Aditivos em alimentação infantil podem aumentar o QI dos bebês

Rita Rubin

Quem nunca comprou fórmula infantil pode ficar surpreso com a variedade desse produto existente no mercado.

Não dá para encontrar os sabores chocolate ou baunilha, mas há fórmulas com ou sem leite natural, lactose, e amido de arroz, apenas para mencionar alguns ingredientes. Para a maior parte dos pais que decide utilizar a fórmula modificada, a escolha do tipo de produto usado vai depender de o bebê cuspir ou aceitar determinada marca ou sabor.

Mas, a partir desta semana, a escolha vai se tornar mais complicada.

A Mead Johnson Nutritionals está introduzindo o Enfamil Lipil, um leite modificado que contém dois ácidos gordurosos encontrados no leite materno, que os cientistas dizem estar associados ao desenvolvimento do cérebro e da visão. E, em abril, o Ross Laboratories planeja lançar no mercado um produto similar, o Similac Advance.

Para aqueles pais ansiosos por dar um "empurrãozinho" nos seus bebês, antes mesmo que eles comecem a andar -- pense só nos vídeos do tipo "Baby Einstein" e nos brinquedos interativos -- os novos produtos podem ser especialmente atraentes. Mas será que os novos leites modificados poderão determinar se as crianças irão para o jardim de infância dos sonhos dos seus pais?

A estréia desses produtos nos Estados Unidos ocorre anos após uma polêmica científica sobre o valor de se adicionar o ácido docosahexaenóico (DHA) e o ácido araquidônico (ARA) -- duas substâncias básicas para a formação do cérebro e da retina -- às fórmulas infantis.

Os defensores do produto citam estudos nos quais o leite modificado enriquecido com essas substâncias pareceu aumentar o desenvolvimento do cérebro e da retina, comparado ao leite modificado tradicional.

"A minha interpretação dos trabalhos é que existe um nítido benefício para o desenvolvimento neurológico", afirma Norman Salem, do Instituto Nacional sobre o Abuso do Álcool e das Drogas, que realizou algumas das pesquisas. "A minha opinião pessoal é que o suplemento deveria ser obrigatório".

Porém, a Adminstração Nacional de Alimentos e Remédios (FDA), a Academia Norte-Americana de Pediatria e alguns cientistas dedicados a essa área de estudos ainda não estão convencidos de que o leite modificado acrescido de suplementos, que deve ser 10% a 15% mais caro que a fórmula infantil convencional, farão muita diferença para os bebês não prematuros.

"Tem muita gente que possui opiniões fortes sobre esse assunto", afirma William Heird, especialista em nutrição pediátrica da Faculdade de Medicina Baylor, em Houston, que não está incluído no grupo de entusiastas do leite modificado enriquecido. "Eu sempre estou reavaliando os dados e pensando em fatores que podem estar passando despercebidos".

Nancy Krebs, diretora do comitê de nutrição da Academia Norte-Americana de Pediatria, compartilha do ceticismo de Heird. A suplementação "está longe de ser uma vantagem clara", diz Krebs, que é também professora de pediatria da Escola de Medicina da Universidade do Colorado.

Em meados do ano passado, a FDA anunciou que o DHA e o ARA seriam seguros. A agência, no entanto, não chegou nem a sugerir que os produtos que contém esses suplementos seriam melhores para os bebês.

"Alguns cientistas dizem que sim; outros dizem que não. Não há evidências suficientes", afirma Christine Taylor, diretora do Departamento de Produtos Nutricionais, Rótulos e Suplementos Dietéticos da FDA. "Estamos dedicando bastante tempo a avaliar cientificamente os novos produtos".

Embora as companhias não contem com a permissão governamental para sair anunciando que os bebês que tomam seus novos produtos ficarão mais inteligentes do que aqueles que tomam a fórmula infantil convencional, alguns médicos e pais estão convencidos disso há muito tempo.

Antes de que a fórmula infantil enriquecida com complementos se tornasse disponível ao consumidor, eles já aconselhavam as mulheres que não amamentavam os seus bebês a adicionar DHA purificado ao leite modificado convencional.

No útero, o feto recebe DHA e ARA da mãe. Isso é especialmente importante no decorrer do último trimestre da gravidez. Portanto, os estudos iniciais com as fórmulas enriquecidas se concentraram nos bebês prematuros. Após o parto, os bebês amamentados no seio da mãe recebem o DHA e o ARA através do leite materno, embora os níveis de DHA nas mulheres norte-americanas venha caindo há décadas, porque elas têm consumido menos peixes gordurosos, tais como o salmão, e comido mais alimentos industrializados.

Os especialistas médicos concordam quanto ao fato de que o leite materno seja o melhor alimento para os bebês, mas a realidade é que somente uma minoria das mulheres norte-americanas amamenta além dos primeiros meses de vida do bebê. Embora dois terços delas amamentem os bebês no hospital, logo após o parto, a metade pára de amamentar os seus filhos quando estes fazem seis meses de idade. E muitas mulheres que amamentam também dão mamadeiras com fórmula infantil aos seus bebês.

"Creio que o que podemos esperar, na melhor das hipóteses, com relação ao leite modificado enriquecido, é diminuir a diferença de QI entre os bebês alimentados com leite materno e aqueles que consomem o leite modificado", afirma Robert Gibson, cientista de nutrição infantil do Flinders Medical Centre, no sul da Austrália. "Creio que essa diferença não deveria ser superior a algo entre três e cinco pontos de QI".

