The Royal Tenenbaums'. E em três deles Hackman pegou o papel principal.

"Aquilo que os filmes vendem é o que o povo gosta", diz Glass. "Os homens mais velhos são prestigiados na nossa sociedade, ao contrário das mulheres idosas".

Essa situação pode ter em parte uma motivação econômica. Mais homens adultos freqüentam os cinemas (uma vez por mês ou mais) do que mulheres adultas -33% contra 24% em 2000, segundo a Motion Picture Association of America. Portanto, as fantasias masculinas têm prioridade. "O que atrai os homens é beleza e juventude", diz Glass.

Mas isso não é uma desculpa para que filmes não forneçam vários modelos fortes femininos e ignorem as relações adultas entre os sexos. "As imagens das mulheres são cada vez mais irrealistas em termos de idade, estilo de vida e peso. Uma mulher trabalhadora de mais de 40 anos não é considerada interessante. Não era assim nas décadas de trinta e quarenta, quando Joan Crawford e Katharine Hepburn tinham permissão para ser adultas", afirma Rapping.

Os homens também são afetados por essa imagem feminina distorcida. "Eles não estão preparados para as mulheres reais", diz Rapping.

Aparentemente, parece que Hollywood está fazendo um trabalho decente quanto a representar um dos segmentos da sociedade. Embora os negros componham 12,3% da população, os atores negros perfazem 16,2% de todos os papéis e 15,2% dos papéis principais.

Junte a isso um ano que propiciou vários sucessos de artistas negros - Smith, em 'Ali', Washington, em 'Training Day' e Berry, em 'Monster's Ball' -e parece que está havendo progresso, não?

"Hollywood se saiu tão mal como sempre", critica Tanya Kersey-Henley, editora da revista Black Talent News. "Os nomes são mais reconhecíveis e, portanto, parece que há mais atividade".

Mas há também o contexto. Qual é o gênero com o maior índice de presença negra? As comédias, exibindo 44,9% dos atores negros. E o estudo mostrou que os negros nas telas são com maior freqüência colocados em um grupo econômico mais desfavorecido do que os brancos, em uma relação de 23% contra 17%. A Motion Picture Association of America anunciou que os negros representam 13% da platéia dos cinemas, mas outras fontes dizem que esse número chega a 25%.

Se tantos negros já estão fisgados, por que se importar em melhorar a situação? "Se os negros anunciassem que só iriam assistir aos filmes com atores negros, Hollywood perderia uma bolada e passaria a prestar atenção", diz Kersey-Henley.

Provavelmente a maior incongruência entre a realidade e os filmes diz respeito ao estado civil dos personagens. Cerca de 49% da população com mais de 15 anos é casada, enquanto que nos filmes apenas 18,1% dos principais personagens contraíram o matrimônio.

"Hollywood está muito mais interessada no que acontece antes do casamento", afirma Carl Plantinga, professor de comunicação do Calvin College, em Grand Rapids, Michigan. "As comédias românticas sempre terminam quando os casais acabam juntos. É bem mais divertido trabalhar com os conflitos".

Nos filmes de ação, um fato que ajuda é os heróis não estarem presos a relacionamentos, de forma que podem correr o mundo fazendo resgates sem ter que ligar para casa a toda hora. E poucos jovens envolvidos com as comédias adolescentes sexy de 2001 -incluindo 'Say It Isn't So', 'Saving Silverman' e 'American Pie 2' -possuem um paradigma nupcial na cabeça.

Parte da culpa fica por conta da obsessão de Hollywood com a juventude, que possui raízes econômicas. Os dados da Motion Picture Association of America referentes a 2000 demonstram que mais adolescentes do que adultos vão ao cinema com freqüência, 49% contra 27%.

Mas, será que, sendo um entretenimento de influência, os filmes teriam a obrigação de mostrar a vida como ela realmente é?

"Os filmes vistos pelas massas têm uma obrigação de serem divertidos e sedutores", diz Press, da DreamWorks. "Às vezes eles refletem a realidade, às vezes não. Graças a Deus. Os filmes são uma forma de escapismo".

Mesmo assim algumas tentativas têm sido feitas no sentido de se abordar determinadas questões de forma mais sensível. "Se eles fizessem hoje o filme 'West Side Story', a produção provavelmente seria diferente", diz Press. A menos que um estúdio desejasse enfrentar protestos furiosos, uma atriz hispânica, e não uma estrela branca, como Natalie Wood, receberia o papel de Maria.

Na melhor das hipóteses, os estúdios tentam realizar uma mistura razoável.

Marc Shmuger, vice-diretor da Universal, diz: "Tentamos criar uma gama diversa de filmes com uma variedade de assuntos e de audiência. Essa descrição se encaixa perfeitamente a 'A Beautiful Mind'. Trata-se de um exame edificante e interessante da doença mental".

"A atividade de ir ao cinema é típica dos jovens, e isso é refletido nas telas. O que vemos é algo de mais jovem, bonito e estimulante do que a chatice da nossa vida doméstica", acrescenta Shmuger.

Mas há perigos em sub-representar, sobre-representar ou até mesmo ignorar segmentos da sociedade nos meios de massa, especialmente ao se considerar que a população está envelhecendo. A idade média é 2,4 anos maior do que dez anos atrás, e um número 12% maior de pessoas tem mais de 65 anos.

"Para Hollywood, seria uma falsidade afirmar que isso é apenas escapismo", diz Rapping. "Freqüentemente, aquelas coisas que levamos menos a sério são as que têm maior impacto. Nós incorporamos mensagens enquanto assistimos filmes, sem sequer refletir".

No entanto, segundo Plantinga, é possível chegar a um compromisso. "Talvez, pedir que eles absorvam toda a realidade seja muito. Seria mais justo pedir que a indústria cinematográfica considerasse os tipos de fantasias que colocam nas telas e o que nos ensinam. Precisamos ter mais hispânicos e mulheres idosas, não só devido a questões demográficas, mas porque, assim fazendo, nós não desvalorizamos esses indivíduos".

Tradução: Danilo Fonseca

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