Cresce o número de homens que decidem fazer trabalhos domésticos nos EUA

Barbara Hagenbaugh

Quando Norm Payne recebeu uma oferta de aposentadoria precoce da IBM, há dois anos, ele não pensou duas vezes e agarrou a oportunidade.

Payne, 56, diz que conseguiu se aposentar mais cedo na empresa onde trabalhou por 32 anos porque a sua mulher, Linda, 52, trabalhava como enfermeira em um centro de assistência social.

Embora histórias como a de Paynes fossem desconhecidas 50 anos atrás, hoje em dia não se trata de mais de algo incomum. A taxa de participação da força de trabalho masculina -- o percentual de homens com mais de 15 anos de idade que estão trabalhando ou procurando emprego -- caiu ao nível mais baixo já registrado em janeiro, chegando a 73,6%. Isso representa um decréscimo de mais de 2% com relação a uma década atrás, e de mais de 13%, quando comparado a 1952.

Já as mulheres têm aumentado a sua presença no mercado de trabalho. Embora o número de mulheres com mais de 15 anos de idade inseridas no mercado de trabalho tenha recuado ligeiramente para 59,6% em janeiro, o índice aumentou em quase 2% com relação a dez anos atrás, e quase 25% relativamente a 1952, segundo dados divulgados no início deste mês pelo Departamento do Trabalho.

Com duas fontes de renda, os Payne compraram a maior quantidade possível de ações da Bolsa, pagaram as mensalidades máximas do plano de aposentadoria privada e fizeram investimentos adicionais -- tudo isso enquanto criavam cinco filhos.

"Um terço dos nossos rendimentos foram para a poupança, um terço para o pagamento de impostos e o terço restante gastamos com as nossas despesas", conta Norm Payne.

"Juntando os nossos dois salários, ficamos com um rendimento muito, muito bom", diz ele. "Não seríamos capazes de poupar quase nada se ela não estivesse trabalhando".

Os economistas atribuem a queda do número de trabalhadores do sexo masculino, em grande parte, aos rendimentos femininos. Famílias onde os dois membros do casal trabalham podem ser capazes de viver do salário da mulher, além de possibilitar que se poupe mais. Isso permite que os homens deixem de trabalhar ou se aposentem mais cedo, quer eles recebam uma proposta de rescisão de contrato, quer sejam despedidos, fiquem doentes ou simplesmente queiram abandonar o escritório.

"O progresso feito em termos de se atenuar a discriminação contra as mulheres no mercado de trabalho significa que as famílias passaram a contar com mais opções", afirma William Dickens, pesquisador do Brookings Institution.

Os Paynes pouparam tanto que, quando Norm se aposentou, Linda pôde largar seu emprego. Eles venderam a casa, a mobília e todos os seus bens, compraram uma "casa motorizada" por US$ 180 mil (R$ 436 mil) e, por dois anos e meio, têm viajado pelos Estados Unidos e Canadá.

As suas despesas chegam a US$ 4 mil (R$ 9,7 mil) por mês (o balanço detalhado das suas despesas pode ser visto no site www.seeya-downtheroad.com) e calculam que podem passar o resto de suas vidas viajando, usando o dinheiro que investiram, "a menos que as Bolsas de Valores continuem caindo", diz Payne, rindo ao seu telefone celular, falando do local onde a sua casa móvel está atualmente estacionada, em Port St. Lucie, na Flórida.

Quando Kimberly e Don Leiser tiveram um bebê, dois anos atrás, eles queriam que um dos pais ficasse em casa para cuidar do filho, Brandon. Mas a questão era saber quem largaria o emprego. Eles escolheram Don, simplesmente porque os contracheques de Kimberly eram mais gordos.

"Minha mulher é contadora pública. Eu era bibliotecário. Basta calcular quem ganhava mais", diz Don Leiser, 30.

Craig Bonnel, 33, no mês passado deixou o seu emprego, que consistia em vender canções de blues para emissoras de rádio. Ele tomou essa iniciativa a fim de tomar conta do filho de oito meses, Nathaniel. A sua mulher, Jennifer Vachon, 33, continua a trabalhar como consultora de serviços de saúde.

Assim como os Leiser, Bonnell diz que a decisão foi tomada devido a fatores meramente financeiros. A sua mulher ganha mais dinheiro que ele e conta com mais oportunidades para progredir na carreira. Além disso, "ela está no limiar para se tornar uma trabalhadora compulsiva, enquanto eu estou no limiar do vício em ociosidade", diz Bonnell.

Além de um aumento do número de mulheres na força de trabalho, os economistas atribuem o declínio nas taxas de participação dos homens no mercado de trabalho ao desenvolvimento tecnológico. Os empregos que exigem trabalhos musculares pesados, que eram feitos tipicamente pelos homens, diminuíram, proporcionando menos opções de trabalho para os homens com poucas habilidades técnicas. Os economistas também afirmam que onda de prosperidade das Bolsas de Valores e do mercado imobiliário na década de 90, também trouxe riqueza e permitiu que muitos homens se aposentassem. Eles afirmam ainda que houve um aumento no número de ofertas de aposentadorias precoces no decorrer das últimas décadas.

Embora as taxas de participação na força de trabalho venham caindo para os homens de todas as faixas etárias, os maiores declínios aconteceram para os indivíduos que têm mais de 55 anos. Em 2001, 68% dos homens entre 55 e 64 anos de idade participavam do mercado de trabalho, um índice 20% menor do que em 1951. Para os homens com mais de 64 anos, a participação na força de trabalho era de 18% em 2001, o que representa uma queda de 45% em relação a 1951, segundo dados governamentais.

"Durante um certo período houve uma pressão para que as pessoas deixassem mais cedo o mercado de trabalho", diz Richard Toikka, economista-chefe do Employment Policies Institute, em Washington D.C.

"Sabemos também que, em alguns casos, a duração do desemprego para os homens mais velhos é maior", diz Toikka.

Períodos longos de desemprego podem fazer com que alguns homens desistam de vez de procurar uma ocupação e deixem o mercado de trabalho, explica Toikka.

Embora o declínio da participação masculina no mercado de trabalho ainda não tenha causado um grande impacto na economia como um todo, ele poderá gerar problemas caso o número de homens que deixem o mercado de trabalho seja menor do que o número de mulheres que nele ingresse.

Um decréscimo significativo na força de trabalho poderia levar a uma redução nos Impostos de Renda e verbas para os programas federais, tais como a Previdência Social.

"Isso é algo com o qual temos que nos preocupar", afirma Michael Robinson, professor de economia do Mount Holyoke College, referindo-se à geração que se aproxima da idade de aposentadoria. "Caso o índice de participação na força de trabalho fique muito baixo, não haverá dinheiro suficiente para cobrir tais fundos".

Tradução: Danilo Fonseca

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