Mas vários estudos não incluíram um número suficiente de bebês para possibilitar que se detectasse uma diferença tão pequena, diz Gibson. Portanto, em alguns casos observou-se um benefício, e em outros não. Mesmo assim, antes mesmo de a pesquisa ter sido publicada, a Organização Mundial de Saúde começou a recomendar, a partir de 1994, que o DHA e o ARA fossem adicionados ao leite modificado para bebês.

Os fabricantes norte-americanos de leite modificado já vendem produtos enriquecidos em dezenas de países, tanto para bebês prematuros quanto para aqueles que nascem depois do período normal de gestação. Em vários desses países, as vendas das fórmulas enriquecidas suplantaram aquelas das fórmulas tradicionais, ainda que as primeiras sejam mais caras.

Por que alguém deveria questionar se o custo extra, neste caso, vale a pena? Um motivo é o fato de as fórmulas convencionais conterem gorduras precursoras do DHA e do ARA. Bebês que nascem após um período normal de gestação são capazes de sintetizar DHA e ARA a partir dessas gorduras, embora aqueles que proponham o uso das fórmulas enriquecidas acreditem que nem todos os bebês possam produzir uma quantidade de DHA e ARA que seja suficiente para um cérebro em rápido processo de crescimento.

E, embora nenhuma pesquisa tenha sugerido que a adição de DHA e ARA à fórmula pudesse fazer mal aos bebês, nem todo estudo achou que isso seria uma providência útil. "Não creio que se possa descartar totalmente os estudos que mostram uma diferença positiva, mas é preciso reconhecer que existem estudos igualmente bons que não demonstram diferença alguma", diz Heird.

Um desses estudos, liderado por cientistas da Ross, a fabricante do Similac, e custeado pela empresa, foi divulgado na edição de agosto do mês passado da revista "Pediatrics". Segundo William MacLean Jr., vice-presidente de assuntos médicos e regulatórios da Ross, o estudo mostra que o Similac convencional contém todos os ácidos gordurosos de que os bebês necessitam. A Ross vem estudando os efeitos do DHA e do ARA desde 1987, afirma MacLean. "Eu achava que teríamos fórmulas infantis acrescidas de DHA nos próximos três ou quatro anos".

Embora a Ross tenha anunciado no mês passado que vai introduzir uma fórmula enriquecida, MacLean diz que ainda não está convencido de que há uma necessidade científica para fazê-lo. "Temos uma longa tradição em tentar colocar à disposição de pais e pediatras uma gama de fórmulas infantis", diz ele. "É interessante se poder contar com tal opção".

James Hansen, que tem um cargo similar ao de MacLean na Mead Johnson, afirma que as diferenças entre as descobertas se devem à forma como foram elaborados os estudos, e não ao mérito dos ácidos gordurosos. Hansen afirma que a Ross não utilizou uma quantidade suficiente de DHA no seu estudo que pudesse indicar um benefício, e que o DHA usado era derivado de óleo de peixe, e não dos tanques de algas da Martek Bioscience.

Segundo Hansen, a fórmula infantil enriquecida "se constitui na melhor oportunidade para que um bebê que nasceu após um período normal de gravidez tenha um impulso inicial para o seu desenvolvimento". Mesmo assim, ele reconhece que os benefícios encontrados em bebês nascidos após o período normal de gestação "são bem pequenos", se traduzindo talvez em alguns pontos na escala de QI.

"Não há uma grande diferença de performance", afirma Hansen. "Mas gostaríamos de poder usufruir de qualquer benefício que fosse possível".

Eileen Birch, pesquisadora da Retina Foundation of the Southwest, em Dallas, foi co-autora de um dos estudos mais promissores sobre as fórmulas infantis suplementadas com DHA e ARA.

"Não estaríamos fazendo esses estudos se não houvesse controvérsias", diz Birch.

Até o momento, bebês nascidos após o período de gestação normal receberam formulas enriquecidas somente durante os quatro primeiros meses de vida. Ela acompanhou o desenvolvimento dos bebês até os 18 meses de idade.

Ainda não se sabe se o fato de alimentar bebês com mais de quatro meses com a fórmula infantil enriquecida, um período durante o qual várias mulheres trocam o leite materno pela fórmula infantil, faz alguma diferença, afirma Birch. Ela e os seus colaboradores esperam responder a essa questão em um estudo em andamento, que compara a fórmula infantil tradicional com a enriquecida durante todo o primeiro ano de vida. São recrutadas para a pesquisa apenas mães novas, em dois hospitais de Dallas. Essas mulheres indicaram que não têm planos para amamentar, diz Birch. "Nós realmente tomamos todas as precauções para não desencorajar as mães a alimentar os seus bebês".

Birch e os seus colaboradores estão agora acompanhando crianças de quatro e nove anos de idade, que participaram como bebês de estudos anteriores. Ela reconhece que os testes de habilidade de raciocínio que fazem nos bebês não proporcionam necessariamente a previsão da inteligência futura. Segundo Birch, na maioria dos casos os testes são elaborados para que se possa identificar as crianças que necessitam de atenção especial, não fazendo distinção entre as crianças inteligentes e as extremamente inteligentes.

Embora não se tenha uma resposta para todas as dúvidas com relação à fórmula infantil, Birch afirma: "Penso que o fato de que o produto seja mais semelhante ao leite materno, e que não cause nenhum problema de saúde, vai fazer com que a fórmula enriquecida atraia o consumidor".

Tradução: Danilo Fonseca

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