Viagens estelares devem ser feitas por núcleos familiares, dizem pesquisadores

Dan Vergano

Boston, EUA -- A primeira viagem do homem a um outro sistema solar poderá se assemelhar mais ao drama "Perdidos no Espaço" do que ao dinâmico "Tropas Estelares", segundo especialistas que analisam o aspecto humano das jornadas espaciais.

Segundo a opinião de um antropólogo que discursou em uma reunião de cientistas da Associação Norte-Americana para o Avanço da Ciência, em Boston, se a humanidade se engajar nas viagens de longa duração para visitar planetas distantes, os viajantes espaciais teriam que estar organizados em núcleos familiares, ao invés de utilizarem o modelo de expedição militar adotado pelos astronautas de hoje. O encontro incluiu especialistas em lingüística, genética e psicologia.

Para viagens com duração de séculos, o antropólogo John Moore, da Universidade da Flórida em Gainesville, acredita que serão formados grupos familiares, que se reproduzirão e criarão gerações de crianças no espaço, da mesma forma que os clãs familiares, séculos atrás, viajaram em embarcações rústicas da Polinésia para o Havaí. No ano passado, um relatório da Academia Nacional de Ciências divulgou que as doenças mentais, a perda de tecido ósseo e a fraqueza do músculo cardíaco são problemas em potencial, caso os seres humanos embarquem em viagens com a duração de três anos para Marte. Mas Moore afirma que, ao se lançar grupos familiares em missões de longa duração, haveria mais estabilidade do que se fossem enviados estranhos destituídos de vínculos mais profundos entre si.

"Viajando em família temos muito menos propensão a enlouquecermos no espaço e maior probabilidade de desempenharmos as nossas missões interestelares", afirma Moore.

Nos últimos anos, os astrônomos detectaram sinais de cerca de 80 planetas, todos eles aparentando ser gigantes gasosos, que lembram Júpiter e Saturno, girando em órbita de estrelas próximas. Com o aperfeiçoamento das técnicas de busca por novos planetas, muita gente prevê que satélites de pesquisa encontrarão um planeta semelhante à Terra, no que diz respeito ao tamanho e distância da sua estrela, por volta de 2020.

Mas entre localizar um tal planeta e enviar uma sonda até ele há uma diferença muito grande, diz Geoffrey Landis, do Centro de Pesquisas John H. Glenn, da Nasa.

As espaçonaves mais velozes lançadas até hoje, as sondas Voyager, precisariam viajar durante 70 mil anos para chegar até Alfa Centauro, a estrela mais próxima da Terra. Até mesmo a luz, viajando à maior velocidade possível no universo, levaria 4,4 anos para atingir Alfa Centauro.

"A má notícia é que as viagens interestelares não são como em 'Jornadas nas Estrelas'", afirma Landis. "A boa notícia é que essas viagens não são impossíveis de serem realizadas".

Embora engenheiros tenham imaginado espaçonaves exóticas, impulsionadas por anti-matéria, velas solares ou fusão nuclear, eles só conseguiriam reduzir o tempo de viagem para algo entre 40 e 400 anos. Os participantes da reunião discutiram as questões relativas à vida a bordo de uma tal espaçonave.

Uma das questões discutidas no encontro: qual é o número mínimo de colonos espaciais que poderiam se estabelecer no novo sistema planetário sem sofrer as conseqüências da consangüinidade?

No mínimo 80 indivíduos, caso as faixas etárias dos viajantes originais fossem equilibradas, diz Dennis O'Rourke, da Universidade de Utah, em Salt Lake City. A professora de lingüística Sarah Thomason, da Universidade de Michigan em Ann Arbor, afirma que novos dialetos inevitavelmente surgiriam em uma viagem longa, e palavras que não fossem necessárias, tais como "esquiar" e "arranha-céu", desapareceriam do vocabulário. Mas os viajantes espaciais ainda entenderiam as expressões terrestres, assim como os nossos contemporâneos conseguem ler Shakespeare.

Tradução: Danilo Fonseca

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